“Se o presente é insatisfatório é porque a vida é insatisfatória”, a citação do escritor Gil ( Owen Wilson ) é carregada de veracidade, que...

“Se o presente é insatisfatório é porque a vida é insatisfatória”, a citação do escritor Gil (Owen Wilson) é carregada de veracidade, quem nunca sonhou viver em outra época? Uma em que as coisas fossem mais fáceis ou mais felizes. Uma das nuances pertinentes ao ser humano é viver do passado, até porque muitas vezes o passado pulsa dentro de nós, nem é necessário povoar a nossa nostalgia com tantos personagens famosos, como faz o mestre Woody Allen em seu filme, às vezes uma lembrança de momentos felizes com amigos já nos faz fazer uma viagem no tempo.

Uma delicia esse Meia Noite em Paris, um filme para assistir com um sorriso no rosto de cabo a rabo. Desde o momento em que Gil entra a primeira vez no antigo Renault e todo um passado de influencias vai traçando a vida do personagem. Uma festa com os Fitzgerald, um drinque com Hemingway, apreciar uma canção tocada por Cole Porter, contemplar uma obra de Picasso, são tantos personagens especiais que povoam a madrugada de Paris que fica difícil lembrar e citar todos. Woody Allen nos propõe uma viagem no tempo mágica para depois nos mostrar que o próprio tempo acaba sendo feito por cada um, não adianta viver de passado, mesmo sendo tão delicioso e atrativo, mas que devemos reverenciá-lo e usa-lo como inspiração para a vida.

Divagações a parte, Meia Noite em Paris apresenta uma cena antológica atrás da outra, como quando Gil visita a escritora e poeta Gertudre Stein (Kathy Bates), que parecia ser a mentora de um invejável grupo de artistas, para que ela leia seu livro ou em uma cena única e impagável em que o escritor sugere a Luis Buñuel que realize o antológico Discreto Charme da Burguesia ou seria O Anjo Exterminador? Ou ainda na viagem no tempo dentro da viagem no tempo em que junto com sua musa inspiradora, representada pela bela Marion Cottilard, eles visitam a Belle Époque e o mesmo percebe o verdadeiro significado de tudo aquilo que está vivendo, com essas improváveis incursões temporais que ainda afloram os verdadeiros sentimentos que mantém com sua fútil noiva (Rachel McAdams) na vida real.

Se Meia Noite em Paris anda sendo considerado um Woody Allen menor, pode até ser, não contem a força narrativa de recentes obras como Match Point e O Sonho de Cassandra, mas se junta a encantadoras realizações como Tudo Pode dar Certo e Vicky Cristina Barcelona, que apresentam um cineasta que mesmo com seus 76 anos parece ter um vigor inesgotável, escrevendo e filmando em profusão e sempre nos brindando com obras no mínimo interessantes, que não é o caso deste, que pode ser considerada como uma preciosa jóia. Woody Allen é como o bom vinho, quanto mais maduro melhor.


Se em Os Implacáveis – Fuga Perigosa de 1972 o estilo bem especifico do diretor Sam Peckinpah parece atrapalhar um pouco o andamento do f...

Se em Os Implacáveis – Fuga Perigosa de 1972 o estilo bem especifico do diretor Sam Peckinpah parece atrapalhar um pouco o andamento do filme, sendo usado ao maximo, nesse Sob o Domínio do Medo, feito um ano antes, o mesmo funciona perfeitamente, mesmo que mais contido, ate por ser uma historia que se propõe a ter menos ação em detrimento a nuances mais psicológicas e tensas imbuídas aos personagens.

Sam Peckinpah, que também é um dos que assina o roteiro, subverte uma situação recorrente da classe media americana ao colocar David Sumner (Dustin Hoffman), um professor de matemática ianque que procura paz em um povoado na Inglaterra de sua esposa. O local ideal para desenvolver seus projetos científicos e viver uma boa vida. Ledo engano, porque a sociedade local não o recebe bem, vendo o como um estranho, já que é culto e não compartilha de afazeres mais viris. Se ficasse somente no preconceito até que passaria bem, mas os trabalhadores contratados para reformar a sua propriedade desejam sua esposa e não vão se refutar a conseguir o que pretendem. 

Olhando friamente a sinopse, Sob Domínio do Medo promete apenas um filme de suspense, mas Peckinpah vai alem, criando uma obra em que constrói bem o perfil de David, que é afrontado a cada momento, seja pelos trabalhadores que debocham escancaradamente dele ou por sua esposa que impõe que o marido tome uma atitude. Mas como David deveria se portar diante de tal situação ostensiva? Seria ele obrigado a ter a solução para aquilo? Já que se sentia tão vitima quanto à esposa, mas no papel de homem ele deveria tomar uma decisão... demora um pouco, mas David toma.

A violência estilizada de Peckinpah também demora um pouco a surgir nessa realização, como se quisesse segurar o recurso apenas nos melhores momentos, como na polêmica seqüência do estupro da esposa de David: cruel, mas vendo nos dias de hoje pode soar até fetichista, talvez a intenção do diretor fosse criar essa dubiedade na cena mesmo, como um fio da navalha tênue entre a violência e o prazer. O David Sumner de Dustin Hoffman é um sujeito tão arrogante e apático que em certos momentos fica difícil ficar a favor do rapaz, mas provavelmente esse foi mais um dos detalhes inseridos para tornar Sob Domínio do Medo obrigatório e mais do que interessante.

P.S.: Esse filme é mais um dos que vai ganhar um remake que parece prestes a sair, com James Marsden no papel de Dustin Hoffman e capitaneado pelo diretor Rod Lurie de A Conspiração. Dispensável?


Tenho que assumir que adoro comédias despretensiosas, principalmente as que carregam humor adolescente, servem como delicioso escapismo e hi...

Tenho que assumir que adoro comédias despretensiosas, principalmente as que carregam humor adolescente, servem como delicioso escapismo e higiene mental. Claro que em sua maioria elas se apresentam recheadas de clichês ou com traminhas bem ralas, mas vez ou outra alguma surpreende em alguns aspectos, como as duas que escreverei brevemente abaixo:

 - Provas e Trapaças (Assassination of a High School President/Brett Simon/2008)

Comédia estudantil, interessante e movimentada que retrata a investigação de um aspirante a jornalista sobre o roubo de umas provas da sala da diretoria. A trama envolve algumas conspirações, como trafico de remédios e drogas, mas tudo com um humor ligeiramente ácido. O filme conta com Bruce Willis interpretando o diretor da escola, ex-combatente e paranóico, e com Mischa Barton fazendo o papel de mais popular do colégio, mesmo a moça parecendo já meio velha para o personagem. O ator principal Reece Thompson se mostra uma grata surpresa e consegue segurar o filme até o final, que ainda tem o bom gosto de apresentar uma trilha sonora com algumas canções dos Mutantes;



 - Jovens, Doidos e Alucinados (The Quest/Mike Fleiss/2003)

Bancando de falso documentário, esse filme acompanha o que seria um arranjo entre amigos para que um deles perca a virgindade em um balneário mexicano. Com um humor escatológico que se assemelha muito com o da trupe do Jackass, essa comédia é de riso fácil e com algumas seqüências de mau gosto, mas consegue causar certa surpresa captando momentos sensíveis, alem de expressar muito bem esse sentimento de juventude com tantos hormônios em ebulição. Todos os atores são desconhecidos e existe uma preocupação com que o filme realmente pareça um DOC, o que acaba sendo interessante e fugindo da mesmice de produções parecidas. Com muita bebedeira e sacanagem, ainda apresenta dois anões que inevitavelmente roubam todas as cenas em que aparecem;


São filmes com alguma graça e divertidos, que valem uma olhada em turma ou sozinho, não vão mudar a vida de ninguém, mas rir um pouco sem culpa não faz mal em nada.



Quando aparece algum filme que logo pipocam um monte de comentários elogiosos sobre acabo ficando um tanto desconfiado, mas a campanha posit...

Quando aparece algum filme que logo pipocam um monte de comentários elogiosos sobre acabo ficando um tanto desconfiado, mas a campanha positiva sobre Amizade Colorida procede, pois o longa é bem divertido mesmo, apresentando uma química exuberante entre o casal protagonista, alem de ser um sopro de audácia em meio a produções parecidas e tão politicamente corretas que costumam ser realizadas por Hollywood.

Se bem que esse ano de 2011 já houve algumas produções que descortinavam o pudor excessivo de comedias românticas, jogando o sexo logo de inicio na cara da platéia, como a dramédia Amor e Outras Drogas dirigida pela mão pesada de Edward Zwick e Sexo sem Compromisso de Ivan Reitman, que ainda não conferi (e nem sei se vou) devido a tantos comentários negativos que acabaram me desestimulando.

Alem da atuação pulsante de Justin Timberlake e da belíssima Mila Kunis (que belos olhos a moça tem, seriam só os olhos mesmo?), Amizade Colorida se torna interessante por apresentar uma trama que satiriza as próprias comédias românticas, alem dos vilões do filme serem os próprios protagonistas, que só não ficam um com outro porque querem manter a proposta de apenas fazer sexo casual, sem amor, sem obrigações. Um paraíso para alguns, mas como sabemos, não é assim que as coisas funcionam, principalmente em um filme.

O diretor Will Gluck, do divertido A Mentira de 2010, comprova que tem talento para conduzir comédias com um tom mais ácido, criando alguns momentos interessantes, como o flashmob do prólogo, além de utilizar muito bem a atmosfera de casualidades da cidade de Nova Iorque, uma cidade que parece perfeita para encontros e desencontros. Com coadjuvantes (Richard Jenkins, Patrícia Clarkson, Bryan Greenberg, Emma Stone, Andy Samberg) que dão suporte devido para a dupla principal brilhar, Amizade Colorida é uma grata surpresa e está entre as produções de destaque desse ano.


Alguns filmes sobre boxe costumam ser especiais, principalmente os que dão enfoque a personalidade e aos conflitos de seus personage...

Alguns filmes sobre boxe costumam ser especiais, principalmente os que dão enfoque a personalidade e aos conflitos de seus personagens, como Touro Indomável, Rocky, Um Lutador e esse também excelente Réquiem por um Lutador. Na verdade, essas citadas obras acabam transcendendo o que seria um filme sobre esporte para ficarem marcadas como registros sobre seres humanos que muitas vezes são fortes dentro do ringue, mas extremamente frágeis fora deles. Foi assim com o beberrão Jack La Motta, com o confuso Rocky Balboa e com esse entristecido Montanha Rivera, interpretado magnificamente por Anthony Quinn.

Mesmo não sendo reverenciado explicitamente pelas obras citadas, parece que muito de Réquiem por um Lutador esta na obra de Scorcese quanto na escrita por Stallone e dirigida por John G. Avildsen. Apresentada como uma historia ficcional, a realização do diretor Ralph Nelson parte do principio do lutador que resistiu bravamente a uma luta com o lendário Cassius Clay (Mohamed Ali), que representa ele mesmo na cena inicial. Luta que parece ter inspirado Stallone na escrita da obra de seu personagem maximo. As semelhanças não param por ai, como a boa moça (Julie Harris) que tenta arrumar um emprego para Montanha, que após a luta com Cassius Clay é proibido de entrar em um ringue novamente, já que carrega ferimentos irreversíveis que podem custar sua vida ou a relação de pai e filho que mantém com seu treinador (Mickey Rooney).

Quem for assistir ao filme esperando seqüências bem coreografadas de lutas vai se decepcionar, pois o mesmo trata realmente do desenrolar da vida de Montanha depois de sua forçada aposentadoria, mostrando suas reminiscências e de como parece ser deslocado da vida em um mundo fora das lutas, rendendo ate uma outra comparação, dessa vez com O Lutador de Aranofsky, tanto que o lutador se vê obrigado pelo seu empresário (Jackie Gleason) a entrar no mundo combinado das lutas livres para pagar algumas dividas passadas, rendendo uma terrível ironia com o personagem, que parece ter orgulho tanto das suas vitórias quanto das suas derrotas obtidas honestamente no ringue. Além do epílogo, que parece ter sido copiado/homenageado por Aronofsky para seu filme.

Réquiem por um Lutador apresenta ainda belas cenas, algumas bem tocantes, com destaque para todas protagonizadas por Anthony Quinn e Julie Harris, com diálogos que evocam superação, mas que também são carregados de melancolia e doçura. Quinn entrega uma interpretação sentimental, difícil não se comover com o caminho do lutador, que de quinto no ranking torna-se um estorvo para o empresário, a quem Montanha coloca em um pedestal, mesmo sofrendo nas mãos do homem. Apesar de curto (85 minutos), a obra de Ralph Nelson é certeira ao que se propõem. Um filme feito bem anteriormente às obras citadas, que são mais conhecidas, mas que merece tanta notoriedade quanto.


Em época de remakes, na suas maiorias ruins, eis que surge o totalmente despretensioso A Hora do Espanto , dirão que respeita bastante o ori...

Em época de remakes, na suas maiorias ruins, eis que surge o totalmente despretensioso A Hora do Espanto, dirão que respeita bastante o original. Como sempre achei o de 1985 meio mais ou menos e não era um dos meus filmes queridos de infância, digo que essa versão assinada por Graig Gillespie, do ótimo Garota Ideal de 2007, consegue ser superior, mantendo a mesma pegada cômica com momentos de tensão que geram alguns sustos, mas com o diferencial de possuir bons atores como Anton Yelchin, Tony Collette e Collin Farrell, que dá um show como Jerry, o vizinho vampiro, além do sempre engraçado Christopher Mintz-Plasse.

A historia a maioria conhece e não muda quase nada, com poucas adaptações, narra as peripécias do mesmo Charley Brewster (Anton Yelchin), garotão que mora com a mãe (Toni Collette) e namora uma gatinha fogosa (Imogen Poots). Tenta perder a virgindade com a menina enquanto foge do ex-amigo mega nerd (Christopher Mintz-Plasse) que acredita que o vizinho de Charley é um vampiro sanguinário. O diretor não demora a armar o cenário para as investidas do vampiro Jerry contra a família e os amigos do rapaz. Tudo é bem acelerado, mas consegue manter a atenção do expectador, principalmente quando entra em cena o mágico popstar Peter Vincent (David Tennant), um sujeito picareta que se revela um profundo conhecedor da mitologia dos vampiros e que inevitavelmente vai ajudar Charley.

Hora do Espanto pode parecer tentar entrar na onda recente dos filmes de vampiro iniciado pela Saga Crepúsculo, mas pode funcionar também como um antídoto para a serie baseada nos livros de Stephenie Mayer, que em vários momentos é zombada durante o filme. O destaque principal sem duvida é o vampiro de Collin Farrell, que parece se divertir o tempo todo, criando uma áurea especial para o personagem. Claro que o filme pode ter um momento falho aqui e acolá, como a seqüência logo após o epílogo, totalmente desnecessária, o 3D se apresenta bem fajuto, como a maioria, mas no final o filme diverte bastante, que é ao que se propõe, alem de ser uma delicia ver vampiros sendo representados como merecem: verdadeiros monstros.

É recorrente no cinema do francês François Ozon o estudo de situações particulares, envolvendo poucas pessoas, criando quase um mundo própr...

É recorrente no cinema do francês François Ozon o estudo de situações particulares, envolvendo poucas pessoas, criando quase um mundo próprio, aonde os personagens se antagonizam com momentos inspirados, ora criado por diálogos afiados ora por momentos intimistas e mágicos. Se em Gotas d´Água em Pedras Escaldantes, Ozon concebe uma visão tragicômica dessa situação e em O Refúgio uma representação mais dramática e até existencialista; nesse também excelente Swimming Pool – À Beira da Piscina o diretor traduz o conceito com um tom de suspense, até flertando de maneira consistente com o cinema do mestre Hitchcock.

A trama logo nos apresenta a Sarah Morton (Charlotte Rampling), uma escritora inglesa de suspense, que em crise existencial vai passar uma temporada na casa do seu editor localizada em um pacato povoado na França. Alguns dias solitários de tranqüilidade na bela residência, que ainda possui uma imponente piscina (aonde acontece as melhores seqüências e a imaginação da escritora flui melhor), seria o suficiente para compor um novo livro. Porem, o que Sarah menos contava é que Julie (Ludivine Sagnier), a bela e libidinosa filha do editor apareceria para passar uns dias também.

Desse ponto de partida, o diretor vai tecendo o relacionamento das improváveis residentes daquele belo local. Sem pressa, Ozon vai apresentando as meticulosidades de cada personagem. Sarah ranzinza e mal humorada, Julie aquela mulher que qualquer homem gostaria de ter conhecido em algum momento da vida: linda, sensual e totalmente desprotegida. Charlotte Rampling apresenta todo seu talento para conceber a personagem da escritora, transmitindo muito apenas com olhares, mas Ludivine Sagnier enche a tela de luz quando aparece, um deleite para os olhos, de deixar qualquer marmanjo de queixo caído e engraçado que a personagem é tão frágil psicologicamente que acaba levando qualquer sujeito para casa, o que rende uma  apreensão de que possa algo acontecer a qualquer momento.

Da maneira que Ozon conduz as cenas: com uma trilha sonora característica e até pelo posicionamento das câmeras, rendendo alguns enquadramentos a lá Hitchcock, o tom de suspense acaba sendo inevitável e do meio para o final o diretor se dá ao luxo de introduzir uma reviravolta mirabolante bem interessante. Da filmografia desse jovem, talentoso e prolixo diretor, talvez Swimming Pool – A Beira da Piscina seja a mais representativa, mas pela eficiência desse realizador qualquer obra acaba tornado-se obrigatória.

Nas minhas pesquisas sobre Giallos e sobre diretores que fizeram o gênero, como Mario Bava e Dario Argento , sempre esbarrava nessa ob...

Nas minhas pesquisas sobre Giallos e sobre diretores que fizeram o gênero, como Mario Bava e Dario Argento, sempre esbarrava nessa obra que recebe a curiosa alcunha de A Casa das Janelas Sorridentes. Considerada por muitos especialistas do cinema de terror italiano como uma de suas melhores realizações, o trabalho do diretor Pupo Avati não é um clássico “amarelo”, apesar de guardar algumas características, e se apresenta como um competente filme de serial killer e ainda devo dizer que nunca um assassino serial foi tratado de forma tão reverencial e artística.

A obra de Avati não tem o esmero visual de Argento, mas em compensação o diretor cria uma trama muito bem embasada de um restaurador que é convidado a uma cidade interiorana e bucólica para restaurar uma pintura de um artista local morto e um tanto macabro, conhecido como “o pintor da agonia”. A Casa das Janelas Sorridentes também não guarda a violência explicita de outras produções italianas da mesma época, mas Avati cria um clima de suspense permanente, com uma fotografia meio esmaecida e personagens tão estranhos quanto o pintor em questão.

Acompanhamos a fixação que o restaurador representado pelo ótimo ator Lino Capolicchio desenvolve pelo “pintor da agonia”, que de curiosidade passa a admiração e consequentemente se vê envolvido nos supostos assassinatos cometidos pelo artista e suas irmãs. Reza a lenda na cidadezinha, que o finado pintor gostava de registrar seus modelos em momentos derradeiros e que as suas sinistras irmãs que conseguiam as vitimas. O que torna o filme mais do que interessante é que o diretor demora a fazer suas verdadeiras revelações, deixando muito para o expectador e tornando o clima de mistério quase insuportável.

A Casa das Janelas Sorridentes ainda pode ser considerado um excelente suspense/terror psicológico, que definitivamente influenciou um bocado de diretores, não seria estranho se diretores como David Fincher viessem beber dessa fonte. O estilo de Avati parece tão atual ou até mais ousado do que concepções mais recentes. O epílogo magistral dessa pequena jóia mostra o quanto esse filme deve ser redescoberto.

Obra-Prima esse Suspiria , o refinamento do refinamento no cinema de Dario Argento , é o típico: o que era bom ficou melhor. Feito dois anos...

Obra-Prima esse Suspiria, o refinamento do refinamento no cinema de Dario Argento, é o típico: o que era bom ficou melhor. Feito dois anos após o também maravilhoso Prelúdio para Matar, Suspiria parece transcender o próprio gênero chamado Giallo, que o próprio Argento ajudou a definir. Uma das características mais visível  do Giallo esta  lá, com o assassino que só é revelado no final, mesmo que aqui ele não apareça de luvas, mas suas mãos são tão peludas que poderiam ser consideradas luvas de veludo.

Calcado em um tom mais sobrenatural, Argento cria tensão e clima de suspense desde o primeiro minuto de exibição, quando Suzy Bannion (Jéssica Harper), bailarina americana que vai estudar na Alemanha do filme, pega um táxi no aeroporto em meio a uma tempestade. Acompanhamos o carro atravessar a cidade e uma tenebrosa floresta antes de chegar a Escola de Dança pretendida. Nesses breves 15 minutos iniciais, o expectador já fica na espera de algo acontecer e Argento não se furta em fazer acontecer, nos brindando com talvez a melhor seqüência do filme, minuciosamente tramada e culminando num assassinato duplo que provavelmente deve ser um dos mais belos de sua filmografia.

Suspiria é uma obra que tive a oportunidade de conferir em alta definição, assim como Um Corpo que Cai de Hitchcock foi um dos filmes que mais me impressionou assistidos nesse formato. Com seus tons extremamente vermelhos, escuridões clareadas por trovões, a fotografia salta aos olhos e o filme de Argento parece vivo, com quadros que espiam as alunas ou papel de paredes que parecem criar espirais, causando até momentos de sensação de vertigem. O diretor parece se preocupar com os mínimos  detalhes da cena, como um isqueiro que também é relógio ou uma faca perfeita para reluzir a luz no rosto da protagonista, iniciando uma seqüência que parece ter sido copiada descaradamente por Aronofsky para o seu Cisne Negro


Assistir Suspiria é se envolver em uma anti-fábula, regida por um diretor que cria momentos mágicos, mesmo que sejam tensos, macabros e sangrentos. Uma rendição a Dario Argento e o seu esmero audiovisual para conceber narrativa. Dos assistidos de Dario Argento, devo dizer que Suspiria desbancou Prelúdio para Matar. Um filme que me fez perceber que sou fã de mais um diretor italiano, tão talentoso quanto seus compatriotas considerados mais artísticos.

Todo cinéfilo que se preze sempre se pega assistindo filmes tecnicamente ruins ou desprezados, não sou diferente e como sofro de uma insônia...

Todo cinéfilo que se preze sempre se pega assistindo filmes tecnicamente ruins ou desprezados, não sou diferente e como sofro de uma insônia crônica que de vez em quando vem me visitar, passo algumas madrugadas me rendendo as porcarias que costumo gravar da TV a cabo, que em minha opinião na maioria das vezes acabam funcionando como bons soníferos. Em alguns casos, a trama consegue me prender e assisto até o final, como os dois filmes que escreverei brevemente abaixo, já que nem valem uma resenha completa:

- O Tatuador (The Tattooist/Peter Burger/2007)

Produção neozelandesa, O Tatuador é um filme de terror de maldição genérico. Ao estilo O Chamado e O Grito, com trama previsível e fraquinha, mas que consegue segurar o expectador com o mistério do sumiço do filho de um dos personagens principais. Não tem atores conhecidos, mas apresenta um folclore interessante com as tatuagens tribais agressivas e violentas da ilha de Samoa, que funcionam como o meio da maldição agir, assim como a “fita que mata” em O Chamado. Totalmente dispensável, mas talvez também funcione em grupo, com muita pipoca, refrigerante e de preferência chovendo;





 - O Justiceiro Mascarado (Franklyn/Gerald McMorrow/2008)

Esse é a típica produção que pleiteava mais, com nomes conhecidos como Ryan Philipe, Eva Green e Sam Riley, mas algo deu errado, talvez na sala de edição ou com a própria confusa trama, que coloca três historias ao mesmo tempo, uma de uma jovem suicida (Eva Green), outra de um sujeito que acabou de terminar um relacionamento (Sam Riley) e outra de uma espécie de herói soturno (Ryan Philipe), que vive em um mundo surreal, aonde todos tem alguma espécie de religião bizarra. Claro que perto do epílogo as historias se cruzam, mesmo que não explicando muito bem as coisas, mas a má condução do filme acaba fazendo o expectador ficar até o final para ver no que vai dar. Agora, por que diabos o titulo original se chama Franklyn?! Não existe nenhum personagem com esse nome e em nenhuma passagem é citado algo parecido. Um titulo bizarro e estranho, apropriado para o filme em questão.  


Se você é como eu, vez ou outra se perde vendo filmes ruins na madrugada, pode se deparar com exemplares tão “bons” quanto esses. Não engrandece em nada culturalmente, mas de repente pode divertir ou ainda dar sono, o que no final pode ser bem melhor.