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Contar muito da trama de Ricky é até um pecado, porque quem se predispor a assistir a esse ótimo filme do cineasta francês François Ozon ...

Contar muito da trama de Ricky é até um pecado, porque quem se predispor a assistir a esse ótimo filme do cineasta francês François Ozon deve se surpreender e se emocionar com as belas surpresas que essa obra pode proporcionar. Usando de uma historia até simples, envolvendo o nascimento de uma bela criança que logo começa a apresentar algumas mudanças físicas e também no seu comportamento, o diretor cria uma obra única, que flerta com o cinema fantástico, com traços de suspense e drama, mas sem ter sua comicidade, embalada ainda pelos sentimentos maternais e a ligação bem particular que somente uma mãe pode ter com seu filho.
                                                                                                                   
Assim como em outras realizações suas, Ozon restringe muito do seu filme a quatro paredes (apesar de algumas das melhores seqüências acontecerem nas poucas externas). Inicialmente ele mostra todas as dificuldades e desafios que um bebê pode trazer com sua chegada e sem demoras ele coloca um conflito entre Katie (Alexandra Lamy), a mãe da criança e Paco (Sergi Lopez), o pai de ascendência espanhola, que faz com que o homem a abandone e torne a mãe mais reclusa ainda com o menino e a outra filha mais velha, que ainda criança não aceita muito a chegada do irmão. Temos um inevitável quadro dramático formado, mas quando as mudanças começam a surgir em Ricky parece que todo um leque de bonança se abre para a família, fazendo até o pai voltar para o lar ou mesmo ganharem algum dinheiro na loteria.

Ricky é um filme curto (85 minutos), daqueles que diz logo ao que veio, o que parece ser recorrente na carreira de Ozon e me agrada bastante a maneira que o diretor consegue sintetizar seus temas. Sem muitos rodeios ele cria uma historia emocionante na medida, com cenas tocantes, principalmente as do epílogo, e que são de uma beleza exultante. Esse pode não ser o melhor trabalho do diretor, que apenas destoa na estranha seqüência inicial que talvez tenha sido feita para confundir mesmo, mas é inevitável não se sentir no mínimo resignado ao final desse belo filme.


É recorrente no cinema do francês François Ozon o estudo de situações particulares, envolvendo poucas pessoas, criando quase um mundo própr...

É recorrente no cinema do francês François Ozon o estudo de situações particulares, envolvendo poucas pessoas, criando quase um mundo próprio, aonde os personagens se antagonizam com momentos inspirados, ora criado por diálogos afiados ora por momentos intimistas e mágicos. Se em Gotas d´Água em Pedras Escaldantes, Ozon concebe uma visão tragicômica dessa situação e em O Refúgio uma representação mais dramática e até existencialista; nesse também excelente Swimming Pool – À Beira da Piscina o diretor traduz o conceito com um tom de suspense, até flertando de maneira consistente com o cinema do mestre Hitchcock.

A trama logo nos apresenta a Sarah Morton (Charlotte Rampling), uma escritora inglesa de suspense, que em crise existencial vai passar uma temporada na casa do seu editor localizada em um pacato povoado na França. Alguns dias solitários de tranqüilidade na bela residência, que ainda possui uma imponente piscina (aonde acontece as melhores seqüências e a imaginação da escritora flui melhor), seria o suficiente para compor um novo livro. Porem, o que Sarah menos contava é que Julie (Ludivine Sagnier), a bela e libidinosa filha do editor apareceria para passar uns dias também.

Desse ponto de partida, o diretor vai tecendo o relacionamento das improváveis residentes daquele belo local. Sem pressa, Ozon vai apresentando as meticulosidades de cada personagem. Sarah ranzinza e mal humorada, Julie aquela mulher que qualquer homem gostaria de ter conhecido em algum momento da vida: linda, sensual e totalmente desprotegida. Charlotte Rampling apresenta todo seu talento para conceber a personagem da escritora, transmitindo muito apenas com olhares, mas Ludivine Sagnier enche a tela de luz quando aparece, um deleite para os olhos, de deixar qualquer marmanjo de queixo caído e engraçado que a personagem é tão frágil psicologicamente que acaba levando qualquer sujeito para casa, o que rende uma  apreensão de que possa algo acontecer a qualquer momento.

Da maneira que Ozon conduz as cenas: com uma trilha sonora característica e até pelo posicionamento das câmeras, rendendo alguns enquadramentos a lá Hitchcock, o tom de suspense acaba sendo inevitável e do meio para o final o diretor se dá ao luxo de introduzir uma reviravolta mirabolante bem interessante. Da filmografia desse jovem, talentoso e prolixo diretor, talvez Swimming Pool – A Beira da Piscina seja a mais representativa, mas pela eficiência desse realizador qualquer obra acaba tornado-se obrigatória.

Existe um fato engraçado na apreciação de Gotas D’Água em Pedras Escaldantes , nos créditos iniciais logo vem à informação de que a obra er...

Existe um fato engraçado na apreciação de Gotas D’Água em Pedras Escaldantes, nos créditos iniciais logo vem à informação de que a obra era baseada em texto de Rainer Werner Fassbinder, diretor que sempre me cobro e prometo de assistir a mini-serie Berlin Alexanderplatz, e que também não assisti nada, mesmo sempre sendo cobrado pelos amigos cinéfilos. De uma maneira ou de outra, um pouco de Fassbinder acabou vindo parar em minhas mãos, meio que sem querer, com a indicação dessa realização do diretor francês François Ozon pelo amigo Ailton Monteiro no post recente do filme O Refúgio.

Pelo que andei lendo, Gotas D’Água em Pedras Escaldantes guarda um pouco do sarcasmo que Fassbinder aplicou em obras como Berlin Alexanderplatz, mas sem duvida a concepção estética e da trama tem muito de Ozon, com cenas que remetem a outras realizações suas. Como o próprio titulo sugere, na trama, as Gotas D’Água seriam o jovem Franz (Malik Zidi), a sua ex-namorada Anna (a estonteante Ludivine Sagnier) e a transsexual Vera (Anna Levine), e as Pedras Escaldante seriam o dominador Leopold (o excelente Bernard Giraudeau). Na presença escaldante de Leopold, as gotas se dissipam e viram mera precipitação, podendo ainda se tornar nuvens de chuva.

A obra carrega forte tom teatral, tanto que tudo acontece dentro do apartamento de Leopold, desde o encontro inicial com o indeciso Franz, que de noivo prestes a se casar, passa a amante passivo do homem. Leopold se interessa tanto pelo sexo quanto pelas maneiras que tem de diminuir ou desprezar o rapaz. A divisão por atos, aparece pontuando também as fases de um relacionamento, seja homossexual ou hetero, sempre há o deslumbre inicial, que depois pode se converter em desinteresse, talvez devido ao marasmo ou detalhes do caráter da pessoa que possam começar a irritar ou mesmo pela vontade de se procurar “carne nova”, como em certo momento a transsexual Vera, ex-amante de Leopold, cita.

Lá pelo terceiro ato, entra em cena a sonhadora Anna, ex-noiva de Franz, que pretende resgatar o rapaz para si, ainda acreditando que o jovem tenha vivido apenas uma aventura e não ame Leopold, mas tudo acaba ganhando uma dimensão pervertida quando o homem flagra os jovens em sua casa após fazerem sexo. Iniciando assim um jogo sexual com o casal e com Vera que acaba aparecendo no mesmo momento, clamando por sua ajuda. Ali, percebe-se o verdadeiro prazer de Leopold: manipular as pessoas com seus joguetes em que todos acabam ficando a sua mercê. Gotas D’Água em Pedras Escaldantes é um filme inevitavelmente dramático, mas que guarda um humor bem peculiar às obras de Ozon, que parece fazer filmes que sempre tem o que dizer, mesmo os cômicos. 

Um expectador mais atento sabe quando está de frente com uma obra diferenciada, que é o caso de O Refúgio , produção francesa comandada pelo...

Um expectador mais atento sabe quando está de frente com uma obra diferenciada, que é o caso de O Refúgio, produção francesa comandada pelo talentoso e eclético diretor François Ozon. Um filme afetuoso e sensível, que retrata um dos momentos mais delicados na vida de uma mulher: a gravidez, mesmo a não programada e fruto de uma relação problemática e doentia, como é o caso dessa mostrada aqui.

Mousse (Isabelle Carré) é uma bela jovem, que vivia um romance baseado em drogas pesadas e inevitavelmente seu parceiro tem uma overdose, deixando-a sozinha e grávida. Sem apoio de ambas as famílias, ela resolve se enclausurar em uma bela casa de praia, considerada pela própria como seu refúgio. O irmão gay (Louis-Ronan Choisy) do falecido amante aparece por lá e os dois acabam desenvolvendo um terno relacionamento, baseado em sinceridade e amizade, com belos momentos, como um em que o rapaz toca a lindíssima  canção Le Refuge ao piano.

O Refúgio é uma obra que apesar de lenta, envolve o expectador na áurea de beleza que procura entoar, principalmente ao vermos Mousse renascer aos poucos, o bebê que está sendo gerado faz com que a moça fique mais bela, mas sua mente prostrada acaba não entendendo isso, como a vida pode surgir de uma alma devastada pelas drogas e que não sabe mais amar? Definitivamente, um filme tocante, que trata sobre os sentimentos humanos e como muitas vezes ficamos a mercê deles ou não sabemos lidar.

Potiche – Esposa Troféu , a obra mais recente do prolífico diretor francês François Ozon , é um filme que faz uma homenagem escancarada à at...

Potiche – Esposa Troféu, a obra mais recente do prolífico diretor francês François Ozon, é um filme que faz uma homenagem escancarada à atriz Catherine Deneuve e sem duvida é uma delicia assistir à senhora Deneuve atuar, que ainda consegue sem manter em forma, mesmo com o inevitável avanço da idade. Os momentos com a atriz em cena são mágicos, principalmente a seqüência inicial, que dá o tom de fabula da historia, mostrando Suzanne Pujol (Catherine Deneuve) se exercitando no meio de uma floresta e vários animais aparecem para reverenciá-la, no melhor estilo desenho da Disney. As comparações com os clássicos Disney ficam por ai, e Potiche – Esposa Troféu mesmo com um tom leve, consegue ser uma obra feminista, desprendida e até certo ponto sexualizada.

Na trama, Suzanne Pujol é a esposa perfeita, mãe e avó afetuosa, preocupada com os afazeres do lar e descartada pelo marido (Fabrice Luchini) em situações de crise, como a que estão passando na fabrica de guarda-chuvas criada pelo pai dela. Suzanne não tem voz ativa, serve somente como um adereço para sua bela casa, um belo jarro, como o titulo sugere e sua filha coloca assim em certo momento. Um problema de saúde faz com que seu marido tenha que se ausentar do trabalho em meio a uma ferrenha greve dos funcionários. Na iminência da fabrica ser fechada, Suzanne assume o papel do marido e parece recolocar as coisas nos trilhos, com seu jeito terno, preocupado e liberal. A iniciativa da mulher acaba fazendo relembrar momentos da sua juventude e um romance com o agora deputado esquerdista Babin (Gerard Depardieu), mas o retorno do marido, possesso com as mudanças feitas pela esposa, acabam fazendo a vida de Suzanne tomar um outro rumo.

Potiche – Esposa Troféu, além de atuações divertidas de todo o elenco, que demonstram uma sintonia perfeita, apresenta um visual kitsch impressionante, meio brega, meio ultrapassado, mais luxuoso e cheio de cores que saltam os olhos e ajudam a conceber o clima nostálgico do filme. A trilha sonora, com canções pops francesas ainda criam momentos maravilhosos, como o do epílogo, quando Suzanne entoa uma canção que exalta como a vida pode ser bela. O filme tem algumas divertidas cenas de sexo protagonizadas por uma Suzanne mais nova, talvez até parodiando a própria Deneuve em A Bela da Tarde de Buñuel, caracterizando ainda mais o tom de homenagem a essa excelente e icônica atriz.