Se tem um tipo de gênero que o cinema nacional costuma apresentar exemplares bons como certa regularidade é o documentário. Difícil uma produção ficcional conseguir captar sentimentos como muitas vezes uma câmera ligada deixando alguém (por vezes desconhecido) falar consegue. Claro que muito depende do talento do diretor para editar e montar suas seqüências, o que não é pouco, já que DOCs dependem muito da mão de quem lhes concebe, porque em sua maioria os apresentados não são atores que podem improvisar salvando alguma cena. Então senão houver certa sensibilidade para confluir cenas e depoimentos podem-se acabar cometendo algo realmente enfadonho. O que não é o caso dos dois filmes em questão, que são realizados com competência por seus diretores:
- Pretérito Perfeito (Gustavo Rizzi/2006)
Filme de estréia do diretor Gustavo Rizzi, que recentemente realizou o elogiado Riscado, Pretérito Perfeito é um dos mais divertidos DOCs que assisti ultimamente. O filme remonta a historia da Casa Rosa, um dos mais famosos prostíbulos do RJ até a década de 90. Com depoimentos de ex-frequentadores, em sua maioria senhores, sendo o mais famoso deles o cantor e compositor Lobão, que se abrem para a câmera e contam suas historias sobre perda de virgindade, farras e como a Casa Rosa teve certa importância nos anos 50, quando muitos políticos e personalidades influentes usavam o local para reuniões e debates. Claro que tudo regado à boemia carioca bem característica daqueles anos. Outras historias surgem também da visão de uma prostituta senhora, que teve sua iniciação sexual na casa e trás relatos bem sinceros sobre a profissão, a qual ela chama de “batalha”. Um filme engraçado em alguns pontos e melancólico em outros, mas que vale muito ser conhecido;
- Pro Dia Nascer Feliz (João Jardim/2006)
Pode se dizer que o diretor João Jardim é um especialista em DOCs, realizou o bom Janela da Alma e co-dirigiu o excelente Lixo Extraordinário, alem de alguns episódios de Por Toda minha Vida da rede Globo. Em Pro Dia Nascer Feliz o diretor trás um olhar intenso em cima do sistema educacional brasileiro, retratando escolas diferentes entre si, mas com aspectos semelhantes vistos através do depoimento dos estudantes e profissionais de escolas públicas bem carentes e colégios particulares de alto poder aquisitivo. Inevitável não se aproximar ou se emocionar com o cotidiano de alguns jovens, principalmente os nordestinos, que acordam as 4:00 da madrugada, percorrem quilômetros até chegarem à escola e muitas vezes não tem aula. A intenção de Jardim é trazer a experiência in loco mesmo e não fazer uma critica explicita ao ensino fundamental, apesar dela surgir muitas vezes pelos próprios comentários dos apresentados. Um filme muitas vezes cru, que trás historias em sua boa parte tristes e cruéis, mostrando muitas vezes como um adolescente pode ser incompreendido ou desprezado em suas aspirações. Pode parecer tendencioso em alguns momentos, mas não deixa de ser uma visão importante e válida.
“O importante não é chegar e sim viajar.” Assim o nosso glorioso Carlos Reichenbach termina o seu Filme Demência , considerado pelo própri...
“O importante não é chegar e sim viajar.” Assim o nosso glorioso Carlos Reichenbach termina o seu Filme Demência, considerado pelo próprio diretor como uma de suas obras mais queridas e autorais. Baseado livremente no mito de Fausto de Goethe, o diretor destila o que seria o pesadelo do seu Fausto (Ênio Gonçalves), um industrial do ramo de cigarros, falido, afundado em dividas, visivelmente insatisfeito, que um dia abandona a mulher infiel, rouba o revolver do porteiro e cai na estrada em busca do seu paraíso imaginário.
Filme Demência é uma realização intencionalmente suja, com uma impressionante atmosfera de sonho ruim ou ainda uma “bad trip”. Inicialmente com seqüências passadas em uma noitada, aonde Fausto começa visitando um cinema pornô, aonde pela primeira vez é interpelado por uma figura que parece ser um demônio, depois o vemos em uma dessas boates inferninho da onde sai com uma menina para um hotel pulgueiro, passando por uma divertida vingança contra seus malfeitores e depois o filme entra em um clima de road-movie (em belas cenas), aonde Fausto sai sem destino em um carro conversível e vai ter seu encontro com o demônio Mefisto (Emílio Di Biasi), aonde será questionado sobre sua própria existência. Será que Fausto não teria uma alma para negociar com o diabo? Interessante que no meio desse surrealismo que exala tensão, citando poesias e pensadores, Reichenbach faz uma critica ácida a política governamental daqueles anos 80, em que se priorizavam os investimentos externos em detrimento ao pequeno e médio empresário que inevitavelmente estavam sendo limados pela concorrência desleal.
Reza a lenda que muito da inspiração para a concepção de Filme Demência veio da própria vida do diretor, que oriundo de uma família abastada de industriais viu a família perder tudo. Ainda interrompido por vários problemas de verbas da Embrafilme, a produção parece ter sido concluída apenas pela boa vontade dos atores e da equipe de filmagem. O que trás a Filme Demência uma aura maldita e toda especial. Provavelmente essa realização foi uma maneira de Reichenbach exorcizar seus próprios demônios, mas se uma coisa teve a ver com a outra no final acabou valendo e muito para esse notável diretor nos brindar com uma das obras mais especiais do cinema brasileiro.
Eros, O Deus do Amor é apenas meu quinto filme do diretor Walter Hugo Khouri . Com certeza o mais acertado seria conferir sua filmografia ...
Eros, O Deus do Amor é apenas meu quinto filme do diretor Walter Hugo Khouri. Com certeza o mais acertado seria conferir sua filmografia anterior para se familiarizar com o universo “khouriano”, o que talvez tenha feito eu não aproveitar em sua plenitude essa obra desse cineasta que aprendi a admirar com mais afinco nesse ano de 2011. Não que eu não tenha gostado do filme, achei maravilhoso (e com certeza vai render diversas revisões), mas a falta de uma intimidade com o personagem Marcelo, que parece ser o alter-ego do diretor, aparecendo em diversas realizações suas, certamente me fez não perceber todas as nuances de sua vida que são retratadas desde sua infância nesse que é considerado por muitos como uma das obras mais autorais desse encantador realizador.
Conheci Marcelo no filme Eu de 1987, em que ele se reunia com um time de mulheres lindas em uma praia paradisíaca para celebrar as festas de final de ano. Percebe-se que a personalidade do homem é magnética, extremamente egocêntrica e dotada de uma forte sedução, que usa para se satisfazer sexualmente, o que parece ser seu único e verdadeiro motivo de ser. Em Eu o ator Tarcisio Meira concebeu muito bem essa magnitude. Diferente do clima mais descontraído de Eu, em Eros, O Deus do Amor vemos um filme mais sério, existencialista até, evocando filosofias orientais e focado em tentar desvendar a verdadeira faceta de Marcelo (na poderosa voz de Roberto Maya), que vai surgindo em suas lembranças de infância e em outros momentos pelas suas deliciosas mulheres (Denise Dumont, Lillian Lemmertz, Reneé de Vielmond, Kate Lyra, Nicole Puzzi, Monique Lafond, Patrícia Scalvi, Selma Egrei, Kate Hansen, Christiane Torloni e Norma Bengell) que pontuaram a vida do homem, que nessa obra parece em busca de sua própria redenção. Todas elas carregam seus amores e mazelas por Marcelo e apontam o sujeito como um verdadeiro sanguessuga de almas, o que rende até uma interessante analogia que escutei de um amigo mais experiente no cinema de Khouri que Marcelo seria um vampiro, até porque nesse filme ele sempre esta nas sombras, a sua inevitável tara por pescoços e além de ser acusado de ter um rosto disforme (o qual não vemos em nenhum momento nesse filme).
A narrativa muito fragmentada é talvez o que me incomodou no filme, o que ainda achei que atrapalhou um pouco a fluência da trama, mas como provavelmente a historia é o que menos importa nessa realização, que sem dúvida é feita mais para ser sentida, com sua câmera que parece ser os próprios olhos do personagem/diretor ou a trilha sonora sensacional com momentos jazzísticos e outros com inserções de operas que oram exaltam a tensão sensual de seus personagens ora tentam trazer certa ternura ao protagonista. É um filme que mescla muito bem esse clima sensual com uma tensão crescente, ora também trazendo simbolismos imbuídos ao caráter de Marcelo, como o animal selvagem preso na jaula ou um brinquedo ingênuo que o homem guarda como um tesouro que parece significar toda a beleza de sua infância vivida em um relacionamento forte com sua mãe (Dina Sfat), que beirava o incesto. Claro que não mostrado de maneira franca pelo diretor, mas sugerido muitas vezes, o que ainda parece ter refletido nas próprias fixações do homem, que tem uma compulsão quase tão doentia por sua filha quanto sua mãe parece ter tido por ele.
Eros, O Deus do Amor é um filme para ser revisto muitas vezes, até porque rende algumas interpretações e apenas em uma apreciação talvez não se consiga captar todas. Mais além do caráter reflexivo, a obra tem cenas mágicas e ousadas, como quando vemos Marcelo ainda criança tendo sua primeira noite de sexo com a professora de inglês ou em uma seqüência sensacional em que o homem conhece a personagem de Christiane Torloni em um bar. Um filme que mesmo em uma cópia que não faz jus a sua importância, baixada de um site AMERICANO, consegue se perceber todo o brilhantismo de um diretor que transcendeu o próprio cinema brasileiro e que merecia ter seu nome mais lembrado pelo público nacional, com as merecidas homenagens e restaurações de sua filmografia completa em DVD ou Blu-Ray. Uma mulher em um filme de Khouri nunca é somente uma mulher e no caso de Eros, O Deus do Amor, a beleza que sua sensualidade exprime é vista como uma das poucas maneiras de se chegar mais perto do próprio Deus.
E m 2006, a diretora Sandra Werneck realizou o interessante documentário Meninas , que acompanhava 3 jovens de comunidades carentes e su...
Em 2006, a diretora Sandra Werneck realizou o interessante documentário Meninas, que acompanhava 3 jovens de comunidades carentes e suas iminentes gravidez que inevitavelmente mudariam o cotidiano de suas vidas. A diretora parece ter ficado atraída pela sofrida vida dessas adolescentes que tem suas utopias praticamente arrancadas de si, devido ao tipo de vida que levam, umas pela falta de informação, outras por abandono e outras ainda pela falta de responsabilidade mesmo e talvez dessa vontade de ir um pouco mais fundo nesse contexto saiu o também bom, só que ficcional Sonhos Roubados.
Em Sonhos Roubados, a câmera de Sandra Werneck acompanha em um tom semi-documental o cotidiano de 3 amigas que entre seus 14 e 17 anos vivem uma vida de prostituição no RJ. A diretora, diferente de outras produções que já tocaram no tema, humaniza as personagens e trás um perfil especial para cada uma por trás de como ganham a vida. Jéssica (Nanda Costa excelente) a mais madura do grupo e personagem principal, mora com o avô (Nelson Xavier) aparentemente tuberculoso e tenta criar a filha que teve ainda bem jovem enquanto disputa a guarda da mesma com o pai e avó da criança que são evangélicos fervorosos. Sabrina (Kika Farias), filha de imigrantes nordestinos, é a mais desgarrada de família, se envolve com um poderoso criminoso e para ter uma vida melhor, precisa se adaptar as regras impostas pelo sujeito. E por ultima, Daiane (Amanda Diniz), a mais jovem e ingênua, que é criada por familiares e sofre assédio do tio (Daniel Dantas) enquanto se envereda pela “vida fácil”, mas mesmo assim sonha com uma festa de 15 anos e com a valsa com seu pai (Ângelo Antonio), que não lhe dá a mínima atenção. Daiane tem na bonita amizade com uma cabeleireira (Marieta Severo) seu verdadeiro porto seguro.
Essa é a representação da vida que levam as meninas, que mesmo sofrendo e perdendo a inocência um tanto cedo, tentam se manter fieis a seus mais íntimos desejos, seja Jéssica se apaixonando por um presidiário (M.V. Bill) ou Sabrina engravidando do seu namorado criminoso e resolvendo ter o seu sonhado filho sozinha, mesmo que para isso tenha que voltar a se prostituir ou Daiane chantageando seu omisso pai para que consiga sua festa de 15 anos. Apoiada por uma ótima atuação das jovens, que compram literalmente seus personagens e pelo talentoso elenco coadjuvante, Sandra Werneck aplica um competente olhar bem cru sobre o dia a dia de cada uma delas, poderia até mostrá-las com certa utopia, como princesinhas sem reino, mas a visão é de meninas sofridas com suas vidas e com seus sonhos maculados, por isso o titulo Sonhos Roubados caia tão perfeitamente nessa obra.
Demorei quase um ano para conferir Feliz Natal , o primeiro filme de Selton Mello na direção. Não porque tenha deixado de lado, até tent...
Demorei quase um ano para conferir Feliz Natal, o primeiro filme de Selton Mello na direção. Não porque tenha deixado de lado, até tentei assistir duas vezes, mas o inicio insuportavelmente lento sempre me fazia pegar no sono. A motivação extra para assisti-lo veio logo após a sessão do novo filme desse iminente diretor, O Palhaço, para assim tentar traçar alguns comparativos. Na verdade, os dois filmes têm pouco em comum, alguns enquadramentos parecidos, mas o tom de melancolia e tristeza é muito mais forte aqui, trazendo uma ausência de redenção para os personagens.
A trama se desenrola nos festejos de natal da família de Caio (Leonardo Medeiros), um sujeito que vive afastado da família cuidando de seu ferro-velho e na noite de natal resolve fazer uma visita a seus familiares e antigos amigos. A chegada dele durante a ceia natalina desperta as reminiscências entocadas naquela desestruturada família, que tem no patriarca (Lúcio Mauro inspirado) um sujeito despreocupado com seus entes, que suga financeiramente um dos filhos, enquanto se satisfaz sexualmente com uma mulher bem mais jovem e a matriarca (Darlene Gloria também inspiradíssima) uma senhora com sérios problemas psicológicos, que mistura barbituricos com bebidas alcoólicas, trazendo desconforto aos familiares com seu estado. Claro que todo aquele comportamento reprovável respiga nos filhos, que não sabem lidar tanto com um quanto com outro e ainda parecem perdidos nas próprias convicções.
Feliz Natal é um filme seriamente triste, com fortes tendências depressivas, mas que infelizmente pode ser o cotidiano de uma família e a ambientação dele na época natalina soa totalmente crível, até porque nesses dias é quando as pessoas têm tempo disponível e acabam encarando a vida que levam de verdade. Sendo assim, é normal que muitos sintam esses sentimentos em uma época que deveria ser festiva. O olhar de Selton Mello é pessimista assim mesmo, não elucida beleza da tristeza, mas mesmo assim ele consegue extrair candura e ternura em alguns momentos. Pode não ter a beleza estética da sua mais recente obra, mas dialoga com mais propriedade sobre o assunto apresentado.
Estreante na direção de longas, o jovem e talentoso Esmir Filho , em seu primeiro trabalho concebe uma das mais belas obras nacionais dos...
Estreante na direção de longas, o jovem e talentoso Esmir Filho, em seu primeiro trabalho concebe uma das mais belas obras nacionais dos últimos anos. O poético Os Famosos e os Duendes da Morte é a comprovação de que a região sul do Brasil tem se preocupado em realizar com qualidade, sempre trazendo obras no mínimo interessantes e se confirmando como cinema de qualidade na cena brasileira. Além de render diferenciadas interpretações, o filme mostra uma beleza visual impressionante e usada com habilidade, o que é poucas vezes visto no recente cinema nacional.
A concepção de Esmir Filho se mostra um tanto sensível, tratando isolamento, tristeza, depressão, amizade, amor, morte e vida com um olhar a partir de um jovem confuso (Henrique Larré) com seus sentimentos, que ama Bob Dylan e mantém um blog chamado Mr. Tambourine Man. Ele quer ir a uma apresentação do cantor em um lugar indeterminado, mas mora em uma cidade interiorana, distante dos grandes centros, ele conhece o mundo através da internet, aonde mantém um relacionamento platônico com uma jovem. Enquanto se digladia com seus sentimentos, o rapaz tenta se encaixar naquela sociedade bem peculiar, seja fumando maconha com o melhor amigo enquanto resenham sobre vida e morte ou tentando compreender o que motiva as pessoas daquele povoado, que vez ou outra se arremessam à morte da ponte da cidade, como para aplacar a falta de sentido de suas vidas.
Os Famosos e os Duendes da Morte vêm sendo comparado bastante ao cinema independente de Gus Van Sant, o que procede, pois assim como o diretor americano, Esmir Filho trás uma visão bem apropriada do universo jovem, com os conflitos internos que muitas vezes ficam suprimidos e podem render conseqüências terríveis. Porém, o nosso diretor faz isso com mais ternura, criando belas seqüências ao som de canções de Bob Dylan, que soa como influência para toda obra, seja no nome Jingle Jangle de uma das personagens ou marcando um dos mais belos momentos do filme quando o Mr. Tambourine faz um passeio com um rapaz um tanto perturbado que vaga pela cidade. A cena em que o carro deles passa por uma ruazinha de barro e eles ficam acendendo e apagando o farol é linda demais, um momento único que rende todos os louvores a essa produção.
Assim que começa a projeção de O Palhaço tenho a melhor surpresa do filme, o primeiro rosto a aparecer é de uma velha conhecida, quase a...
Assim que começa a projeção de O Palhaço tenho a melhor surpresa do filme, o primeiro rosto a aparecer é de uma velha conhecida, quase amiga, a atriz Michelle Martins. Sei que ela tem feito sucesso na novela global Fina Estampa com a personagem Deusa, mas sinceramente fiquei muito feliz dela aparecer nesse simpático trabalho do diretor/ator Selton Mello. Sempre focada em trabalhar em cinema, ela já tinha feito alguns trabalhos em clipes do Snoopy Dog e Black Eyed Peas, o papel dela no filme é pequeno, sem falas, mas pontua muito bem a jornada de redescobrimento do palhaço Pangaré (Selton Mello).
Passado a surpresa inicial de ver a linda Michelle na tela grande, O Palhaço era um filme que esperava muito, foram diversos textos exaltando a segunda realização de Selton Mello e alguns outros poucos apontando falhas. Talvez a minha expectativa tenha se elevado e achei um filme bonito, belo mesmo, com fotogramas perfeitos e trilha sonora envolvente. A sacada de usar figuras carismáticas e folclóricas como Zé Bonitinho, Ferrugem, Teuda Bara e ainda uma participação maravilhosa de Moacyr Franco faz o filme ficar divertido. O elenco do circo em sintonia, com destaque para Paulo José, que faz o palhaço Puro Sangue, pai de Pangaré é outro ponto positivo da obra, mas o resultado para mim ficou pouco emotivo. O minimalismo de algumas cenas não me cativou como deveria e inevitavelmente a ótica sobre o filme ficou distanciada, achando que em alguns momentos Selton Mello forçou um pouco a barra para emular Fellini.
Claro que Selton Mello apresenta qualidades boas em seu trabalho, principalmente com as seqüências de quando o prefeito de uma cidade convida todos os artistas do circo para almoçarem em sua casa ou o bem conduzido epílogo, em que a bela Michelle volta a aparecer, criando certa emoção e fazendo algum sentimento pelo filme crescer. Nessa segunda incursão na direção, Mello parece apresentar um viés bem intimo que chega perto da alcunha de autoral para o seu cinema, mas como autor tem o que desenvolver ainda e nós expectadores esperarmos por um bem vindo trabalho que possa realmente ser considerado algo parecido com uma obra-prima.
Fato que Capitães da Areia têm problemas, como a narrativa que não chega a lugar algum, mas também é inegável que o filme tem seus momentos...
Fato que Capitães da Areia têm problemas, como a narrativa que não chega a lugar algum, mas também é inegável que o filme tem seus momentos, principalmente pela trupe de crianças e pré-adolescentes que compõe o grupo de meninos de rua do titulo. Eles são a alma do filme da estreante Cecília Amado, neta do escritor Jorge Amado, autor do texto do qual o filme se baseia. O elenco carrega o filme nos ombros, que carece de uma historia mais estruturada e acaba apelando para o açúcar em excesso, tornando a realização do meio para o final enfadonha, talvez a trilha sonora de Carlinhos Brown ajude a criar esse clima, porque assim como o filme, as canções oscilam entre razoáveis e ruins.
O laboratório feito com o elenco amador é notável, conseguindo arrancar atuações tão boas até quanto o limite deles pode, fazendo o expectador inicialmente se divertir bastante com a irreverência dos meninos, que carregam em frases de efeito para nos aproximar ainda mais do filme, mas passado o deslumbre inicial com o talento emergente de alguns, como Jean Luis Amorim que faz o líder Pedro Bala ou o deficiente físico Israel Gouvea que faz o polêmico Sem Pernas, o filme parece que não sai do lugar, podendo soar até como uma alegoria publicitária, como vem sendo acusado por boa parte da critica especializada.
Não li a obra literária de Jorge Amado, que é considerada por muitos como uma obra-prima, mas a intenção da diretora Cecília Amado deve ter sido de trazer um recorte do texto, até porque o livro é um calhamaço e deve ter um universo mais complexo. Então o que vemos são varias cenas costuradas, como o grupo batendo carteiras ou assaltando casas ou se desentendo, essas brigas internas acabam rendendo uma ótima cena de briga em uma estação de trem que para mim é uma clara referencia a O Selvagem da Motocicleta, mas como não li ninguém comentando sobre isso, talvez tenha sido impressão minha mesmo.
Houve algumas adaptações encima do texto original para que o filme soasse mais jovial, como a transposição dos anos 20 para os anos 50, podendo fazer Capitães da Areiaparecer um filme de época, mas se houve essa intenção também foi por água abaixo, porque esse viés é pouco explorado. Apesar de parecer um filme torto, é bem provável que a real intenção da diretora fosse de fazer uma obra sobre ritos de passagem, até por ter interrompido as filmagens em quase dois anos para que o elenco crescesse fisicamente, mas o resultado não é tão marcante nesse intento e acaba valendo alguma coisa pela diversão proposta pelos meninos.
Baseado em aclamada obra literária de Lourenço Mutarelli , o mesmo autor de O Cheiro do Ralo , Natimorto , dirigido pelo novato Paulo Machli...
Baseado em aclamada obra literária de Lourenço Mutarelli, o mesmo autor de O Cheiro do Ralo, Natimorto, dirigido pelo novato Paulo Machline é uma obra bem interessante, apesar de irregular, tensa ao extremo, com certo humor acido, que carrega um forte tom teatral, mas que também apresenta um diretor com apuro para construir cenas visualmente impactantes, como uma em que o protagonista aparece coberto por vermes e baratas ou outra em que o mesmo regride a posição fetal dentro de uma banheira.
Talvez o que faça Natimorto não ser uma realização extremamente louvável seja a atuação de Simone Spoladore, que parece demorar a acertar o tom de sua personagem, que é uma cantora que parece ser forte, mas na verdade é tão frágil quanto o sujeito assexuado representado pelo próprio escritor Lourenço Mutarelli, que entrega uma interpretação visceral, na pele de um homem que entra em um processo de autodestruição física e mental enclausurado em um apartamento. A atuação bem acima de Mutarelli faz com que o antagonismo pretendido pela obra em relação aos personagens, como se ela fosse a Vida e ele a Morte, perca a força, como se toda a situação já fosse batalha perdida para a moça.
O desenrolar da trama começa com o Agente, como é tratado o personagem de Mutarelli pelo narrador, propondo a Voz (Simone Spoladore) que eles abandonem a vida externa e vivam uma outra reclusa em um quarto de hotel por quanto tempo puderem. O Agente acredita em astrologia e lê as cartas, na falta delas, começa a ler aquelas fotos de informações sobre doenças nos maços de cigarro, que são acesos e fumados em profusão, fazendo assim um comparativo com as cartas do Tarô. Algumas comparações soam altamente criveis, criando um paradoxo com a própria existência do ser humano. A sorte lida no maço de cigarros é o reflexo do que vai ser o dia deles, como a foto do Natimorto, que aparece como um dos principais simbolismos da obra.
Carregado de algum misticismo, com diálogos bem escritos, pena que em alguns momentos mal representados, uma trilha sonora que exalta a sensação de claustrofobia que o diretor concebe com a sua câmera muitas vezes colada ao rosto dos atores ou enquadrando apenas suas bocas e expressões, Natimorto se mostra como um sopro de originalidade em meio a produções nacionais tão iguais. Pode não ser um supra-sumo, mas dá para dizer que é cinema bem feito e de qualidade.e expressque o diretor cri
A estréia do ator Marco Ricca na direção com Cabeça a Prêmio se mostra um tanto insossa, assim como o filme, que apesar de apresentar pers...
A estréia do ator Marco Ricca na direção com Cabeça a Prêmio se mostra um tanto insossa, assim como o filme, que apesar de apresentar personagens interessantes, como o criminoso descontrolado representado por Otávio Muller ou o piloto de avião hermano (Daniel Hendler) que se entrega a justiça para testemunhar contra o ex-empregador, não engrena em nenhum momento, tornando-se uma sessão com alguns momentos que parecem intermináveis ou outros bem enfadonhos.
A trama até promete no que poderia ser um filme interessante sobre corrupção, ilegalidade e no meio disso tudo um romance, mas os personagens parecem mal desenvolvidos e as cenas um tanto contemplativas, tirando o bom ritmo que o filme poderia ter. Fúlvio Stefanini não convece como uma espécie de mafioso e até Alice Braga aparece um tanto preguiçosa em cena. Os leões de chácara defendidos por Cássio Gabus Mendes e Du Moscovis acabam sendo o que a realização apresenta de melhor, os personagens são parceiros, mas se antagonizam e o bom-humor de Cássio Gabus Mendes é um alivio em meio a uma obra que pleiteia ser tão sisuda.
Cabeça a Prêmio, apesar de fraco, não chega a se comparar a péssimos produtos nacionais lançados recentemente, mas a pretensão do diretor em tentar tornar tudo crível cria um filme que busca fugir das costumeiras obras nacionais de forte enfoque violento e criminal, como os recentes Tropa de Elite e Cidade de Deus. A falta de ação pode fazer a produção soar chata e desinteressante, tanto que em certo momento, talvez percebendo que as coisas não estavam funcionando e na intenção de tornar a obra mais simpática, o diretor cria uma reviravolta, aonde enfia uma improvável sub-trama homossexual na historia.
Nem homens, nem mulheres, seres humanos. Esse era o lema que o grupo musical/teatral conhecido como Dzi Croquettes carregava. O documentário...
Nem homens, nem mulheres, seres humanos. Esse era o lema que o grupo musical/teatral conhecido como Dzi Croquettes carregava. O documentário realizado por Tatiana Issa (que é filha de um dos ex-integrantes da equipe dos Dzi) e Rafael Alvarez procura resgatar na fraca memória nacional o passado de um grupo que tanto revolucionou a cena brasileira como a européia e só não pararam na Broadway por acaso do destino, angariando fãs como Liza Minelli, Jeane Moureau, Mick Jagger, Josephine Baker, Omar Shariff, isso falando de astros internacionais, sem contar os nacionais, que pontuam o DOC com comentários entusiasmados sobre a vida e a historia dos talentosos e inusitados 13 componentes da trupe.
Certamente muito da notoriedade dos Dzi Croquettes vinha da inventividade e talento do coreógrafo americano Lenny Dale, que carregava a alcunha de bad-boy da Broadway e cansado do marasmo das produções ianques resolve se aventurar em praias brasileiras, mais especificamente cariocas, aonde conhece o também coreógrafo Wagner Ribeiro, que tinha a intenção de montar um espetáculo de vanguarda, que seria uma mistura de Cabaret, com forte influência do coreógrafo Bob Fosse, com o carnaval carioca. Nem precisa dizer que Lenny achou genial e logo se formou o grupo, que causou uma balburdia no mundo artístico dos anos 70, aonde se vivia uma época em que tudo poderia ser censurado e com jogo de cintura, até porque eram considerados meros transformistas e os censores não entendiam e nem levavam os Dzi muito a sério, foram censurados em apenas uma das suas apresentações, por conta do excesso de nudez.
Os trezes integrantes moravam juntos e viviam em uma espécie de sociedade própria, aonde não existiam regras e claro que tudo também era regado a muitas loucuras e drogas. Talvez, o vicio em drogas tenha sido o grande motivo do fim do grupo, assim como aconteceu e acontece com outros artistas de sucesso. Agora, uma coisa é fato, ao apreciar as cenas do espetáculo, percebe-se que tinham muito talento para dança, atuação e humor, fazendo uma critica ácida a sociedade e depois, ainda sendo considerados um dos precursores da comédia amoral no Brasil. Claro que os Dzi ganham outras conotações nos dias de hoje e em certo momento do filme, um dos entrevistados os citam como o primeiro libelo de um movimento gay no país.
Seguindo uma linha narrativa pontuada por testemunhos de fãs famosos, Dzi remanescentes e por números dos grupo, que apresentavam uma impressionante precisão ao executá-los, como obra cinematográfica, Dzi Croquettes funciona bem e agrada a leigos como eu que não conheciam a historia do espetáculo, podendo até formar novos fãs dos andróginos rapazes, que com certeza influenciaram uma vasta gama de artistas nacionais e internacionais. Além de todo o viés artístico, o DOC também apresenta um retrato do regime de ditadura, uma época sombria que o nosso país se manteve imerso, e que mesmo com tanto censura e repudio a arte, não deixou de ser um dos momentos mais criativos da nossa historia.
Segundo filme de Walter Hugo Khouri , Estranho Encontro de 1958, marcou a transição do diretor da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, aond...
Segundo filme de Walter Hugo Khouri, Estranho Encontro de 1958, marcou a transição do diretor da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, aonde fez seu primeiro filme, O Gigante de Pedra, para a Brasil Filmes, que apesar da mudança de nome, continuou a usar os estúdios e equipamentos da extinta produtora. A Vera Cruz ficou conhecida pelo classicismo de suas produções e Estranho Encontro não é diferente, remetendo a todo o glamour que o cinema propunha ter nos anos 50, principalmente o Noir, comprovado pela bela fotografia preto e branco, a trilha sonora mágica de Gabriel Migliori e as atuações marcantes do elenco, que não faria feio em filmes Hollywoodianos da época.
A historia começa com o bon-vivant Marcos (Mario Sergio) encontrando a bela e perturbada Julia (Andréa Bayard) em rota de fuga em uma estrada deserta no meio da noite. Marcos a leva para uma bela propriedade em que pretendia passar o final de semana. Julia lhe conta a sua historia, em um genial flashback, que consiste no relacionamento doentio que mantinha com Hugo (Luigi Pichi), um neurótico ex-combatente de guerra, que a mantinha como prisioneira e que motivou sua fuga. A atração entre Marcos e Julia é evidente, talvez até amor à primeira vista, mas sem duvida a figura frágil da moça fez com que aflorasse o lado mais protetor de Marcos. Nesse contexto, ainda temos o cínico caseiro (Sergio Hingst), um tanto desconfiado, que começa a investigar os passos de Marcos e para aumentar a tensão, o que eles menos contavam é que a amante (Lola Brah) de Marcos, dona da propriedade, aparecia sem avisar.
Estranho Encontro é um filme repleto de cenas maravilhosas, algumas sensíveis, outras tensas, desde a inicial, passada na estrada ao epílogo realizado em um bambuzal. A atriz Andréa Bayard ilumina a tela quando aparece, seu belo rosto nos faz lembrar as grandes divas do cinema e o galã Mario Sergio demonstra uma impressionante química com a moça, difícil não torcer pelos dois. O imponente casarão onde se passa toda a trama remete um tanto a Crepúsculo dos Deuses, reforçado ainda pela atuação de Lola Brah, que faz a amante madura de Marcos e carrega uma atuação à lá Gloria Swanson, guardada as devidas proporções, é claro. Se Estranho Encontro tivesse sido realizado nos EUA, com certeza, seria tratado com muito carinho, com restaurações em DVD especial lotado de extras ou ainda em BD, sendo reverenciado por publico e critica, mas nosso país é conhecido por não ter memória e uma pequena Obra-Prima como essa acaba ficando esquecida e restrita a amantes do cinema.
Tendo assistido apenas Eu. de 1987 da filmografia de Walter Hugo Khouri é inevitável uma comparação com esse Noite Vazia de 1964, nos ido...
Tendo assistido apenas Eu. de 1987 da filmografia de Walter Hugo Khouri é inevitável uma comparação com esse Noite Vazia de 1964, nos idos da filmografia desse diretor. Claro que a diferença de anos torna a comparação sem propósito, mas apesar desse Noite Vazia parecer muito mais solene do que Eu., percebe-se que um dos tema que Khouri gosta de tocar em suas obras é sobre o poder, mesmo um poder aplicado em forma monetária, que acontece com o Marcelo de Eu. e também aparece nesse na forma de Luisinho (Mario Benvenutti), playboy que passa boa parte da vida em encontros fortuitos em um apartamento preparado para isso.
Lusinho e Nelson (Gabriele Tinti) saem pela noite de SP à procura de diversão e mulheres que tenham algo “diferente”, para que possam levar para uma noitada no apartamento de alcova de Luisinho. Um drink em um bar aqui, uma passada em uma boate ali, um restaurante lá e durante a peregrinação acabam esbarrando em duas prostitutas de luxo (Norma Bengell e Odete Lara), que prontamente se colocam a disposição de acompanhá-los ate o apartamento, mesmo uma delas antagonizando Luisinho o tempo todo, que apesar de tudo, parece não se divertir, mesmo tendo tudo a sua disposição, e faz um tipo de jogo maléfico com o amigo Nelson, que parece sentir-se culpado o tempo todo por participar das perversões do amigo.
Na verdade, Luisinho, talvez, sinta mais prazer em manipular as mulheres com seu dinheiro, que a todo tempo esfrega na cara das moças, do que com o sexo, que aparece com algumas reminiscências em cena, principalmente na figura da prostituta defendida por Norma Bengell, que mesmo sendo promiscua, parece querer manter alguma integridade e ainda parece se interessar verdadeiramente por Nelson, mas a trama não chega a dar profundidade a um romance, mostrando como muitas vezes uma vida de farras e noitadas pode ser tão vazia como uma vida até certo ponto tradicional e como o ser humano pode ser incompleto na sua busca itinerante por satisfação.
Em Noite Vazia, Khouri se mostra ainda como um realizador apurado, construindo belas cenas, como uma em que todos os personagens aparecem tomando banho de chuva na varanda do apartamento, como se lavassem suas almas perdidas de todos os males. Apesar de ser um filme dramático, ele carrega em certos momentos uma trilha sonora que remete a suspense, como se alguma coisa estivesse para acontecer a qualquer momento, criando uma tensão que passa ao expectador. Posso até estar errado, mas também achei que essa obra guarda uma boa inspiração em Bergman, como eles são contemporâneos, pode até proceder, mas sem duvida, essa descoberta de Khouri até agora tem sido extremamente satisfatória, pena seus filmes serem tão difíceis de achar.
Sinceramente, o trailer em formato de clipe de O Homem do Futuro não tinha me animado nem um pouco em assistir, mas pela falta de boas opçõ...
Sinceramente, o trailer em formato de clipe de O Homem do Futuro não tinha me animado nem um pouco em assistir, mas pela falta de boas opções, acabo sempre dando chance a produções nacionais e esse ainda é dirigido pelo Cláudio Torres do divertido Redentor de 2004, um filme que mesclava bem fantasia e realidade em uma trama que homenageia de certa forma uma historia clássica de herói dos quadrinhos.
Visto, O Homem do Futuro me agradou muito, sendo em minha opinião, até agora o melhor filme nacional lançado no circuito em 2011. Um tanto da força dessa obra vem do ator Wagner Moura, que constrói três personagens de si mesmo que se encontram em uma cruzada temporal, o cientista Zero, que acidentalmente ou não, cria uma maquina do tempo e acaba indo parar em um momento crucial da sua vida, aonde conheceu o amor e o perdeu, achando que tal situação, originou a mediocridade da vida pessoal que leva.
O filme é todo revestido de nostalgia oitentista, com um saboroso gosto das antigas sessões da tarde, marcado pela canção Tempo Perdido do Legião Urbana, que ajuda a conceber as melhores cenas do filme. Inevitável também uma comparação com a cena de De Volta para o Futuro, a do baile, em que Marty toca uma musica para que seus pais possam finalmente ficar juntos, mas acho que a intenção de Cláudio Torres era construir essa atmosfera que nos remeteria a bons momentos da vida, mesmo os sofridos, criando uma ampla identificação com Zero. Afinal, quem não gostaria de mudar uma parte do seu passado?
Além de uma historia bem contada, O Homem do Futuro apresenta efeitos visuais muito bem realizados, principalmente quando os três Zero estão em cena, dignos de Hollywood. A atriz Alinne Moraes, que faz o interesse romântico do protagonista, consegue entregar uma atuação carismática e os coadjuvantes Fernando Ceylão e Maria Luisa Mendonça compõe muito bem o cenário de reviravoltas que se forma em torno das alterações que as viagens temporais acabam criando. O epílogo pode soar piegas, mas aposto que deixou muita gente feliz.
O principal tema de Eu. , escrito e dirigido por Walter Hugo Khouri , poderia ser a formação de uma relação incestuosa, mas na verdade, o q...
O principal tema de Eu., escrito e dirigido por Walter Hugo Khouri, poderia ser a formação de uma relação incestuosa, mas na verdade, o que vemos é o tratamento ao egocentrismo do personagem principal Marcelo (Tarcisio Meira), milionário, poderoso, com mulheres de todos os tipos aos seus pés, desde prostitutas a letradas, passando por empregadas e culminando em uma obsessão por sua própria filha. Khouri constrói toda a trama de uma maneira até certo ponto terna, claro que com momentos extremamente sensuais e deliciosos. Acho eu, que nunca uma nuca feminina foi tão sexy como nessa obra, o símbolo do tesão de Marcelo.
Na trama, Marcelo reúne um time de beldades para passar o final de ano em sua propriedade localizada em uma paradisíaca ilha, para assim aproveitar tudo sozinho, como o mesmo cita, que não precisa ou liga para nada, a não ser para si mesmo. Nessa situação, temos as prostitutas que andam a tira colo (Nicole Puzzi, Monique Lafond e Monique Evans) e ainda aparecem para ebulir mais o local a filha Berenice (Bia Seidl) e a amiga psicóloga Beatriz (Christiane Torloni). Aparentemente o paraíso fica completo com tantas mulheres sexy a serviço de Marcelo, que não esconde o desejo de possuir todas, que de uma maneira ou de outra tentam desvendar a verdadeira face do caráter do homem.
Eu., ainda é um filme com diálogos mordazes e excitantes, trilha sonora que evoca sensualidade tanto quanta as belas mulheres que sempre pipocam com poucas roupas ou nuas em cena. Aliás, como são femininas essas mulheres de Khouri, colocando no chinelo muita gostosona musculosa de hoje. Elas seduzem com olhares, gestos de mão, balançar de cabelos, cruzar de pernas, um deleite para os olhos e sentidos, fazendo momentos que deveriam ser escatológicos, passarem quase que despercebidos e deixar o expectador com vontade de ser Tarcisio Meira, o ator está soberbo como o macho alfa, mostrando como deve se atuar, convincente ao extremo como sujeito poderoso, que passa por cima de tudo para obter prazer.
Se Eu., não é considerada a melhor obra de Walter Hugo Khouri, com certeza é a representatividade de um cinema nacional sem amarras, ousado e talentoso. Alguns cineastas brasileiros, desses globalizados, deveriam pegar a filmografia de Khouri e destrincha-la (como também quero fazer), para assim aprenderem como criar envolvimento de seus personagens com o publico e vice-versa, com cenas bem tratadas, sem pressa de construir a tensão e a excitação, que flui facilmente, e o epílogo, mesmo sendo polêmico, acaba deixando um sorriso safado no rosto do expectador.
Das adaptações cinematográficas de Nelson Rodrigues havia assistido Boca de Ouro de 1963, dirigida por Nelson Pereira dos Santos e Um Bei...
Das adaptações cinematográficas de Nelson Rodrigues havia assistido Boca de Ouro de 1963, dirigida por Nelson Pereira dos Santos e Um Beijo no Asfalto de 1981, dirigida por Bruno Barreto. Todas duas excelentes obras, conduzidas por diretores competentes e que retratam muito bem o universo rodriguiano, mas Toda Nudez Será Castigada se destaca muito desses, assinada pelo controverso Arnaldo Jabor. Um diretor que teve seus alto e baixos, mais conhecido atualmente por suas crônicas no Jornal da Globo, mas que cravou seu nome na historia com um filme belo e mordaz, que remete ao cinema dos mestres italianos.
Herculano (Paulo Porto) é um sujeito católico, apegado à família, que recentemente perdeu a mulher para o câncer, vive uma vida de luto e clausura, acompanhado de suas tias beatas e do irmão fanfarrão Patrício (Paulo César Peréio, soberbo em cena). Preocupado com um iminente suicídio de Herculano e assim ficar sem se dispor do dinheiro que o irmão financia suas farras, Patrício resolve trazer Herculano de volta a vida. Como? Parafraseando Patrício: “A salvação de Herculano é o sexo!”, criando uma das inúmeras seqüências marcantes do filme.
Então, Patrício apresenta Geni (Darlene Glória) ao irmão, uma prostituta de um inferninho qualquer do centro do RJ, que absurdamente se apaixona por Herculano e vice-versa, mas não de uma forma totalmente vulgar, revestida de romance e subvertendo dogmas, e trazendo indagações como: “Uma prostituta não pode se casar?” Claro que o filme envolve mais situações do que o romance entre Herculano e Geni, ainda temos a figura de Serginho (Paulo Sacks), filho de Herculano que não aceita que o pai se envolva com outra mulher, principalmente uma prostituta, mas em determinado momento a situação muda, principalmente quando Serginho é preso e estuprado na cadeia, em um cena impressionantemente maledicente, em que os presos entoam à canção Bandeira Branca, enquanto o sarcástico Ladrão boliviano (Orazir Pereira) faz o serviço.
Toda Nudez Será Castigada é um filme inevitavelmente dramático, mas com momentos em que o riso flui naturalmente, principalmente nas seqüências em que Herculano e Geni se envolvem amorosamente ou nas que a prostituta joga seus belos seios na cara do expectador. Destaque para uma maravilhosa cena em que Patrício ensina à prostituta como ficar com o irmão, bravejando: “Esnoba! Esnoba!” Com atuações únicas e marcantes de todo o elenco, que ainda se dispõe de coadjuvantes como Henriqueta Brieba e Hugo Carvana, Arnaldo Jabor dirigiu e roteirizou um Nelson Rodrigues, emulando Fellini, mas com uma característica toda própria do nosso cinema, principalmente o considerado marginal. Resultado: uma verdadeira obra-prima!
Uma das coisas que mais chama a atenção em À Deriva , de Heitor Dahlia , é a semelhança com produções européias, desde seu estilo de filmage...
Uma das coisas que mais chama a atenção em À Deriva, de Heitor Dahlia, é a semelhança com produções européias, desde seu estilo de filmagem até a trilha sonora que remete a vários clássicos franceses, alem de o protagonista ser o ator francês Vincent Cassel. Esse trabalho de Dahlia de 2009, foge um pouco do estilo sarcástico e de humor negro que o diretor apresentou em obras anteriores, como Nina e O Cheiro do Ralo. O diretor dispôs de atores renomados como a americana Camila Belle e Deborah Bloch, conta com uma estreante que brilha, Laura Neiva, mas não conseguiu cometer sua melhor obra.
A trama gira em torno das férias da família do escritor Mathias (Vincent Cassel). Ele e a esposa (Deborah Bloch) estão em crise e resolvem tentar aplaca-la na casa de praia. Percebe-se logo que não esta dando certo, Mathias tem um caso com uma americana (Camila Belle) em férias também, enquanto a esposa passa a maioria do tempo enchendo a cara. Filipa (a bela Laura Neiva), a filha mais velha, começa a se descobrir como mulher e logo acaba desmascarando o caso do pai. A trama emperra ai, mostrando o desenrolar dos enlaces amorosos da menina e a desconstrução do relacionamento do casal, com momentos pouco inspirados e outros até enfadonhos.
Dahlia explora pouco o que a trama poderia oferecer, perde um bom tempo filmando as paisagens da belíssima cidade de Búzios, que apesar de paradisíaca acaba tendo pouca influencia na historia. Vincente Cassel até defende bem seu papel, falando um português impecável, mas a falta de química com Deborah Bloch é notória. Camila Belle então, acho que fala umas três frases, em uma participação ridícula, querendo emular Brigitte Bardot quando morou no balneário. No final, Á Deriva acaba valendo pela estreante Laura Neiva, que exala sensualidade em seu estilo lolita e o expectador, acaba ficando literalmente como o titulo.
Se por um lado, Bróder não é um filme maravilhoso ou contundente, por outro lado se difere muito em qualidade cinematográfica das atuais pr...
Se por um lado, Bróder não é um filme maravilhoso ou contundente, por outro lado se difere muito em qualidade cinematográfica das atuais produções nacionais cada vez mais americanizadas que estão sendo lançadas. O diretor estreante Jéferson De comete uma obra dotada de emoção e que mesmo em um ambiente inóspito, que poderia levar a um filme exclusivamente sobre criminalidade, como a periferia do Capão Redondo em São Paulo, o seu principal foco é no trio de amigos, que cresceram juntos na favela, mas tiveram rumos diferentes na vida.
A trama se passa no dia do aniversario de Macu (Caio Blat), típico morador do Capão Redondo. Sua mãe (Cássia Kiss) prepara uma festa e convida seus melhores e mais queridos amigos: o famoso jogador de futebol Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Silvio Guindane), que saiu do Capão, mas passa dificuldades para manter a família longe da favela. Existem certas desavenças entre os amigos, mas o clima de amizade é notório, com cenas divertidas e emotivas, como uma em que os amigos cantam juntos um rap dos Racionais ou outra em que os amigos batem bola no campinho mal cuidado da comunidade. Porém, nem tudo é felicidade, Macu esta envolvido com criminosos locais, que elaboram um seqüestro, mas a presença dos antigos amigos, principalmente Jaiminho, faz com que tudo possa mudar, para melhor ou pior.
A obra mostra como a periferia pode influenciar ou talhar a personalidade do seu morador, com situações criveis, com destaque para Caio Blat que constrói um personagem marcante e conflitante, que ama os amigos, mas deve satisfações e obediência aos criminosos locais. O jogador Jaiminho também representa bem a ascensão meteórica de atletas de futebol de comunidades carentes, sem o mínimo de preparo para a vida, que dependem muito dos empresários, que em muitos momentos visam apenas o lucro em detrimento a qualidade de vida do seu cliente. Como disse, não é um filme notável, mas tem personalidade e faz pensar, o que poucos exemplares nacionais tem feito.
Primeira incursão do ator Marcos Paulo na direção, Assalto ao Banco Central é um filme curioso, até por retratar um fato recente da histo...
Primeira incursão do ator Marcos Paulo na direção, Assalto ao Banco Central é um filme curioso, até por retratar um fato recente da historia criminal brasileira. Porem, a obra carece de linguagem cinematográfica e melhor desenvolvimento dos personagens, que se apóiam em frases de efeito, criadas na medida para empolgar o expectador, mas que em certo momento passam a se tornarem enfadonhas.
A obra apresenta linhas temporais diferentes, uma que retrata a organização e execução do maior assalto em terras tupiniquins, outra do ponto de vista dos investigadores, extremamente mal caracterizados por Lima Duarte e Giulia Gam, os dois parecem saídos de um episodio mal acabado da serie CSI. Outro ponto que poderia ser positivo, mas que acaba funcionando de forma negativa são as constantes piadas inseridas, que tiram totalmente a chance de se criar uma atmosfera de tensão e suspense, trazendo o filme para muito perto de mini – series policiais produzidas pela Rede Globo, que também produz esse.
O lado positivo de Assalto ao Banco Central vem dos criminosos, encabeçados por Milhem Cortaz, denominado Barão na trama, que agrega ao personagem líder do bando uma caracterização de mafioso mexicano. Outros criminosos de destaque na obra são Carla (Hermila Guedes) e Mineiro (Eriberto Leão), que junto com o Barão formam um triangulo amoroso. A trupe de coadjuvantes é que acaba atestando ao filme o explicito tom cômico, destacando Tatu (Gero Camilo), o Doutor (Tonico Pereira) e o impagável evangélico Devanildo (Vinicius de Oliveira, o garoto de Central do Brasil).
Assalto ao Banco Central é um filme baseado em fatos reais, mas que inegavelmente carrega um tom ficcional, dos mais adaptados para tentar fazer funcionar. Difícil acreditar que certas situações aconteceram como citado na obra. Uma produção que tinha tudo para ser marcante, mas que se perde em formulas, provavelmente impostas por seus produtores, que no final faz o filme valer apenas como uma produção B de ação.
A verdadeira cilada de Cilada.com é assisti – lo. É o típico filme que o trailer é bem superior à obra, conseguindo até deixar o expecta...
A verdadeira cilada de Cilada.com é assisti – lo. É o típico filme que o trailer é bem superior à obra, conseguindo até deixar o expectador interessado na historia de Bruno (Bruno Mazzeo), sujeito que dá mole com a namorada (Fernanda Paes Leme) e que acaba tendo um vídeo com um performance sexual ridícula sua indo para no You Tube.
Com a aparente ruindade da realização do diretor Jose Alvarenga Jr., de Os Normais 2, vou até abreviar a resenha e não me alongar muito. Cilada.com tenta se apoiar no carisma de Bruno Mazzeo, que protagoniza quadro similar no canal Multishow, e que se utiliza dos mais variados clichês de comedias americanas, misturados a esquetes que podem lembrar também o programa Zorra Total, na tentativa de camuflar a falta aparente de enredo e boas atuações.
Resultado, uma aberração cinematográfica das maiores produzidas ultimamente no Brasil, mas que vai ter muita gente (e já tem) dizendo que é o filme mais engraçado do ano. As pessoas se deixam enganar fácil. Nota 02.
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