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Um trauma ou uma situação mal resolvida na juventude pode influenciar uma vida inteira? Às vezes tornando a pessoa amarga ou incompleta? E m...

Um trauma ou uma situação mal resolvida na juventude pode influenciar uma vida inteira? Às vezes tornando a pessoa amarga ou incompleta? E mesmo depois de 40 ou 50 anos, esse fato pode trazer melancolia e tristeza? Não é estranho que nos sejamos tão complexos, com detalhes que nos mesmos não sabemos explicar. Profissionais sempre querendo estudar a mente humana e descobrir o que nos motiva, mesmo que muitas vezes se chegue a mais perguntas do que respostas. Na minha intuição, Morangos Silvestres dialoga muito sobre isso, revisitando o passado do Dr. Isak Borg (Victor Sjöström), visto pelos seus próprios olhos e mostrando como um amor não correspondido e negação transformaram sua vida e somente na velhice ele teve consciência disso.

Obra-prima do lendário diretor sueco Ingmar Bergman, Morangos Silvestres é um filme poético ao extremo, ora leve ora mais denso, mas sem perder o foco na busca de identidade do próprio protagonista. Dr. Isak Borg esta para receber um premio pela carreira e resolve fazer a viagem até o local aonde recebera a comenda de carro, um percurso até longo. Inicialmente ele sai acompanhado da belíssima nora, mas no decorrer da viagem, ganham à presença de três jovens que viajam sem destino, mas de uma maneira ou de outra querem chegar à Itália. A entrada da trinca de jovens tem um tom reverencial ao velho medico, como se a juventude viesse homenagear a velhice. Uma visão até utópica nos dias de hoje, já que normalmente os jovens tendem a desrespeitar ou ignorar os idosos.

Morangos Silvestres é uma obra repleta de cenas maravilhosas, acho que praticamente todas são belas (até as mais soturnas) e tem funcionalidade no filme, destaco uma das primeiras, quando Isak visita o local onde passava as férias e relembra do quase romance que teve com uma prima, que acabou se casando com um dos seus irmãos. Tocante e comovente ver Isak revendo as cenas de sua própria vida, muitas vezes me pego vivendo no passado também, mas acho que essa é uma das nuances pertinente a  nossa alma, mesmo os que dizem que não vivem no passado, o fazem para tentar se proteger de si mesmo. Outro momento lindo é perto do epílogo quando Isak cita que quando esta triste ou amargurado se põe a lembrar da infância, realmente, não há nada mais belo que a infância, quando somos protegidos por nossos pais e não existem preocupações. Os momentos mais tensos e sombrios são representados pelos sonhos que Isak tem, reafirmando a potencia que a mente tem em infringir medo a nos mesmos.

Diferente do que imaginava, Morangos Silvestres é um filme envolvente do começo ao fim, seus poucos mais de 90 minutos passam voando. O ator Victor Sjöström cria um personagem extramente carismático e difícil de não se identificar. Assisti pouco da filmografia de Ingmar Bergman, somente O Sétimo Selo, que achei uma obra interessante, mas arrastada e que se notabiliza pelo duelo do Cavaleiro cruzado com a Morte. Depois desse, a vontade de adentrar nas obras desse diretor se tornou grande, principalmente também pela visível influencia de Bergman no cinema do meu querido Woody Allen. Persona, Gritos e Sussuros, Fanny & Alexander...pelo que li, bons motivos é que não faltam.