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Tendo assistido apenas Eu. de 1987 da filmografia de Walter Hugo Khouri é inevitável uma comparação com esse Noite Vazia de 1964, nos ido...

Tendo assistido apenas Eu. de 1987 da filmografia de Walter Hugo Khouri é inevitável uma comparação com esse Noite Vazia de 1964, nos idos da filmografia desse diretor. Claro que a diferença de anos torna a comparação sem propósito, mas apesar desse Noite Vazia parecer muito mais solene do que Eu., percebe-se que um dos tema que Khouri gosta de tocar em suas obras é sobre o poder, mesmo um poder aplicado em forma monetária, que acontece com o Marcelo de Eu. e também aparece nesse na forma  de Luisinho (Mario Benvenutti), playboy que passa boa parte da vida em encontros fortuitos em um apartamento preparado para isso.

Lusinho e Nelson (Gabriele Tinti) saem pela noite de SP à procura de diversão e mulheres que tenham algo “diferente”, para que possam levar para uma noitada no apartamento de alcova de Luisinho. Um drink em um bar aqui, uma passada em uma boate ali, um restaurante lá e durante a peregrinação acabam esbarrando em duas prostitutas de luxo (Norma Bengell e Odete Lara), que prontamente se colocam a disposição de acompanhá-los ate o apartamento, mesmo uma delas antagonizando Luisinho o tempo todo, que apesar de tudo, parece não se divertir, mesmo tendo tudo a sua disposição, e faz um tipo de jogo maléfico com o amigo Nelson, que parece sentir-se culpado o tempo todo por participar das perversões do amigo.

Na verdade, Luisinho, talvez, sinta mais prazer em manipular as mulheres com seu dinheiro, que a todo tempo esfrega na cara das moças, do que com o sexo, que aparece com algumas reminiscências em cena, principalmente na figura da prostituta defendida por Norma Bengell, que mesmo sendo promiscua, parece querer manter alguma integridade e ainda parece se interessar verdadeiramente por Nelson, mas a trama não chega a dar profundidade a um romance, mostrando como muitas vezes uma vida de farras e noitadas pode ser tão vazia como uma vida até certo ponto tradicional e como o ser humano pode ser incompleto na sua busca itinerante por satisfação.

Em Noite Vazia, Khouri se mostra ainda como um realizador apurado, construindo belas cenas, como uma em que todos os personagens aparecem tomando banho de chuva na varanda do apartamento, como se lavassem suas almas perdidas de todos os males. Apesar de ser um filme dramático, ele carrega em certos momentos uma trilha sonora que remete a suspense, como se alguma coisa estivesse para acontecer a qualquer momento, criando uma tensão que passa ao expectador. Posso até estar errado, mas também achei que essa obra guarda uma boa inspiração em Bergman, como eles são contemporâneos, pode até proceder, mas sem duvida, essa descoberta de Khouri até agora tem sido extremamente satisfatória, pena seus filmes serem tão difíceis de achar.

Motivado pelo post do blog "Diário de um Cinéfilo", resolvi assistir Boca de Ouro e o filme realmente pode ser caracterizado como...

Motivado pelo post do blog "Diário de um Cinéfilo", resolvi assistir Boca de Ouro e o filme realmente pode ser caracterizado como uma obra - prima, pena que hoje em dia não tenha a projeção merecida, talvez pelas inúmeras versões posteriores tanto no teatro quanto no cinema do brilhante texto de Nelson Rodrigues que defazaram esse filme e também pela dificuldade de conseguir uma cópia de boa qualidade visual e sonora. Devo confessar que comecei a assistir o filme meio cético em relação a qualidade, pois não acreditava que Jece Valadão poderia entregar uma grande atuação como Boca de Ouro, o bicheiro de Madureira que comanda o crime no Rio de Janeiro e que sonha ser enterrado em um caixão de ouro, mas só a cena inicial dele no dentista pedindo para que arranque todos os seus dentes e substitua por dentes de ouro já me ganhou e relaxei e aproveitei essa realização do lendário Diretor Nelson Pereira dos Santos de Vidas Secas, então sogro de Jece Valadão que o convidou para fazer essa primeira adaptação de um texto de Nelson Rodrigues para o cinema. A trama são três versões do mesmo fato envolvendo um casal (Daniel Filho e Maria Lucia Monteiro) que se meteu com o Boca de Ouro e contadas por Guigui (Odete Lara, no auge da beleza), uma das ex - mulheres do Boca, a jornalistas, no dia da morte do bicheiro, que em diferentes momentos, levada pela emoção, emula as histórias com detalhes que levam a finais diferentes e surpreendentes, coisas que só textos de Nelson Rodrigues poderiam criar. Jece Valadão está perfeito, um digno gângster de filme noir, aliás o filme tem um certo visual noir e também me remeteu a Hitchcock em algumas cenas. Os diálogos são precisos, como um tiroteio, um fogo cruzado mesmo. A cena em que Boca fala para uma dondoca admiradora "Beija teu assassino" já se tornou uma das mais célebres do cinema para mim. Engraçado como muitos filmes brasileiros atuais parecem caretas e antiquados perto de Boca de Ouro, um filme ousado, com grandes atuações e super divertido. Nota 10.