O diretor Francis Ford Coppolla impressionou o mundo do cinema na década de 70 com obras-primas máximas como O Poderoso Chefão I e II, A Conversação e Apocalypse Now, tornando indiscutível a sua maneira de talhar seus personagens e domínio amplo de sua arte na narrativa. Na década de 80, quando tudo indicava que Coppolla miraria superproduções que inevitavelmente lhe levariam ao panteão dos mestres do entretenimento da época como Spielberg e George Lucas, o homem contrariou a todos se voltando para produções mais intimistas e concebeu outra importante seqüência, dessa vez de pequenas obras-primas, começando por Vidas sem Rumo, passando pelo inesquecível O Selvagem da Motocicleta e culminando no tão bem realizado quanto Peggy Sue, Seu Passado a Espera.
Se esses três últimos filmes supracitados tivessem sido filmados nos dias de hoje, provavelmente alguém lhes enquadraria em algum tipo de trilogia, algo como a incompreensão na falta de perspectiva na juventude, porque é evidente que as respectivas obras dialogam entre si. Claro que em Peggy Sue temos um tom mais desprendido, alternando com comicidade, porém romântico e terno, diferente da rebeldia introspectiva dos citados Vidas sem Rumo e O Selvagem da Motocicleta, mas aqui a protagonista está tão perdida quantos os deliquentes retratados outrora. Então nesse em questão, Coppola de uma maneira toda especial trás uma obra que se apóia em uma viagem no tempo para mostrar os verdadeiros valores a serem respeitados, dialogando sobre amor, família, envelhecimento e morte, que também vem a ser os temas mais recorrentes da carreira desse magnífico cineasta.
A história logo começa com Peggy Sue (Kathleen Turner) voltando para sua época de colegial quando tem um colapso nervoso durante uma festa para comemorar a antiga turma. De volta aos anos 60, mas com a experiência de uma mulher madura, Peggy tenta reavaliar suas escolhas e aproveitar tudo que perdeu ou tinha medo de fazer quando passou por ali a primeira vez. Desde seu romance com Charlie (Nicolas Cage eficiente), o rapaz mais popular do colégio, que culminou em um casamento fracassado, até aproveitar uma noite intensa de sexo com um rapaz obscuro que desprezava na escola ou o emocionado reencontro com seus avôs, que rende umas das mais bonitas seqüências do filme. O mais notável é como Coppola revisita aquela época inocente (que é sua favorita) sem parafernálias, sem ficções cientificas, apenas usando os próprios personagens envelhecidos como jovens, em um tom amargo e nostálgico de álbum velho de fotografias, como se quisesse mostrar que é impossível viver um tempo passado duas vezes, não tem como voltar, mesmo que no nosso mais intimo possamos desejar isso com imensa vontade.
Mesmo que com menos intensidade, mas afirmo que ainda assim, Peggy Sue se equipara em alguns outros sentidos com as duas outras obras citadas, o diretor usa de um tom artístico para conceber cenas tocantes, seja com uma trilha sonora instrumental sensível ou com belos diálogos citando escritores e poetas famosos como Hemingway (a qual o diretor parece não ter o menor apreço) e Yates. O filme ainda carrega certas curiosidades, como trazer Sofia Coppola ainda bem criança como a irmãzinha de Peggy e o ator Jim Carrey em inicio de carreira fazendo um personagem que o caracterizaria: o eterno sujeito cheio de caras e bocas. Alguns podem discordar, dizendo que não passa de pura pretensão do diretor, mas Peggy Sue, Seu Passado a Espera deve e merece ser destacada com uma das importantes realizações da carreira cheia de altos desse sublime artista.


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