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A primeira impressão sobre Irmãos de Sangue é que esse seria o filme de gangster de Spike Lee , até por ser produzido por um dos papas n...


A primeira impressão sobre Irmãos de Sangue é que esse seria o filme de gangster de Spike Lee, até por ser produzido por um dos papas no assunto, Martin Scorcese, mas tirando a impressão inicial que a sinopse passa, fica logo evidente que estamos diante de uma obra com toques autorais desse competente e talentoso diretor. È inevitável também não perceber o dedo de Scorcese em algumas seqüências, mas passa muito longe dizer que essa seria uma realização de produtor. Porque ninguém mais apropriado do que Lee para destilar sobre a vida contemporânea no Brooklyn e como funcionava o tráfico de drogas praticado pelos “gangstas” na década de 90. Sujeitos que muitas vezes tinham talento para  arte, estudos ou música, como o rapper Tupac, assassinado em 1996, que é citado em muitos momentos do filme, além de pontuar boa parte da trama com suas canções.

Spike Lee se apropria do texto do livro Clockers do ítalo-americano Richard Price, um sujeito morador do Bronx, que na experiência de expectador de muito do que acontecia nas redondezas parece ter concebido uma das obras com mais propriedade sobre o assunto. Na trama, vemos como o crack invandiu aquela sociedade formada basicamente por negros e mexicanos e como a distribuição da droga era feita. Tudo em um tom bem realístico, sem elucidar beleza das cenas, com uma crueldade que parece querer fazer ao expectador sentir toda a dureza do que é apresentado, como quando vemos usuários de drogas se degradando pelos becos ou em umas das cenas mais terríveis quando o traficante vivido por Delroy Lindo (diria em que sua melhor atuação) explica a um de seus “vapores” que aquilo é o melhor negocio do mundo, que a pessoa pode perder a família, o emprego, a casa, mas nunca deixa de comprar seu crack.

A trama logo nos apresenta o policial Rocco (Harvey Keitel sensacional) tentando desvendar o assassinato de um pequeno traficante. O bom cidadão Victor (Isaiah Washington) prontamente se apresenta como o culpado, mas o detetive desconfiado de que Victor está apenas querendo proteger o irmão conhecido como Strike (Mekhi Pifher), um dos traficantes mais conhecidos da área, resolve ir a fundo na investigação, contrariando a todos, principalmente o seu parceiro Larry (John Turturro), que acha que todos os “núbios” nasceram para ser criminosos e se matarem (olha o assunto preconceito aí). No meio dessa linha principal, as subtramas se formam, como a que mostra o envolvimento de Strike com o chefão Rodney (Delroy Lindo) ou a triste história de um assassino viciado aidético vivido visceralmente por Tom Byrd ou ainda uma das mais contundentes passagens que amostra a amizade entre Strike e um garoto, aonde vemos como uma mente jovem e desprotegida pode ser corrompida pelas coisas materiais que uma vida criminosa pode trazer, contrastando com o pensamento de que uma vida honesta naquele lugar jamais poderá ter.


O Filho de Sam ou Assassino da 44 foi um serial-killer que atormentou o Brooklin e o Bronx entre os anos de 1976 e 1977, matava basicamente...


O Filho de Sam ou Assassino da 44 foi um serial-killer que atormentou o Brooklin e o Bronx entre os anos de 1976 e 1977, matava basicamente mulheres e parecia fazer parte de alguma seita satânica. Bom, inicialmente o que pode ser esperar de O Verão de Sam é uma obra que foque no perfil psicológico do assassino ou uma investigação que leve a prisão do mesmo. Isso poderia acontecer se fosse um outro diretor, até mesmo um talentoso como David Fincher, mas quem realiza esse sensacional filme é Spike Lee. Então o que vemos é uma obra que transcende o gênero de suspense sobre assassinos seriais. No meio de toda loucura e tensão instaurada com um maníaco a solta na vizinhança, Lee faz um retrato contundente do verão de 77, um dos mais quentes da historia de NY, passando pelo auge da discoteca, o consumo exacerbado de drogas, sexo liberal, a chegada com força do movimento Punk nos EUA, o inicio da decadência da máfia italiana e no final de tudo ainda dialoga com propriedade sobre preconceito (um dos seus temas preferidos). Resultado: uma obra que se destaca em sua carreira, diria até que figuraria fácil entre as melhores.

O Verão de Sam é um filme que empolga, definitivamente, e talvez esse sentimento possa mascarar algum defeito do filme, mas é realmente louvável como a historia vai se formando. O filme tem diversas referências, algumas explícitas, remetendo a filmes como Os Bons Companheiros, Scarface, Taxi Driver e Embalos de Sábado a Noite e outras que não sei se são coincidência, mas que um expectador mais atento pode perceber, como o inicio do filme que tem um impressionante clima de giallo, com a violência surgindo estilizada, além de boa parte dos atores serem de ascendência italiana e não vemos o rosto do assassino, apenas suas mãos, além da preferência por matar mulheres. Porém logo esse clima de suspense e o foco no assassino são deixados de lado para explorar as nuances dramáticas dos principais personagens, como Vinny (John Leguizamo sensacional), um cabeleireiro mulherengo casado com uma bela garçonete (Mira Sorvino sexy demais), que não consegue ter sexo bom e prazeroso com a mulher, pois acha que tratar a esposa com uma promiscua pode ser pecado ou Richie (Adrien Brody), um jovem que recentemente virou adepto do movimento punk e sofre preconceito por boa parte da vizinhança, culminando na desconfiança de que ele próprio seja o Filho de Sam. Ainda temos um grupo de mafiosos italianos, encabeçados pelo personagem de Ben Gazzara, que na ineficiência da policia para resolver o caso decidem fazer sua própria investigação.

No meio desse clima de tensão crescente instaurado, Lee vai destilando sua teia de diálogos ácidos e mordazes, com a câmera muitas vezes colada aos atores, para assim captar corpos suados e extenuados pelo calor, ansiedade e paranóia. Ora mostrando o relacionamento de Vinny e sua esposa, aonde nos leva a uma cena extremamente fetichista e sensual em que a esposa participa de uma orgia regada a drogas somente para satisfazer o marido libidinoso ora mostrando como o punk Richie se vira para viver, seja fazendo stripteases e sexo com os clientes em uma boate gay ou participando de filmes pornôs com sua namorada ou ainda mesmo mostrando com competência as conseqüências do famoso blecaute de 77, que rendeu um bocado de vandalismo na cidade de NY, em uma inteligente inserção em formato de documentário apresentado pelo próprio diretor. Em certo momento, o retrato daquela época, acompanhado de uma trilha sonora de flashbacks maravilhosa e apoiado em uma direção de arte fabulosa, que remontam aquele final de década de 70 de forma bem realística se mostra tão interessante que chegamos até quase a esquecer que aquele deveria ser um filme sobre um assassino. Com o diretor não se furtando a deixar o que seria o tema principal de lado para criar um grande filme, ele por fim acaba elevando O Verão de Sam a um patamar mais alto e confirmando assim essa como uma de suas obras mais autorais. Vejam!