Sou a favor de qualquer tipo de cinema e narrativa, seja com a mesma truncada, fragmentada, de trás para frente, tramas paralelas que se cruzam ou mesmo filmes que não tenham história, mas que de uma forma ou de outra tenham um atrativo que valide uma sessão. Porém, costumo dizer que tenho que ser sincero, e seguindo esse meu lema, em termos de cinematografia confesso que me agrada muito assistir um filme em sua forma mais tradicionalista: com inicio, meio e fim e ainda assim ser surpreendido por um plot aparentemente comum, mas bem contado na essência, sem fugas para contornar problemas ou distrair a atenção do expectador, o que é o caso de Histórias Cruzadas, produção que ganhou mais notoriedade recentemente por ter ganho algumas indicações para as diversas premiações da temporada americana.
Histórias Cruzadas é um filme que no alto de seus 150 minutos de exibição em nenhum momento passa sensação de chato, na verdade a historia flui de uma maneira incrível, logo nos apegamos aos personagens bem caracterizados e defendidos de maneira incrível pelo elenco feminino que protagoniza o filme, já que a visão das histórias de racismos e maus tratos sofridos pelas empregadas domésticas de uma cidade do Mississipi nos anos 60 que rendeu um livro chamado The Help é apresentada unicamente pelo ponto de vista feminino. Em um universo formado por donas de casas brancas, acostumadas aos privilégios e mimos que recebem desde sempre, eis que surge a jovem escritora Skeeter (Emma Stone), pleiteando um lugar no jornal local ela acaba pegando uma coluna de afazeres domésticos no diário. Como não sabe nada sobre cuidados do lar, pede ajuda a Aibileen (Viola Davis), empregada doméstica de uma amiga. Skeeter não vê com os mesmos olhos como os trabalhadores negros são tratados por seus empregadores, obrigados a usarem um banheiro especial ou não se alimentarem das mesmas comidas dos brancos, no caso segregação total. Skeeter não demonstra suas indignações com as amigas, porque logo seria retaliada, mas a amizade e admiração por Aibileen estimulam a moça a escrever algo sobre as experiências das domésticas em seus trabalhos, que muitas vezes cuidam e educam os filhos das patroas.
Daí o diretor e roteirista Tate Taylor desfia emocão e sensibilidade na medida, repleta de momentos tocantes e construindo seus personagens sem pressa e dando a eles o devido tempo em cena para engrandecer o filme com grandes atuações. Atrizes aparentemente limitadas como Emma Stone e Bryce Dallas Howard se superam, diria que a Hilly Holbrook de Bryce é um dos melhores vilões de 2011, a moça trás ao seu personagem a maldade e preconceito disfarçado e travestido de gente decente, rendendo momentos incrivelmente tensos. Então não bastasse a satisfação inicial de ver uma grande realização se formando, lá pelo meio do filme somos apresentados a incrível Célia Foote (Jéssica Chastain), que desde o seu primeiro momento enche o filme de vida, com sua personagem transgressora e conflituosa. O relacionamento que Celia desenvolve com Minny Jackson (Octavia Spencer), uma empregada calejada com as maldades das patroas, é um dos momentos mágicos da obra e rende um bocado de ternura. Definitivamente, Histórias Cruzadas é um filme empolgante e emocionado, os sentimentos pulsam na maioria das cenas, mesmo alguns sendo reprováveis e rendendo um bocado de raiva ao espectador, o que ainda cria uma ótima interação. Quanto a Viola Davis, essa é uma atriz excepcionalmente talentosa, merecia ser lembrada em uma premiação, mesmo que ache que isso não seja necessário para celebrar seu trabalho, mas seria bom ver seu reconhecimento e o dessa realização que figura fácil entre as melhores de 2011.


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