Mostrando postagens com marcador James Wood. Mostrar todas as postagens

O estimulo do cérebro humano através da violência, criando assim uma realidade distorcida, aonde o corpo humano se torna um receptáculo q...


O estimulo do cérebro humano através da violência, criando assim uma realidade distorcida, aonde o corpo humano se torna um receptáculo que pode ser usado como uma engrenagem. A manipulação definitiva, que usada através da TV, de modo massivo, pode transformar o mundo. Essa pode ser a premissa de Vídeodrome, uma das principais e mais contundentes obras do autor David Cronenberg. A visão desse ousado diretor, que imaginava a televisão como uma dominadora de idéias e como o reflexo dessa dominação poderia influenciar o ser humano, criando até o que seria uma “nova carne”, a fusão de homem com tecnologia, um novo ser concebido através da estimulação audiovisual.

Rever Videodrome é aumentar a admiração por Cronenberg, um realizador que de uma maneira ou de outra sempre trás o ser humano e suas constantes modificações e adaptações ao mundo que vive. Nessa realização, feita 2 anos após Scanners, Cronenberg manteve o foco nessas mudanças que podem ser infringidas ao corpo humano. Max Renn (James Woods) é produtor de uma emissora de TV a cabo picareta, que ganha o público com produções violentas e de cunho pornográfico, ainda com a justificativa do diferente que atrai. Ele mantém um estúdio clandestino, aonde pirateia transmissões de outras emissoras a cabo e em uma dessas incursões  acaba captando as imagens de um programa intitulado Videodrome, aonde são exibidas imagens de torturas, mutilações, mas com um teor que evoca sensualidade. Max fica seduzido pelas imagens e resolve investigar sua origem e nessa peregrinação pelo emissor do sinal, se vê envolvido em uma espécie de conspiração, desenvolvida por um grupo que tem interesse em manipular as pessoas através da programação e exibição do Videodrome.

A exploração da violência com sexualidade mostra o quanto Videodrome pode ter influenciado a carreira de Cronenberg, a temática ressoa em outras obras suas, principalmente no excelente Crash - Estranhos Prazeres. A concepção de uma vagina enorme no tórax de Max para servir como o receptáculo de informações, o que na historia seria um videocassete humano também já foi remontada em eXistenZ, aonde os humanos eram conectados a um game através de aberturas nas costas que lembravam orifícios anais. O cinema de Cronenberg é assim, pode-se não gostar, mas é feito para perturbar, desafiar o expectador e causar repulsa mesmo. As maneiras como os aparelhos de TV ganham vida e interagem com o protagonista são impressionantes e mesmo realizadas a mais de 20 anos ainda são competentes e de forma até bem realísticas.

Sinceramente, nem lembro quantas vezes assisti Videodrome, claro que nas primeiras apreciações nem me atentava a tantos detalhes, como alguns diálogos sensacionais, o interesse era maior pela excelente trilha sonora de horror e nos efeitos visuais que são primorosos, algo de gênio mesmo, mas uma coisa que sempre me incomodou nessa obra era seu epílogo, talvez por ser um tanto minimalista. Não sei se a intenção de Cronenberg era terminar a obra daquela maneira mesmo ou se teve haver com orçamento, mas nessa ultima revisão, me senti diferente, não ficou aquele gostinho de quero mais das ultimas vezes, achei que o final é perfeito, como se mesmo procurando uma saída, era inevitável aquele desfecho. Convenci-me que deveria ser assim pessimista, até porque a intenção é tornar marcante e discutível toda aquela loucura apresentada.