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A recente apreciação do excelente A Pele que Habito me deixou ávido por mais um Pedro Almodóvar , o cinema instigante do espanhol parece q...


A recente apreciação do excelente A Pele que Habito me deixou ávido por mais um Pedro Almodóvar, o cinema instigante do espanhol parece que cresce nas lembranças e enquanto a sua mais recente obra na sai para ser revista em home–video, esse expectador que vos escreve vai se contentando revendo algumas lançadas e o escolhido foi o também maravilhoso Volver. Um filme que apesar de na essência ser um drama, tem seus momentos de mistério e até traça alguns comparativos com A Pele que Habito, como a mulher que vive enclausurada e guarda um terrível segredo.

No cinema de Almodóvar é mais do que evidente o seu desapego à figura masculina, não sei se algum trauma talvez tenha gerado esse comportamento e nas suas obras o diretor parece exorcizar seus demônios e em uma espécie de auto-analise acaba parecendo fazer do público seu divã (ou seria ao contrário?) e assim concebendo obras sempre desafiadoras e contundentes. Em Volver, o cineasta faz um filme essencialmente feminino, não há homens para se criar contrapontos, os poucos que aparecem logo são limados para darem espaço às atrizes brilharem em cena. Penélope Cruz, Carmen Maura, Lola Dueñas, Blanca Portillo criam um verdadeiro embate de sentimentos esquecidos e aflorados com a morte de uma tia, que parece ter sido cuidada nos últimos momentos de vida pelo fantasma de sua irmã Irene (Carmen Maura) que vem a ser a mãe de Raimunda (Penélope Cruz) e Sole (Lola Dueñas). No dia do enterro da tia, o fantasma acompanha Sole (Lola Dueñas) de volta e se instala em sua casa com  o intuito de se acertar com as filhas.

Claro que Almodóvar não se apega somente ao reencontro de mãe e filhas e apresenta uma outra vertente da historia envolvendo Augustina (Blanca Portillo), uma vizinha filha de uma hippie, e que a mãe sumiu no mesmo dia em que a mãe de Raimunda morreu. Desenrolando esse dois mistérios, o diretor vai tecendo uma teia de feminices que explicitam toda a beleza da mulher. Penélope Cruz, incrivelmente linda e sensual, até nos momentos mais sofridos, representa a dona de casa que parece voltar a sentir a vida depois que o marido a "abandona", é dela uma das melhores cenas, quando protagoniza uma seqüência emocionante cantando uma bela canção enquanto o fantasma da mãe a observa, criando assim um dos momentos mágicos do filme ou mesmo uma outra seqüência dotada da mesma magia em que a fantasma de Irene reencontra Augustina, que clama por saber o que aconteceu a sua mãe.

Volver tem suas reviravoltas e muito do que parece ser na verdade não é. E assim como em A Pele que Habito, quando Almodóvar revela seus segredos, parece que o filme ganha mais força. Como foi dito por alguns leitores do blog e afirmado por esse humilde escritor e fã desse talentoso diretor na postagem do seu último filme, somente um cineasta genial como o espanhol para revelar o mistério do filme ainda na sua metade e mesmo assim manter a trama atraente para o público. Volver é uma obra emblemática na carreira desse cineasta, divide opiniões como a maioria de seus filmes, mas até para quem não gosta é impossível não se render ao magnetismo dessa extraordinária realização.  


Se tem um cineasta na atualidade que merece todos os louvores, esse é o espanhol Pedro Almodóvar , o talentoso diretor filma somente na E...


Se tem um cineasta na atualidade que merece todos os louvores, esse é o espanhol Pedro Almodóvar, o talentoso diretor filma somente na Espanha, na sua maioria das vezes com atores locais e trazendo todas as particularidades de sua latinidade. Poderia ganhar mais dinheiro trabalhando como diretor de aluguel, mas defende seus princípios, fazendo filmes autorais que transitam entre gêneros, mas sempre com toques pessoais que costumam elevar suas obras, que mesmo quando não são excelentes, se apresentam no mínimo interessantes. Esse é Almodóvar, seu cinema é amado pelos cinéfilos e atualmente sua abrangência é tão grande que ousaria dizer que sua arte passou a ser popular, e merecidamente.

Trazer um texto sobre sua mais recente e excelente realização, A Pele que Habito, sem conter revelações que possam estragar o prazer de quem venha a assistir é um desafio, porque o próprio filme tem o principio de ser misterioso e a partir da premissa inicial do cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas) que parece ter desenvolvido uma pele artificial que vem sendo testada em uma paciente que mantém enclausurada em sua casa/clinica a historia vai se formando. Então tentando não revelar as melhores partes da obra, é possível que o verdadeiro sentimento pelo filme não seja exarcebado no texto. Alias, são em filmes como esse que eu gostaria de ser um talentoso escritor e poder exaltar com palavras todo o verdadeiro prazer e reflexão que essa obra me proporcionou e ainda vai proporcionar.

Em A Pele que Habito, o diretor trás uma obra que flerta bem perto com o cinema de horror, é inegável a influencia do gênero, como se esse fosse o "filme de monstro" de Almodóvar. Apesar de não trazer a dramaticidade quase novelesca de outras obras suas, não deixa de ter seu arco dramático formado, seja na genialidade louca do personagem de Antonio Banderas ou na fuga interior de Vera (Elena Anaya), a jovem aprisionada que guarda todo um mistério bem especial e que impulsiona a trama ou ainda na empregada Marilia (Marisa Paredes) que guarda alguns segredos relativos ao cirurgião que não é apenas seu empregador. Com esse iminente ambiente Almodovariano formado, fica difícil não se envolver realmente. Quando os mistérios são revelados, os sentimentos dos personagens parecem ser os nossos e alguns podem ser bastante doloridos, principalmente para o público masculino.

Almodóvar já provou inúmeras vezes que vê os homens como monstros, lhes nega ternura ou compaixão, suas heroínas são mulheres e o masculino somente parecem ter sentimentos quando o personagem é homossexual e talvez em A Pele que Habito ele tenha ido até o fundo nessa situação. Só que aqui ele apresenta motivos para tais atos cruéis de Robert Ledgard, mesmo sendo reprováveis, o homem tem sentimentos feridos, maculados por pessoas que o fizeram sofrer e talvez isso tenha gerado o monstro que é apresentado. Um filme para ser visto e revisto, de um autor com pleno domínio de sua arte.