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Demorei quase um ano para conferir Feliz Natal , o primeiro filme de Selton Mello na direção. Não porque tenha deixado de lado, até tent...


Demorei quase um ano para conferir Feliz Natal, o primeiro filme de Selton Mello na direção. Não porque tenha deixado de lado, até tentei assistir duas vezes, mas o inicio insuportavelmente lento sempre me fazia pegar no sono. A motivação extra para assisti-lo veio logo após a sessão do novo filme desse iminente diretor, O Palhaço, para assim tentar traçar alguns comparativos. Na verdade, os dois filmes têm pouco em comum, alguns enquadramentos parecidos, mas o tom de melancolia e tristeza é muito mais forte aqui, trazendo uma ausência de redenção para os personagens.

A trama se desenrola nos festejos de natal da família de Caio (Leonardo Medeiros), um sujeito que vive afastado da família cuidando de seu ferro-velho e na noite de natal resolve fazer uma visita a seus familiares e antigos amigos. A chegada dele durante a ceia natalina desperta as reminiscências entocadas naquela desestruturada família, que tem no patriarca (Lúcio Mauro inspirado) um sujeito despreocupado com seus entes, que suga financeiramente um dos filhos, enquanto se satisfaz sexualmente com uma mulher bem mais jovem e a matriarca (Darlene Gloria também inspiradíssima) uma senhora com sérios problemas psicológicos, que mistura barbituricos com bebidas alcoólicas, trazendo desconforto aos familiares com seu estado. Claro que todo aquele comportamento reprovável respiga nos filhos, que não sabem lidar tanto com um quanto com outro e ainda parecem perdidos nas próprias convicções.

Feliz Natal é um filme seriamente triste, com fortes tendências depressivas, mas que infelizmente pode ser o cotidiano de uma família e a ambientação dele na época natalina soa totalmente crível, até porque nesses dias é quando as pessoas têm tempo disponível e acabam encarando a vida que levam de verdade. Sendo assim, é normal que muitos sintam esses sentimentos em uma época que deveria ser festiva. O olhar de Selton Mello é pessimista assim mesmo, não elucida beleza da tristeza, mas mesmo assim ele consegue extrair candura e ternura em alguns momentos. Pode não ter a beleza estética da sua mais recente obra, mas dialoga com mais propriedade sobre o assunto apresentado.


Das adaptações cinematográficas de Nelson Rodrigues havia assistido Boca de Ouro de 1963, dirigida por Nelson Pereira dos Santos e Um Bei...

Das adaptações cinematográficas de Nelson Rodrigues havia assistido Boca de Ouro de 1963, dirigida por Nelson Pereira dos Santos e Um Beijo no Asfalto de 1981, dirigida por Bruno Barreto. Todas duas excelentes obras, conduzidas por diretores competentes e que retratam muito bem o universo rodriguiano, mas Toda Nudez Será Castigada se destaca muito desses, assinada pelo controverso Arnaldo Jabor. Um diretor que teve seus alto e baixos, mais conhecido atualmente por suas crônicas no Jornal da Globo, mas que cravou seu nome na historia com um filme belo e mordaz, que remete ao cinema dos mestres italianos.

Herculano (Paulo Porto) é um sujeito católico, apegado à família, que recentemente perdeu a mulher para o câncer, vive uma vida de luto e clausura, acompanhado de suas tias beatas e do irmão fanfarrão Patrício (Paulo César Peréio, soberbo em cena). Preocupado com um iminente suicídio de Herculano e assim ficar sem se dispor do dinheiro que o irmão financia suas farras, Patrício resolve trazer Herculano de volta a vida. Como? Parafraseando Patrício: “A salvação de Herculano é o sexo!”, criando uma das inúmeras seqüências marcantes do filme.

Então, Patrício apresenta Geni (Darlene Glória) ao irmão, uma prostituta de um inferninho qualquer do centro do RJ, que absurdamente se apaixona por Herculano e vice-versa, mas não de uma forma totalmente vulgar, revestida de romance e subvertendo dogmas,  e trazendo indagações como: “Uma prostituta não pode se casar?” Claro que o filme envolve mais situações do que o romance entre Herculano e Geni, ainda temos a figura de Serginho (Paulo Sacks), filho de Herculano que não aceita que o pai se envolva com outra mulher, principalmente uma prostituta, mas em determinado momento a situação muda, principalmente quando Serginho é preso e estuprado na cadeia, em um cena impressionantemente maledicente, em que os presos entoam à canção Bandeira Branca, enquanto o sarcástico Ladrão boliviano (Orazir Pereira) faz o serviço.

Toda Nudez Será Castigada é um filme inevitavelmente dramático, mas com momentos em que o riso flui naturalmente, principalmente nas seqüências em que Herculano e Geni se envolvem amorosamente ou nas que a prostituta joga seus belos seios na cara do expectador. Destaque para uma maravilhosa cena em que Patrício ensina à prostituta como ficar com o irmão, bravejando: “Esnoba! Esnoba!” Com atuações únicas e marcantes de todo o elenco, que ainda se dispõe de coadjuvantes como Henriqueta Brieba e Hugo Carvana, Arnaldo Jabor dirigiu e roteirizou um Nelson Rodrigues, emulando Fellini, mas com uma característica toda própria do nosso cinema, principalmente o considerado marginal. Resultado: uma verdadeira obra-prima!