Mostrando postagens com marcador Selton Mello. Mostrar todas as postagens

Demorei quase um ano para conferir Feliz Natal , o primeiro filme de Selton Mello na direção. Não porque tenha deixado de lado, até tent...


Demorei quase um ano para conferir Feliz Natal, o primeiro filme de Selton Mello na direção. Não porque tenha deixado de lado, até tentei assistir duas vezes, mas o inicio insuportavelmente lento sempre me fazia pegar no sono. A motivação extra para assisti-lo veio logo após a sessão do novo filme desse iminente diretor, O Palhaço, para assim tentar traçar alguns comparativos. Na verdade, os dois filmes têm pouco em comum, alguns enquadramentos parecidos, mas o tom de melancolia e tristeza é muito mais forte aqui, trazendo uma ausência de redenção para os personagens.

A trama se desenrola nos festejos de natal da família de Caio (Leonardo Medeiros), um sujeito que vive afastado da família cuidando de seu ferro-velho e na noite de natal resolve fazer uma visita a seus familiares e antigos amigos. A chegada dele durante a ceia natalina desperta as reminiscências entocadas naquela desestruturada família, que tem no patriarca (Lúcio Mauro inspirado) um sujeito despreocupado com seus entes, que suga financeiramente um dos filhos, enquanto se satisfaz sexualmente com uma mulher bem mais jovem e a matriarca (Darlene Gloria também inspiradíssima) uma senhora com sérios problemas psicológicos, que mistura barbituricos com bebidas alcoólicas, trazendo desconforto aos familiares com seu estado. Claro que todo aquele comportamento reprovável respiga nos filhos, que não sabem lidar tanto com um quanto com outro e ainda parecem perdidos nas próprias convicções.

Feliz Natal é um filme seriamente triste, com fortes tendências depressivas, mas que infelizmente pode ser o cotidiano de uma família e a ambientação dele na época natalina soa totalmente crível, até porque nesses dias é quando as pessoas têm tempo disponível e acabam encarando a vida que levam de verdade. Sendo assim, é normal que muitos sintam esses sentimentos em uma época que deveria ser festiva. O olhar de Selton Mello é pessimista assim mesmo, não elucida beleza da tristeza, mas mesmo assim ele consegue extrair candura e ternura em alguns momentos. Pode não ter a beleza estética da sua mais recente obra, mas dialoga com mais propriedade sobre o assunto apresentado.


Assim que começa a projeção de O Palhaço tenho a melhor surpresa do filme, o primeiro rosto a aparecer é de uma velha conhecida, quase a...


Assim que começa a projeção de O Palhaço tenho a melhor surpresa do filme, o primeiro rosto a aparecer é de uma velha conhecida, quase amiga, a atriz Michelle Martins. Sei que ela tem feito sucesso na novela global Fina Estampa com a personagem Deusa, mas sinceramente fiquei muito feliz dela aparecer nesse simpático trabalho do diretor/ator Selton Mello. Sempre focada em trabalhar em cinema, ela já tinha feito alguns trabalhos em clipes do Snoopy Dog e Black Eyed Peas, o papel dela no filme é pequeno, sem falas, mas pontua muito bem a jornada de redescobrimento do palhaço Pangaré (Selton Mello).

Passado a surpresa inicial de ver a linda Michelle na tela grande, O Palhaço era um filme que esperava muito, foram diversos textos exaltando a segunda realização de Selton Mello e alguns outros poucos apontando falhas. Talvez a minha expectativa tenha se elevado e achei um filme bonito, belo mesmo, com fotogramas perfeitos e trilha sonora envolvente. A sacada de usar figuras carismáticas e folclóricas como Zé Bonitinho, Ferrugem, Teuda Bara e ainda uma participação maravilhosa de Moacyr Franco faz o filme ficar divertido. O elenco do circo em sintonia, com destaque para Paulo José, que faz o palhaço Puro Sangue, pai de Pangaré é outro ponto positivo da obra, mas o resultado para mim ficou pouco emotivo. O minimalismo de algumas cenas não me cativou como deveria e inevitavelmente a ótica sobre o filme ficou distanciada, achando que em alguns momentos Selton Mello forçou um pouco a barra para emular Fellini.

Claro que Selton Mello apresenta qualidades boas em seu trabalho, principalmente com as seqüências de quando o prefeito de uma cidade convida todos os artistas do circo para almoçarem em sua casa ou o bem conduzido epílogo, em que a bela Michelle volta a aparecer, criando certa emoção e fazendo algum sentimento pelo filme crescer. Nessa segunda incursão na direção, Mello parece apresentar um viés bem intimo que chega perto da alcunha de autoral para o seu cinema, mas como autor tem o que desenvolver ainda e nós expectadores esperarmos por um bem vindo trabalho que possa realmente ser considerado algo parecido com uma obra-prima.


A nova realização do diretor brasileiro Andrucha Waddington , Lope , produzido em parceria pelo Brasil e a Espanha, é a historia de Lope ...


A nova realização do diretor brasileiro Andrucha Waddington, Lope, produzido em parceria pelo Brasil e a Espanha, é a historia de Lope de Vega (Alberto Ammann), poeta, dramaturgo e considerado um dos mais talentosos escritores espanhóis. A trama se foca na juventude de Lope e também apresenta um personagem próprio para o cinema. O Lope da obra de Waddington é galanteador e talentoso com as palavras, mas também é heróico, na verdade uma espécie de anti – herói, sujo, bom no manuseio da espada e pronto para se meter em confusões que acometam seus sentimentos.

Lope é um filme de altos e baixos (mais altos que baixos), que consegue empolgar em algumas cenas, devido ao carisma do protagonista Alberto Ammann, que talvez não carregue a carga dramática que o personagem demande, mas que defende muito bem a pele desse aventureiro Lope de Vega. O seu poeta se envolve com duas belas mulheres da corte, o que pode custar sua cabeça, enquanto tenta emplacar peças suas em um teatro bancado por Jerônimo Velásquez (o excelente Juan Diego), um produtor que tenta se aproveitar dos problemas financeiros do escritor.

A produção também utiliza muito bem as paisagens das locações, criando uma fotografia bela, que ajuda a reforçar a primorosa reconstituição de época, fazendo parecer que Lope é cinema de gente grande. Um filme, que no meu ponto de vista, tratado de outra maneira, poderia ter um forte apelo comercial, porque mesmo abordando um tema como a literatura, que pode ser tornar enfadonho pela falta de conhecimento do expectador, nunca chega a ser chato, com boa fluência e apostando até em algumas seqüências de ação, como um bem orquestrado duelo de espadas  quando mercenários aparecem para cobrar uma divida passada de Lope.

É fato que Lope é um filme bem legal, mas a falta de uma maior descrição do personagem principal faz com que ele ganhe contornos superficiais, caindo em alguns clichês de biografias de época, a participação de Selton Mello como o Marques de Navas, sujeito que encomenda poemas a Lope para conquistar mulheres, também é bem ruim, Selton arranha um portunhol terrível que destoa a todo tempo. Sonia Braga também faz uma participação pequena como a mãe do poeta.

Em um contexto geral, Lope acaba tendo essas imperfeições suprimidas pelas belas inserções de poemas de Lope de Vega durante a trama, com destaque para o soneto do epílogo, recitado na integra durante uma cena em que o escritor cavalga em alta velocidade, uma das mais belas escritas sobre o amor, o que para um leigo como eu, acabou valendo a ida ao cinema, mesmo que em uma sessão desprezada e única às onze horas da manhã.