Uma das nuances mais prazerosas de se ter um Blog e escrever sobre algo que te faz feliz é poder apresentar os teus conhecimentos, apontamentos e junto com isso conhecer pessoas que compartilham os mesmo sentimentos que você, nesse caso sobre cinema, e assim descobrir as preferências de cada um que freqüenta seu espaço e que você inevitavelmente acaba freqüentando os deles também, uma deliciosa rotina que acaba trazendo novos conhecimentos e amizades. Um dos blogs que costumo visitar com freqüência é O Falcão Maltês, que destila muito bem sobre cinema clássico e recentemente comemorou 1 ano de existência. O seu simpático administrador Antonio Nahud publicou uma lista com suas preferências afetivas em que apontava como o melhor drama em sua opinião Quando os Sinos Dobram, uma obra da qual não conhecia, até porque tenho certo distanciamento do cinema dos anos 40. Assisto muito anos 50, 60, 70 em diante, mas a década de quarenta e outras anteriores são pouco desbravadas por mim, mas sem nenhum motivo especial, talvez falta de referencias mesmo.
Uma copia em alta-definição dessa jóia veio muito bem a calhar para me mostrar o que estava perdendo, Quando os Sinos Dobram é uma maravilha, emocionante, um filme ate certo ponto exótico, mas carregado de poesia, sentimentos e de uma qualidade visual impressionante. Para um desinformado, nem dá para dizer que é uma realização com quase 70 anos, tamanho seu apuro, com uma fotografia impecável e uma trama que carrega certos contrapontos sensuais e um plano que envolve ousadia, mesmo contando a historia da Irmã Clodagh (Deborah Kerr impecável), uma jovem que decide ser freira depois de uma desilusão amorosa e como conseqüência é indicada para estabelecer um convento nas difíceis montanhas do Himalaia, do lado indiano e consequentemente dentro do território de um pomposo General. A dupla de diretores Michael Powell e Emeric Pressburger imbui a sua obra-prima de conflitos, ora entre as freiras e os nativos ora entre elas mesmos, que parecem sofrer psicologicamente pelo excessivo trabalho e ora entre a Irmã Clodagh e o representante do General, o Sr. Dean (David Farrar), um inglês que vive de maneira simples nas colinas e parece guardar tantas reminiscências quanto Clodagh. No embate entre homem rude e freira, é evidente que existe uma tensão atrativa entre os dois, o que acaba sendo um dos pontos altos do filme, mesmo não tendo um desfecho trivial que o expectador espere.
Quando os Sinos Dobram é uma obra de beleza impar (tanto que ganhou 2 Oscar pelo apreço artístico) em muitas cenas, como na seqüência em que vemos a jovem nativa Kanchi (a ainda novata Jean Simmons) paramentada como uma simples indiana, mas mesmo assim linda ao ponto de chamar a atenção do alienado jovem General (o lendário ator indiano conhecido como Sabu) em uma dança para lá de sensual ou os momentos que apresentam um homem santo que passa todo seu tempo meditando nas montanhas ou ainda as vertiginosas seqüências a beira dos penhascos que enchem a tela de apreensão. Definitivamente, uma produção que pode ser considerada a frente de seu tempo, apesar de que ouço que muitas inovações partiram dos anos 40, uma época aonde houve muita perseguição aos realizadores de cinema, mas que mesmo assim não deixou de ser criativa, rendendo filmes antológicos como esse e outros maravilhosos como Cidadão Kane e A Felicidade não se Compra. Uma agradável empreitada que pretendo imprimir desbravando a filmografia desses anos. Alguma sugestão?


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