Somente pelo talentoso elenco formado por atores de naipe como Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti (sensacional),Marisa Tomei, Jeffrey Whrigth, o próprio George Clooney que também dirige e os mais jovens e não menos talentosos Evan Rachel Wood e Ryan Gosling já valeria uma conferida em Tudo Pelo Poder, à quarta incurssão de Clooney na batuta de uma produção e novamente trazendo uma história politizada bem construída, focada nos bastidores de uma campanha política a presidência, mas com um bem vindo clima de thriller que torna essa sua realização mais do que interessante.
O protagonista da historia é Stephen Meyers (Ryan Gosling), um jovem idealista assessor da campanha do governador Mike Norris (George Clooney), que vem a ser também um dos fortes candidatos a assumir a presidência dos EUA. A trama se foca em uma das eleições preliminares em um estado aonde Norris tem poucas chances, mas que com o jogo de bastidores armado por assessores de ambas as partes, formado por muita intriga e segredos, fazem com que tudo possa mudar apenas por um detalhe deixado de lado ou uma revelação arrasadora, levando o espectador a sentir o quão sujo e calculista pode ser o mundo político, aonde a lei do mais forte manda e o que era muito importante um momento, pode ser totalmente descartável 2 minutos depois dependendo da informação que cada um disponha.
Clooney compõe esse contexto malicioso com muita segurança, sem titubear na hora de transcender o ritmo de drama serio que a obra apresenta no inicio para assim nos envolver com uma pegada de suspense psicológico que mesmo mostrando mazelas dos políticos, da politicagem e até da mídia, que também não deixa de influenciar e manipular a seu favor, sua obra se sai muito bem tanto quanto uma critica severa a uma sociedade deveras hipócrita ou mesmo um inteligente entretenimento de muito boa qualidade.
A produção inglesa baseada no aclamado livro Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme que foi bem recebido em festivais, como o de Can...
A produção inglesa baseada no aclamado livro Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme que foi bem recebido em festivais, como o de Cannes, a qual foi nomeado para a Palma de Ouro e também tem recebido muitas indicações para premiações como o Globo de Ouro e uma boa parte da critica e dos cinéfilos que o assistiram esperam que seja lembrado para o Oscar. São notórios os motivos pelo qual o filme tem sido louvado, pois mostrar uma relação familiar, com foco na mãe e no filho, de maneira tão crua e cruel é para poucos e a diretora escocesa Lynne Ramsay se sai bem no tratamento da tragédia que envolve esses conturbados e perturbados personagens.
A narração entrecortada por passagens em linhas temporais diferentes pode demorar um pouco a fazer o espectador se conectar com a obra, porque em certos momentos elas confundem, mas podem ter sido armadas desse jeito para gerar esse embaralhamento, até porque Ramsay vai liberando as revelações aos poucos, trazendo cenas que mostram o desfecho, para depois mostrar o que aconteceu. Como Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme recente e que deve estrear em circuito comercial no Brasil ainda em Janeiro de 2012, nem vale contar muito de sua trama que mostra o relacionamento deveras difícil entre Eva (Tilda Swinton), a mãe perdida em suas próprias convicções e no trato do filho Kevin (Ezra Miller na fase adolescente), um jovem que parece sofrer algum desvio de caráter ou somente seja carente de amor materno, mas que faz o jovem se tornar uma bomba ambulante, prestes a explodir a qualquer momento.
A opção por não delinear muito os aspectos de Kevin é interessante, mostrando apenas passagens soltas de sua infância e adolescência, porque cabe ao público decifrar o personagem, que ainda parecer guardar muitas semelhanças com a mãe, mesmo que ela não perceba ou faça vista grossa para a situação. A verdade é que o rapaz não se ajusta ao mundo como ele é, parecendo um tanto deslocado para qualquer ponto de vista e somente quando confronta ou afronta Eva é que podemos perceber o quanto ele sofre ou por um outro lado mesmo achar que o rapaz é apenas um sociopata em potencial. A mãe mesmo percebendo o quanto Kevin parece estranho, ainda assim tenta trata-lo como se nada acontecesse, como se tudo pudesse passar em um passe de mágica, mas sabemos que não é assim e ela também, mas é o filho dela e sabe-se que uma mãe mesmo sabendo o quanto seu filho pode ser repulsivo, no seu mais intimo ela nunca deixa de amá-lo. Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme que precisa ser visto e discutido, independente de premiações ou atuações, uma obra que dialoga muito bem sobre esse cotidiano introspectivo.
Um filme precisa de uma trama sensacional ou uma história fascinante para ser considerado uma grande realização? O nosso saudoso Glauber ...
Um filme precisa de uma trama sensacional ou uma história fascinante para ser considerado uma grande realização? O nosso saudoso Glauber Rocha já dizia que o cinema é áudio e visual, não precisa de história ou a mesma seria mero detalhe na concepção desse polêmico diretor. Bom, também sou adepto daqueles que acreditam que o cinema pode ser grande e interessante apenas usando de imagens e sons, como nessa maravilhosa produção européia que é O Cavalo de Turim. Um filme que emociona pelo detalhismo de suas cenas e tem o mérito de fazer isso em uma representação que é pouco emocional pelo ponto de vista humano e ainda parecendo que apenas aquele sofrido animal realmente tem sentimentos feridos.
No começo do filme temos uma explanação em off sobre um cavalo que o filósofo alemão Friederich Nietzsche salvou de um linchamento em 1889, tendo ainda adquirido o animal para si, o levando para Turim. Logo depois o mesmo narrador nós conta sobre a loucura que se apossou de Nietzche e que por ter que ser cuidado pelas irmãs, o filósofo teve que se desfazer do cavalo. Então daí parte o ponto de vista da parca trama: O que teria acontecido ao cavalo de Nietzche? Ao final dessa indagadora explanação inicial, o espectador é levado a um longo plano seqüência sensacional de um senhor conhecido como Olsdorfer (János Derzsi), que parece ser agora o detentor do animal, conduzindo o cavalo por terrenos inóspitos, envolvidos por uma espessa névoa e um vento cortante. Alías, o que é a sonoplastia desse filme? Diria que rara, fazendo o próprio vento surgir com um dos principais personagens do filme.
O cinema do diretor húngaro Béla Tarr se assemelha em alguns aspectos com o do alemão Michael Haneke, com longos enquadramentos estáticos, dando tempo ao espectador explorar cada canto da cena, como se fosse um quadro. Na verdade, todo O Cavalo de Turim parece uma pintura em movimento, daquelas sufocantes, com momentos detalhadamente captados pela câmera de Tarr, que sem pressa constrói o cotidiano monótono daquele pai e filha (Erika Bók) vivendo em um lugar pouco povoado, isolados ainda e com uma relação quase inexistente de afeição mútua, o que ainda rende pouquíssimos diálogos e mesmo quando um senhor surge na casa para lhes pedir bebida, causando uma única cena de verborragia exacerbada, o diretor parece colocar apenas para afirmar a sua intenção de mostrar que muitas vezes as palavras não querem dizer nada ou usar muito bem aquele clichê de que uma imagem vale por mil delas.
Ainda tocado pela forma como Tarr comete seu filme, que cresce na consciência quando relembrado, e mesmo sendo uma realização longa (150 minutos) e que ainda parece não acontecer nada ou muito pouco, em nenhum momento O Cavalo de Turim se mostra chato ou maçante, pelo contrário. Repleto de momentos lindamente melancólicos em que esse brilhante diretor constrói usando apenas o vento e nos brindando ainda com outros planos seqüências impressionantes, como quando a dupla fica sem água em casa e precisa sair para arrumar alguma, é inevitável ao final do longa afirmarmos que estamos diante de uma obra-prima.
Rachel, Stephan e David são três agentes da Mossad isralense que são enviados para a Alemanha Oriental em 1965, em plena Guerra fria, co...
Rachel, Stephan e David são três agentes da Mossad isralense que são enviados para a Alemanha Oriental em 1965, em plena Guerra fria, com a missão de seqüestrar o médico criminoso nazista conhecido como Dieter Vogel (Jesper Christensen) ou mais famoso pela alcunha de o “Cirurgião de Birkenau” que recebeu pelos inúmeros experimentos tenebrosos que fez com o povo Judeu durante a guerra. A dita missão não sai como o esperado e os envolvidos se vêem presos a um segredo que os atormentará a vida toda.
Desse ponto que a obra do experiente diretor John Madden, de filmes como Shakespeare Apaixonado e O Capitão Corelli, começa a desfiar a misteriosa conspiração que envolve os três agentes, alternando os acontecimentos do passado, mostrando o cativeiro em que mantiveram Vogel, aonde Rachel, Stephan e David são representados respectivamente por Jéssica Chastain, Marton Csókas e Sam Worthington e o presente que se situa no ano de 1997 aonde são encarnados também respectivamente por Hellen Mirren, Tom Wilkinson e Ciarán Hinds.
Madden dirige esse roteiro escrito por Matthew Vaugh, de Kick Ass, e consegue criar certo interesse do espectador com seu filme, principalmente nas cenas passadas em 1965, em que Jéssica Chastain amostra porque vem sendo aclamada como uma das melhores atrizes do ano de 2011. A moça cria uma Rachel tão forte que a concepção da oscarizada Mirren para o mesmo personagem chega quase a não convencer, mas essa não é a principal imperfeição de No Limite da Mentira. O filme tem problemas de ritmo que incomodam, principalmente quando a historia surge em 1997. Tanto que essa vertente da trama parece diminuída, talvez tenha tido cortes na edição final, porque faz o filme parecer pouco empolgante, principalmente quando as seqüências que são para gerar clímax inexplicavelmente são entrecortadas por outros flashbacks soltos que parecem sem sentido para a narrativa, fazendo ainda parecer um bocado de enrolação ou mesmo algum tipo de capricho do diretor.
Pelo conjunto final, No Limite da Mentira não chega a ser decepcionante ou ruim, fica mais perto de um razoável ou até bom, mas com gosto de que poderia ser bem melhor, até pelos nomes talentosos envolvidos. Madden apesar de mais experiência com obras dramáticas comete boas seqüências de ação e tensão, algumas outras emotivas com certa propriedade, reafirmando principalmente quando Chastain surge em cena nessa obra que em certos momentos também elucida uma possível direção de atores frouxa e que ainda faltou engendrar melhor as linhas temporais, o que afasta ou pode fazer o espectador ver a realização com certo distanciamento e que inevitavelmente faz desse filme algo que provavelmente logo será esquecido.
Um filme em que um dos plots principais é um campeonato de lutas MMA que envolve a rivalidade entre dois irmãos normalmente não deve ser l...
Um filme em que um dos plots principais é um campeonato de lutas MMA que envolve a rivalidade entre dois irmãos normalmente não deve ser levado muito a serio, até porque essa não é a primeira obra e nem vai ser a última a visitar essa temática. Porém, Guerreiro passa longe de ser um filme apenas de lutas e treinamentos, diria que está mais para O Vencedor de 2010 do que para um genérico do Grande Dragão Branco com ex-astro belga Van Damme. Até porque o esporádico diretor Gavin O´Connor trás um retrato contundente e visceral de uma família de lutadores repleta de conflitos, amarguras e tristezas desde sempre que procuram na violência da luta uma maneira de se reencontrarem e libertarem suas frustrações.
Tommy Conlon (Tom Hardy) reaparece do nada na casa do pai que não vê há 14 anos, Paddy (Nick Nolte), um ex-alcoolatra que vive tentando se redimir com seu outro filho, Brendan (Joel Edgerton). A intenção de Tommy, que carrega certa áurea misteriosa, é que Paddy o treine para um campeonato de MMA chamado Sparta, que vai render 5 milhões ao campeão. Brendan, professor de física em uma escola fundamental, após ser suspenso das suas atividades por conta de uma luta e com problemas financeiros em casa, acaba voltando ao ringue, do qual viveu por um bom tempo como lutador do UFC. Por acaso, Brendan acaba sendo inscrito no mesmo torneio. Então, o que torna Guerreiro destacado na filmografia que envolve filmes de lutadores é como O´Connor trata os aspectos de cada personagem. Não vemos treinamentos edificantes, nem personagens heróicos, os protagonistas são bem humanos, cheios de defeitos, principalmente o Paddy de Nick Nolte, que entrega uma atuação sensacional, como o pai que destroçou aquela família com seu vicio.
Na verdade, Guerreiro é um filme que trás atuações sublimes da trinca principal, Joel Edgerton concebe com qualidade o sujeito mediano que se supera nas adversidades, é dele uma das lutas mais emocionantes quando enfrenta um oponente russo, mas Tom Hardy nos brinda com um momento icônico em sua carreira, desde o magnífico Bronson de Refn feito em 2008 tenho um olhar especial para esse ator. O Tommy de Hardy é daqueles personagens reprováveis que cativam o público de uma maneira tão forte que fica difícil não torcer por ele ou se emocionar com sua jornada. Um homem marcado por tragédias, de poucas falas, mas que com seu olhar selvagem consegue transmitir boa parte de suas emoções contidas que descarrega de forma brutal contras seus adversários.
No meio de todo esse crível conflito familiar, pontuado por momentos brutalizados, mas mesmo assim tocantes, é claro que a realização de O´Connor tem sua ação, com lutas bem coreografadas e filmadas, mostrando toda a violência que o MMA pode proporcionar e que atrai um séqüito de fãs que afirmam a projeção de que o esporte provavelmente vai dominar o gosto do público, superando até outros esportes mais populares. A edição que acelera e desacelera o filme nos momentos certos é mais um dos trunfos que o diretor conseguiu trazer para mesclar com competência drama e ação e assim fazer de Guerreiro um dos melhores filmes no ano de 2011.
George Bailey ( James Stewart ) é um sujeito inteligente e talentoso, que poderia muito bem alcançar sucesso fora de sua cidade, mas o a...
George Bailey (James Stewart) é um sujeito inteligente e talentoso, que poderia muito bem alcançar sucesso fora de sua cidade, mas o apego e respeito ao negócio do pai, um banco de empréstimos para pessoas pobres, faz com que o homem desista de tudo em prol do bem estar daquelas pessoas. O altruísmo de George faz com que deixe sua própria vida em segundo plano e assim vemos um de seus melhores amigos ascender financeiramente e seu irmão fazer carreira como militar, sendo até condecorado pelo presidente americano. Tanto uma como outra poderia fácil ser a verdade de George, mas mesmo sempre se questionando, ele parece feliz na sua vida simplória. Apesar das dificuldades, George tem o que muitos almejam, uma esposa que ama e que o ama também, a paixão de sua vida, e quatro filhos que são a razão de sua existência. Uma bela vida dentro de sua simplicidade.
O que George não esperava e não contava é que o sumiço de uma importante quantia em dinheiro do Banco pudesse fazer com que o homem se rendesse as investidas de um mal intencionado senhor que explora as pessoas a quem ele procura ajudar e ainda pior, a perda daquela quantia, faria com que George ficasse na miséria com sua família. Aquilo parecia um verdadeiro terror na vida daquele valoroso homem, não pelo dinheiro, mas pelo bem-estar de quem tanto ama. A terrível noticia vem na véspera de Natal, momento que deveria ser de comemorações. Após uma briga com a esposa, bêbado e desorientado, George sai sem destino pela cidade e se depara com um parapeito de uma ponte, no seu desespero ele pensa seriamente em um suicídio, mas uma pessoa realmente boa não merece uma segunda chance? Será que George tem alguém que olha de maneira especial por ele? Nada mais justo para quem sempre cuidou dos seus próximos... Sim, George tem alguém que guarda por ele, alguém bem especial lá em cima, que preocupado com o destino daquele ser diferenciado, lhe envia um anjo sem asas para mostrar ao abalado homem como sua vida é importante e única.
A Felicidade não se Compra é um filme que fala por si só, resenhado ao maximo, fixo na lista dos melhores filmes de todos os tempos e categórico quando se fala de uma obra cinematográfica que evoque com qualidade o verdadeiro espírito natalino. Interessante também que pode-se dizer que o filme do ítalo-americano Frank Capra é uma produção de natal, mas o que realmente vemos é uma realização que transcende sua própria temática e que prima por uma narrativa, podendo-se dizer até modernosa, remontando aqueles próprios sofridos anos pelo povo americano, abatido e combalido pela grande depressão, muitos sem perspectiva, mas que não perdiam a fé em tempos melhores, uma felicidade que os espreitasse em alguma esquina. Tudo é representado de uma maneira honrosa, mesclando comicidade e dramaticidade na medida certa e emocionando sem apelar, a atuação mágica de James Stewart trás o “algo mais” que um grande filme precisa para se destacar.
Hoje em dia, um filme como A Felicidade não se Compra pode soar bobo ou ingênuo, até porque a própria humanidade parece ter perdido boa parte da ingenuidade e romantismo representado outrora, mas há de se destacar que Capra cometeu um filme marcante dentro do próprio universo do cinema, que até hoje a temática é revisitada e que provavelmente criou um bocado do que pode ser chamado de clichê. Essa é a minha dica de Natal, gostaria que o texto tivesse saído mais emocional, porque esse é um filme que aprecio muito e que ainda me emociona com seu epílogo tocante e que saúda a verdadeira essência do ser humano. Para quem não assistiu, os dias 24 e 25 de dezembro são datas oportunas para conhecer essa maravilha e para quem já conhece, nunca é demais rever essa obra-prima. Desde já saúdo os leitores desse humilde blog com um Feliz Natal e que possam ter a verdadeira felicidade em suas vidas, aquela felicidade que não se compra.
Dono de uma extensa filmografia, com cerca de 60 filmes no currículo, o diretor português Manoel de Oliveira mesmo no alto de seus 103 a...
Dono de uma extensa filmografia, com cerca de 60 filmes no currículo, o diretor português Manoel de Oliveira mesmo no alto de seus 103 anos parece ainda fazer cinema com amor, visível nessa sua ultima obra adaptada de um conto do escritor Eça de Queiroz intitulada Singularidades de uma Rapariga Loura. Existe um lirismo presente, com cenas esmeradas em detalhes. Evidente que Oliveira concebe um filme menor dentro da sua própria carreira, que detêm algumas preciosidades como Um Filme Falado de 2003, mas mesmo sendo minimalista, ainda assim é envolvente e delicioso em sua apreciação rápida de pouco mais de uma hora.
A historia parte de um ponto de vista de um romance a primeira vista contado pelo jovem Macário (Ricardo Trepa), um empregado administrativo de uma loja de departamentos, e a bela Luísa (Catarina Wallenstein), uma jovem que passa boa parte de seu tempo a se abanar com um formoso leque chinês na janela de sua casa, que vem a dar direto na sala de Macário e por onde os dois se apaixonam, mesmo que sem trocar uma única palavra. A partir do momento em que se encontram, Macário promete casamento à moça e como seu tio e patrão é contra a união, dificulta a parte financeira do rapaz que precisa se virar para conseguir dinheiro para a cerimônia e os preparativos.
Singularidades de uma Rapariga Loura ainda é um filme que o humor surge de maneira sarcástica, mas mesmo assim polida. Alias, é um filme francamente educado na representação de seus personagens, até mesmo nos momentos conturbados, rendendo um anacronismo para como eram delineadas as relações antigamente, principalmente na Portugal do lendário Oliveira.
O diretor Francis Ford Coppolla impressionou o mundo do cinema na década de 70 com obras-primas máximas como O Poderoso Chefão I e II , A...
O diretor Francis Ford Coppolla impressionou o mundo do cinema na década de 70 com obras-primas máximas como O Poderoso Chefão I e II, A Conversação e Apocalypse Now, tornando indiscutível a sua maneira de talhar seus personagens e domínio amplo de sua arte na narrativa. Na década de 80, quando tudo indicava que Coppolla miraria superproduções que inevitavelmente lhe levariam ao panteão dos mestres do entretenimento da época como Spielberg e George Lucas, o homem contrariou a todos se voltando para produções mais intimistas e concebeu outra importante seqüência, dessa vez de pequenas obras-primas, começando por Vidas sem Rumo, passando pelo inesquecível O Selvagem da Motocicleta e culminando no tão bem realizado quanto Peggy Sue, Seu Passado a Espera.
Se esses três últimos filmes supracitados tivessem sido filmados nos dias de hoje, provavelmente alguém lhes enquadraria em algum tipo de trilogia, algo como a incompreensão na falta de perspectiva na juventude, porque é evidente que as respectivas obras dialogam entre si. Claro que em Peggy Sue temos um tom mais desprendido, alternando com comicidade, porém romântico e terno, diferente da rebeldia introspectiva dos citados Vidas sem Rumo e O Selvagem da Motocicleta, mas aqui a protagonista está tão perdida quantos os deliquentes retratados outrora. Então nesse em questão, Coppola de uma maneira toda especial trás uma obra que se apóia em uma viagem no tempo para mostrar os verdadeiros valores a serem respeitados, dialogando sobre amor, família, envelhecimento e morte, que também vem a ser os temas mais recorrentes da carreira desse magnífico cineasta.
A história logo começa com Peggy Sue (Kathleen Turner) voltando para sua época de colegial quando tem um colapso nervoso durante uma festa para comemorar a antiga turma. De volta aos anos 60, mas com a experiência de uma mulher madura, Peggy tenta reavaliar suas escolhas e aproveitar tudo que perdeu ou tinha medo de fazer quando passou por ali a primeira vez. Desde seu romance com Charlie (Nicolas Cage eficiente), o rapaz mais popular do colégio, que culminou em um casamento fracassado, até aproveitar uma noite intensa de sexo com um rapaz obscuro que desprezava na escola ou o emocionado reencontro com seus avôs, que rende umas das mais bonitas seqüências do filme. O mais notável é como Coppola revisita aquela época inocente (que é sua favorita) sem parafernálias, sem ficções cientificas, apenas usando os próprios personagens envelhecidos como jovens, em um tom amargo e nostálgico de álbum velho de fotografias, como se quisesse mostrar que é impossível viver um tempo passado duas vezes, não tem como voltar, mesmo que no nosso mais intimo possamos desejar isso com imensa vontade.
Mesmo que com menos intensidade, mas afirmo que ainda assim, Peggy Sue se equipara em alguns outros sentidos com as duas outras obras citadas, o diretor usa de um tom artístico para conceber cenas tocantes, seja com uma trilha sonora instrumental sensível ou com belos diálogos citando escritores e poetas famosos como Hemingway (a qual o diretor parece não ter o menor apreço) e Yates. O filme ainda carrega certas curiosidades, como trazer Sofia Coppola ainda bem criança como a irmãzinha de Peggy e o ator Jim Carrey em inicio de carreira fazendo um personagem que o caracterizaria: o eterno sujeito cheio de caras e bocas. Alguns podem discordar, dizendo que não passa de pura pretensão do diretor, mas Peggy Sue, Seu Passado a Espera deve e merece ser destacada com uma das importantes realizações da carreira cheia de altos desse sublime artista.
Sou a favor de qualquer tipo de cinema e narrativa, seja com a mesma truncada, fragmentada, de trás para frente, tramas paralelas que se cr...
Sou a favor de qualquer tipo de cinema e narrativa, seja com a mesma truncada, fragmentada, de trás para frente, tramas paralelas que se cruzam ou mesmo filmes que não tenham história, mas que de uma forma ou de outra tenham um atrativo que valide uma sessão. Porém, costumo dizer que tenho que ser sincero, e seguindo esse meu lema, em termos de cinematografia confesso que me agrada muito assistir um filme em sua forma mais tradicionalista: com inicio, meio e fim e ainda assim ser surpreendido por um plot aparentemente comum, mas bem contado na essência, sem fugas para contornar problemas ou distrair a atenção do expectador, o que é o caso de Histórias Cruzadas, produção que ganhou mais notoriedade recentemente por ter ganho algumas indicações para as diversas premiações da temporada americana.
Histórias Cruzadas é um filme que no alto de seus 150 minutos de exibição em nenhum momento passa sensação de chato, na verdade a historia flui de uma maneira incrível, logo nos apegamos aos personagens bem caracterizados e defendidos de maneira incrível pelo elenco feminino que protagoniza o filme, já que a visão das histórias de racismos e maus tratos sofridos pelas empregadas domésticas de uma cidade do Mississipi nos anos 60 que rendeu um livro chamado The Help é apresentada unicamente pelo ponto de vista feminino. Em um universo formado por donas de casas brancas, acostumadas aos privilégios e mimos que recebem desde sempre, eis que surge a jovem escritora Skeeter (Emma Stone), pleiteando um lugar no jornal local ela acaba pegando uma coluna de afazeres domésticos no diário. Como não sabe nada sobre cuidados do lar, pede ajuda a Aibileen (Viola Davis), empregada doméstica de uma amiga. Skeeter não vê com os mesmos olhos como os trabalhadores negros são tratados por seus empregadores, obrigados a usarem um banheiro especial ou não se alimentarem das mesmas comidas dos brancos, no caso segregação total. Skeeter não demonstra suas indignações com as amigas, porque logo seria retaliada, mas a amizade e admiração por Aibileen estimulam a moça a escrever algo sobre as experiências das domésticas em seus trabalhos, que muitas vezes cuidam e educam os filhos das patroas.
Daí o diretor e roteirista Tate Taylor desfia emocão e sensibilidade na medida, repleta de momentos tocantes e construindo seus personagens sem pressa e dando a eles o devido tempo em cena para engrandecer o filme com grandes atuações. Atrizes aparentemente limitadas como Emma Stone e Bryce Dallas Howard se superam, diria que a Hilly Holbrook de Bryce é um dos melhores vilões de 2011, a moça trás ao seu personagem a maldade e preconceito disfarçado e travestido de gente decente, rendendo momentos incrivelmente tensos. Então não bastasse a satisfação inicial de ver uma grande realização se formando, lá pelo meio do filme somos apresentados a incrível Célia Foote (Jéssica Chastain), que desde o seu primeiro momento enche o filme de vida, com sua personagem transgressora e conflituosa. O relacionamento que Celia desenvolve com Minny Jackson (Octavia Spencer), uma empregada calejada com as maldades das patroas, é um dos momentos mágicos da obra e rende um bocado de ternura. Definitivamente, Histórias Cruzadas é um filme empolgante e emocionado, os sentimentos pulsam na maioria das cenas, mesmo alguns sendo reprováveis e rendendo um bocado de raiva ao espectador, o que ainda cria uma ótima interação. Quanto a Viola Davis, essa é uma atriz excepcionalmente talentosa, merecia ser lembrada em uma premiação, mesmo que ache que isso não seja necessário para celebrar seu trabalho, mas seria bom ver seu reconhecimento e o dessa realização que figura fácil entre as melhores de 2011.
Filmes que retratam doenças, principalmente as terminais, são quase um gênero dentro do cinema. Normal, até porque quando uma formula dá ...
Filmes que retratam doenças, principalmente as terminais, são quase um gênero dentro do cinema. Normal, até porque quando uma formula dá certo é mais do que viável haver visitas e revisitas, massificando o tema, o que ainda acaba rendendo exemplares de todos os tipos. Esse em questão, intitulado 50% é um filme sobre câncer, não há dúvidas, mas se diferencia dos demais por tratar o tema por uma visão até certo ponto cômica, mas sem deixar de ser emocional e humano.
A historia logo nos apresenta Adam (Joseph Gordon-Levitt), um rapaz radialista em uma estação pela internet que descobre que a dor que sentia nas costas é um câncer raro e em evolução. Então, o até então pouco conhecido diretor Jonathan Levine trás um retrato sensível e sincero da trajetória de Adam por essa terrível doença, cometendo momentos de destaque como os diálogos entre o protagonista e outros dois pacientes nas sessões de quimioterapia ou ainda as sessões de terapia com uma médica novata que rendem divertidas tiradas.
Em tempos em que cada vez mais somos vistos como estatística (como o próprio titulo sugere com a porcentagem de sobrevivência em relação aos portadores do mal), Levine lança um olhar mais humano aos seus personagens, sem momentos edificantes ou procuras desenfreadas por curas, mostrando pessoas vivendo e tendo que lidar com seus problemas e desconstruindo a idéia de que todos os pacientes devem se prostrar em sua doença, o que rende uma graça educada e lisonjeira, fazendo parecer que Adam poderia muito bem ser um amigo próximo. A boa e equilibrada presença de Seth Rogen como seu camarada de todos os momentos talvez confirme isso.
50% ainda é uma obra em que se faz notar que os envolvidos compraram a idéia do projeto, porque todos os atores aparecem muito bem, talvez Levine seja um bom diretor de atores ou os mesmos se sensibilizaram com a historia que se inspira em um caso real, porque desde Levittà Anna Kendrick, passando por Bryce Dallas Howard e os veteranos Anjelica Huston e Philip Baker Hall todos estão muito a vontade em seus papeis e mostrando talento e timing para mesclar a comicidade e dramaticidade necessária para fazer a trama fluir. As cenas finais são de marejar os olhos e fazem de 50% um bonito e tocante relato de uma doença tão sofrível.
Cyril ( Thomas Doret ) é um menino de seus 12 anos, após a morte de sua avó, com quem vivia, ele é abandonado pelo pai e acaba indo parar...
Cyril (Thomas Doret) é um menino de seus 12 anos, após a morte de sua avó, com quem vivia, ele é abandonado pelo pai e acaba indo parar em um orfanato. Durante uma tentativa de fuga do local para ir ao encontro do pai, Cyril conhece a cabeleireira Samantha (Cecile de France), que o acolhe e com ela desenvolve um relacionamento baseado em amizade. Essa é a premissa inicial da produção francesa O Garoto de Bicicleta, verdade que é das mais batidas, mas como os irmãos Dardenne desenvolvem a idéia é que diferencia o filme do lugar comum de outros dramas parecidos.
Os Dardenne concebem um filme minimalista, mas dotado de sentimentos bem verdadeiros, difícil não se comover com a busca do garoto pelo reconhecimento de seu pai. Louvável também como os diretores não apelam, fugindo de clichês e cometem um filme sincero em relação aos acontecimentos e mostram um jovem bem confuso nos seus sentimentos e atitudes, que vão das desobediências e manhas bem pertinentes ao universo infantil a uma violência descomedida que Cyril usa para libertar suas frustrações em relação à vida. O relacionamento entre o garoto e a cabeleireira Samantha é dotado de certa ternura e beleza, mesmo que em atos mínimos, porque assim como Cyril não tem um lar para viver, Samantha tem o lar, mas parece não ter sentido a sua vida.
O Garoto de Bicicleta é um filme bem direto, mostrando também as dificuldades do amadurecimento, principalmente quando não se tem em quem espelhar e muitas vezes pode se mirar em quem esta mais perto ou se aproxime mais, o que é mostrado na historia com o traficante amigável que tenta seduzir o garoto para que cometa um crime. Uma obra com mensagens interessantes e um epílogo que demonstra como muitas vezes podemos nos arrepender dos nossos atos, mas como isso pode somente não bastar.
A primeira impressão sobre Irmãos de Sangue é que esse seria o filme de gangster de Spike Lee , até por ser produzido por um dos papas n...
A primeira impressão sobre Irmãos de Sangue é que esse seria o filme de gangster de Spike Lee, até por ser produzido por um dos papas no assunto, Martin Scorcese, mas tirando a impressão inicial que a sinopse passa, fica logo evidente que estamos diante de uma obra com toques autorais desse competente e talentoso diretor. È inevitável também não perceber o dedo de Scorcese em algumas seqüências, mas passa muito longe dizer que essa seria uma realização de produtor. Porque ninguém mais apropriado do que Lee para destilar sobre a vida contemporânea no Brooklyn e como funcionava o tráfico de drogas praticado pelos “gangstas” na década de 90. Sujeitos que muitas vezes tinham talento paraarte, estudos ou música, como o rapper Tupac, assassinado em 1996, que é citado em muitos momentos do filme, além de pontuar boa parte da trama com suas canções.
Spike Lee se apropria do texto do livro Clockers do ítalo-americano Richard Price, um sujeito morador do Bronx, que na experiência de expectador de muito do que acontecia nas redondezas parece ter concebido uma das obras com mais propriedade sobre o assunto. Na trama, vemos como o crack invandiu aquela sociedade formada basicamente por negros e mexicanos e como a distribuição da droga era feita. Tudo em um tom bem realístico, sem elucidar beleza das cenas, com uma crueldade que parece querer fazer ao expectador sentir toda a dureza do que é apresentado, como quando vemos usuários de drogas se degradando pelos becos ou em umas das cenas mais terríveis quando o traficante vivido por Delroy Lindo (diria em que sua melhor atuação) explica a um de seus “vapores” que aquilo é o melhor negocio do mundo, que a pessoa pode perder a família, o emprego, a casa, mas nunca deixa de comprar seu crack.
A trama logo nos apresenta o policial Rocco (Harvey Keitel sensacional) tentando desvendar o assassinato de um pequeno traficante. O bom cidadão Victor (Isaiah Washington) prontamente se apresenta como o culpado, mas o detetive desconfiado de que Victor está apenas querendo proteger o irmão conhecido como Strike (Mekhi Pifher), um dos traficantes mais conhecidos da área, resolve ir a fundo na investigação, contrariando a todos, principalmente o seu parceiro Larry (John Turturro), que acha que todos os “núbios” nasceram para ser criminosos e se matarem (olha o assunto preconceito aí). No meio dessa linha principal, as subtramas se formam, como a que mostra o envolvimento de Strike com o chefão Rodney (Delroy Lindo) ou a triste história de um assassino viciado aidético vivido visceralmente por Tom Byrd ou ainda uma das mais contundentes passagens que amostra a amizade entre Strike e um garoto, aonde vemos como uma mente jovem e desprotegida pode ser corrompida pelas coisas materiais que uma vida criminosa pode trazer, contrastando com o pensamento de que uma vida honesta naquele lugar jamais poderá ter.
A intenção da produção espanhola Diário Proibido é trazer o retrato de uma pessoa que sofre patologicamente da compulsão por sexo, no caso ...
A intenção da produção espanhola Diário Proibido é trazer o retrato de uma pessoa que sofre patologicamente da compulsão por sexo, no caso a ninfomaníaca Valérie (Belén Fabra), uma mulher linda, independente e bem sucedida. Até ai tudo bem, porque uma doença pode aplacar uma pessoa de qualquer idade, classe social ou sexo, o que ainda poderia fazer dessa realização uma obra bem interessante, mas não é o caso da em questão. Diário Proibido como obra cinematográfica é péssimo, mas tem toda uma roupagem para enganar o expectador, seja com as inúmeras cenas de sexo ousadas para soarem artísticas ou sentimentais seja em tentar comover o expectador com o dramalhão de uma mulher que invés de tratar sua patologia, prefere se justificar como alguém indomável que prefere o sexo ao amor.
Bom, posso até parecer “quadrado”, mas sinceramente, da proposta de trazer um retrato de uma pessoa com esse tipo de distúrbio, Diário Proibido passa longe, porque não há um trato das situações como doença e fica parecendo que a personagem é apenas uma amante da luxúria, o que já foi mostrando de maneira muita mais divertida em diversas pornochanchadas nacionais. Diferente dos produtos nacionais, o diretor Christian Molina comete uma obra com um tom serio, mas que glamouriza da pior maneira possível a vida de Valerie, fazendo de transas casuais com estranhos na rua algo que possa ressoar como poético, quando na verdade ele deveria estar alertando sobre isso, mostrando todo o tom underground que uma pessoa pode ter por levar uma vida como essa. No filme tudo é muito bonitinho, asséptico demais, não há um resquício de sujeira nos atos da moça, a maioria dos homens com quem transa são lindos e amáveis, fazendo assim parecer como se instigasse a qualquer um que saia na rua fazendo sexo com o primeiro que apareça. As situações beiram tão o absurdo que em certo momento a mulher larga o marido rico e o trabalho oneroso para poder se lançar como prostituta e assim passar mais tempo transando ou quando a personagem justifica sua conduta dizendo que sempre usa camisinha.
Diário Proibido teve exibição no circuito em poucos cinemas no Brasil em 2009, lembro que na época li algumas criticas que elogiavam o filme e outras posteriores que revelavam que o diretor Marcus Baldini tinha tirado muito dele para o seu Bruna Surfistinha. Essa segunda afirmativa até procede, porque assim um como o outro parecem um tanto inverossímeis, exaltam modos de vida reprováveis ou tratáveis quando deveriam fazer um retrato mais justo e no final parece que tudo foi montado apenas para mostrar boas sacanagens com as atrizes e seus belos corpos, porque são filmes amplamente vazios e sem conteúdo.
Contar muito da trama de Ricky é até um pecado, porque quem se predispor a assistir a esse ótimo filme do cineasta francês François Ozon ...
Contar muito da trama de Ricky é até um pecado, porque quem se predispor a assistir a esse ótimo filme do cineasta francês François Ozon deve se surpreender e se emocionar com as belas surpresas que essa obra pode proporcionar. Usando de uma historia até simples, envolvendo o nascimento de uma bela criança que logo começa a apresentar algumas mudanças físicas e também no seu comportamento, o diretor cria uma obra única, que flerta com o cinema fantástico, com traços de suspense e drama, mas sem ter sua comicidade, embalada ainda pelos sentimentos maternais e a ligação bem particular que somente uma mãe pode ter com seu filho.
Assim como em outras realizações suas, Ozon restringe muito do seu filme a quatro paredes (apesar de algumas das melhores seqüências acontecerem nas poucas externas). Inicialmente ele mostra todas as dificuldades e desafios que um bebê pode trazer com sua chegada e sem demoras ele coloca um conflito entre Katie (Alexandra Lamy), a mãe da criança e Paco (Sergi Lopez), o pai de ascendência espanhola, que faz com que o homem a abandone e torne a mãe mais reclusa ainda com o menino e a outra filha mais velha, que ainda criança não aceita muito a chegada do irmão. Temos um inevitável quadro dramático formado, mas quando as mudanças começam a surgir em Ricky parece que todo um leque de bonança se abre para a família, fazendo até o pai voltar para o lar ou mesmo ganharem algum dinheiro na loteria.
Ricky é um filme curto (85 minutos), daqueles que diz logo ao que veio, o que parece ser recorrente na carreira de Ozon e me agrada bastante a maneira que o diretor consegue sintetizar seus temas. Sem muitos rodeios ele cria uma historia emocionante na medida, com cenas tocantes, principalmente as do epílogo, e que são de uma beleza exultante. Esse pode não ser o melhor trabalho do diretor, que apenas destoa na estranha seqüência inicial que talvez tenha sido feita para confundir mesmo, mas é inevitável não se sentir no mínimo resignado ao final desse belo filme.
A primeira vez que assisti O Selvagem da Motocicleta tinha uns 11 anos, foi em uma reapresentação no finado Cine Olaria, cinema que exist...
A primeira vez que assisti O Selvagem da Motocicleta tinha uns 11 anos, foi em uma reapresentação no finado Cine Olaria, cinema que existia no bairro onde ainda moro. Apesar de ser um filme com restrição para menores, era bem fácil ter acesso a esse tipo de obra naquele cinema ou até qualquer outro. Eram outros tempos e não havia tanta preocupação assim com o que podia se aprender com um filme. Era bem comum o pessoal da onde morava freqüentar esse cinema, uma enorme sala, com um telão gigantesco e que cabia bem mais que 1000 pessoas, herança de uma época aonde as pessoas colocavam ternos e roupas de gala para visitar a sala escura. Não eram raras às vezes em que se via ela com boa parte de sua lotação tomada, não me esqueço à fila interminável que se formou quando por lá foi exibido E.T. Saudosismos a parte, lembro que essa obra do genial Francis Ford Coppola foi um dos primeiros filmes a realmente me chamar a atenção para concepção de filmes como algo artístico. Após o termino da sessão, voltando pelas ruas mal iluminadas do bairro, a sensação é que algo havia mudado dentro de mim, não era mais o mesmo, O Selvagem da Motocicleta tinha me envelhecido, me feito ver a vida por outra ótica, que não existiam somente queridinhos da mamãe como eu, que a vida era dura e muitas vezes sem significado e que uma alma poderia viver uma existência toda de conflitos consigo mesmo. É, Coppola me marcou de uma forma indescritível e por isso tenho uma relação afetiva muito especial com esse filme.
Escrever sobre esse filme sem ser emocional é quase impossível, a cada vez que revejo O Selvagem da Motocicleta minha admiração por essa obra cresce, talvez ela até tenha problemas de narrativa como alguns comentam, mas o misto de sentimentos e lembranças que ela ainda me provoca ainda é bem forte. Na época que descobri esse filme, mesmo com o baque que acusei, ainda era muito jovem e tinha pouco conhecimento ou discernimento para aproveitá-lo em sua plenitude, os simbolismos hoje em dia são mais evidentes e até acho o titulo no Brasil bem minimalista, a analogia do Motoqueiro (um Mickey Rourke mítico), ex-lider de uma gangue que agora vive por vagar sem destino, com o peixe de briga (Rumble Fish do titulo original) que surge colorido perante a visão daltônica preta e branca do personagem é perfeita. Com certeza o Motoqueiro é um personagem que vive em constante conflito consigo mesmo, como se pudesse brigar com sua própria imagem refletida no espelho, uma alusão com bastante propriedade de como um jovem pode ser incompreendido nas suas faltas de perspectivas e é genial que o Motoqueiro nem é o protagonista do filme, que vem a ser o seu irmão Rusty James (Matt Dilon em seu melhor momento), um limitado jovem deliquente que idolatra o irmão. Então, entra uma das outras perspectivas amplamente visitadas por Coppola em suas realizações: o conflito familiar, porque nesse quadro distopico temos a figura do Pai alcoólatra vivido por Dennis Hopper que facilmente estaria representando a ele mesmo. A aura lírica e mágica, mesmo que melancólica, que envolve os personagens é o que talvez mais crie empatia com o expectador, difícil não se identificar ou mesmo sentir pena em algum momento daqueles rapazes.
Bom, se não bastasse todo o clima sentimental que envolve O Selvagem da Motocicleta, a realização ainda é repleta de cenas antológicas, como na seqüência inicial em que Rusty se envolve em uma briga, sendo esfaqueado e o Motoqueiro aparece de forma triunfal e o salva da morte arremessando a motocicleta de forma sensacional no algoz de seu irmão ou quando Rusty após levar uma surra de criminosos, tem uma experiência de quase morte em que vê sua projeção astral visualizar a si mesmo e viajar pela cidade visitando o futuro recente de seus amigos ou na criação dos sonhos eróticos que Rusty tem com sua namorada vivida por uma lindíssima e sensual Diane Lane ou mesmo ainda no triste e poético epilogo, quando o nome do Motoqueiro fica marcado para sempre no imaginário de quem o conheceu. Definitivamente, essa é uma produção que pode ser mesmo dita que tem “alma”, e isso aliado a uma fotografia em preto e branco primorosa, uma trilha sonora jazzística intimista e um elenco coadjuvante de jovens e talentosos atores em sintonia vividos Nicolas Cage, Laurence Fishburne, Tom Waits e Chris Penn fazem por fim de O Selvagem da Motocicleta a lenda que merece ser.
O Filho de Sam ou Assassino da 44 foi um serial-killer que atormentou o Brooklin e o Bronx entre os anos de 1976 e 1977, matava basicamente...
O Filho de Sam ou Assassino da 44 foi um serial-killer que atormentou o Brooklin e o Bronx entre os anos de 1976 e 1977, matava basicamente mulheres e parecia fazer parte de alguma seita satânica. Bom, inicialmente o que pode ser esperar de O Verão de Sam é uma obra que foque no perfil psicológico do assassino ou uma investigação que leve a prisão do mesmo. Isso poderia acontecer se fosse um outro diretor, até mesmo um talentoso como David Fincher, mas quem realiza esse sensacional filme é Spike Lee. Então o que vemos é uma obra que transcende o gênero de suspense sobre assassinos seriais. No meio de toda loucura e tensão instaurada com um maníaco a solta na vizinhança, Lee faz um retrato contundente do verão de 77, um dos mais quentes da historia de NY, passando pelo auge da discoteca, o consumo exacerbado de drogas, sexo liberal, a chegada com força do movimento Punk nos EUA, o inicio da decadência da máfia italiana e no final de tudo ainda dialoga com propriedade sobre preconceito (um dos seus temas preferidos). Resultado: uma obra que se destaca em sua carreira, diria até que figuraria fácil entre as melhores.
O Verão de Sam é um filme que empolga, definitivamente, e talvez esse sentimento possa mascarar algum defeito do filme, mas é realmente louvável como a historia vai se formando. O filme tem diversas referências, algumas explícitas, remetendo a filmes como Os Bons Companheiros, Scarface, Taxi Driver e Embalos de Sábado a Noite e outras que não sei se são coincidência, mas que um expectador mais atento pode perceber, como o inicio do filme que tem um impressionante clima de giallo, com a violência surgindo estilizada, além de boa parte dos atores serem de ascendência italiana e não vemos o rosto do assassino, apenas suas mãos, além da preferência por matar mulheres. Porém logo esse clima de suspense e o foco no assassino são deixados de lado para explorar as nuances dramáticas dos principais personagens, como Vinny (John Leguizamo sensacional), um cabeleireiro mulherengo casado com uma bela garçonete (Mira Sorvino sexy demais), que não consegue ter sexo bom e prazeroso com a mulher, pois acha que tratar a esposa com uma promiscua pode ser pecado ou Richie (Adrien Brody), um jovem que recentemente virou adepto do movimento punk e sofre preconceito por boa parte da vizinhança, culminando na desconfiança de que ele próprio seja o Filho de Sam. Ainda temos um grupo de mafiosos italianos, encabeçados pelo personagem de Ben Gazzara, que na ineficiência da policia para resolver o caso decidem fazer sua própria investigação.
No meio desse clima de tensão crescente instaurado, Lee vai destilando sua teia de diálogos ácidos e mordazes, com a câmera muitas vezes colada aos atores, para assim captar corpos suados e extenuados pelo calor, ansiedade e paranóia. Ora mostrando o relacionamento de Vinny e sua esposa, aonde nos leva a uma cena extremamente fetichista e sensual em que a esposa participa de uma orgia regada a drogas somente para satisfazer o marido libidinoso ora mostrando como o punk Richie se vira para viver, seja fazendo stripteases e sexo com os clientes em uma boate gay ou participando de filmes pornôs com sua namorada ou ainda mesmo mostrando com competência as conseqüências do famoso blecaute de 77, que rendeu um bocado de vandalismo na cidade de NY, em uma inteligente inserção em formato de documentário apresentado pelo próprio diretor. Em certo momento, o retrato daquela época, acompanhado de uma trilha sonora de flashbacks maravilhosa e apoiado em uma direção de arte fabulosa, que remontam aquele final de década de 70 de forma bem realística se mostra tão interessante que chegamos até quase a esquecer que aquele deveria ser um filme sobre um assassino. Com o diretor não se furtando a deixar o que seria o tema principal de lado para criar um grande filme, ele por fim acaba elevando O Verão de Sam a um patamar mais alto e confirmando assim essa como uma de suas obras mais autorais. Vejam!
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