Um filme precisa de uma trama sensacional ou uma história fascinante para ser considerado uma grande realização? O nosso saudoso Glauber ...

362 - O Cavalo de Turim (A Torinói Ló/Béla Tarr/2011)


Um filme precisa de uma trama sensacional ou uma história fascinante para ser considerado uma grande realização? O nosso saudoso Glauber Rocha já dizia que o cinema é áudio e visual, não precisa de história ou a mesma seria mero detalhe na concepção desse polêmico diretor. Bom, também sou adepto daqueles que acreditam que o cinema pode ser grande e interessante apenas usando de imagens e sons, como nessa maravilhosa produção européia que é O Cavalo de Turim. Um filme que emociona pelo detalhismo de suas cenas e tem o mérito de fazer isso em uma representação que é pouco emocional pelo ponto de vista humano e ainda parecendo que apenas aquele sofrido animal realmente tem sentimentos feridos.

No começo do filme temos uma explanação em off sobre um cavalo que o filósofo alemão Friederich Nietzsche salvou de um linchamento em 1889, tendo ainda adquirido o animal para si, o levando para Turim. Logo depois o mesmo narrador nós conta sobre a loucura que se apossou de Nietzche e que por ter que ser cuidado pelas irmãs, o filósofo teve que se desfazer do cavalo. Então daí parte o ponto de vista da parca trama: O que teria acontecido ao cavalo de Nietzche? Ao final dessa indagadora explanação inicial, o espectador é levado a um longo plano seqüência sensacional de um senhor conhecido como Olsdorfer (János Derzsi), que parece ser agora o detentor do animal, conduzindo o cavalo por terrenos inóspitos, envolvidos por uma espessa névoa e um vento cortante. Alías, o que é a sonoplastia desse filme? Diria que rara, fazendo o próprio vento surgir com um dos principais personagens do filme.

O cinema do diretor húngaro Béla Tarr se assemelha em alguns aspectos com o do alemão Michael Haneke, com longos enquadramentos estáticos, dando tempo ao espectador explorar cada canto da cena, como se fosse um quadro. Na verdade, todo O Cavalo de Turim parece uma pintura em movimento, daquelas sufocantes, com momentos detalhadamente captados pela câmera de Tarr, que sem pressa constrói o cotidiano monótono daquele pai e filha (Erika Bók) vivendo em um lugar pouco povoado, isolados ainda e com uma relação quase inexistente de afeição mútua, o que ainda rende pouquíssimos diálogos e mesmo quando um senhor surge na casa para lhes pedir bebida, causando uma única cena de verborragia exacerbada, o diretor parece colocar apenas para afirmar a sua intenção de mostrar que muitas vezes as palavras não querem dizer nada ou usar muito bem aquele clichê de que uma imagem vale por mil delas.

Ainda tocado pela forma como Tarr comete seu filme, que cresce na consciência quando relembrado, e mesmo sendo uma realização longa (150 minutos) e que ainda parece não acontecer nada ou muito pouco, em nenhum momento O Cavalo de Turim se mostra chato ou maçante, pelo contrário. Repleto de momentos lindamente melancólicos em que esse brilhante diretor constrói usando apenas o vento e nos brindando ainda com outros planos seqüências impressionantes, como quando a dupla fica sem água em casa e precisa sair para arrumar alguma, é inevitável ao final do longa afirmarmos que estamos diante de uma obra-prima. 



10 comentários:

Elson disse...

A sua descrição desse filme me fez lembrar de uma passagem que o cavalo tem um outro destino muito mais terrível, onde o animal é morto a pancadas por um mujique ensandecido no clássico "Crime e castigo", é uma cena onde o personagem Raskolnikov, relembra sua infância na vila onde morava, tudo também é descrito de forma bem minuciosa, que é quase como se estivéssemos lá.
Quanto ao filme, mais um pra colocar na lista de torrents.
abs

Rodrigo Mendes disse...

Anotado. Fiquei curioso demais! Sem palavras.

Abs. Celo!

Victor Ramos (Jerome) disse...

Tarr é um dos maiores fdp que tive o prazer de conhecer. As Harmonias de Werckmeinster é uma obra hipnotizante que figura, com todo prazer, no meu top 10.

A imagem que está no cabeçalho do Terra do Cult pertence ao filme As Harmonias (...). Recomendo.

Abs!

E os filmes do Bela Tarr vão se acumulando e eu criando ainda coragem para começar a vê-los... Fica pra 2012.

J. BRUNO disse...

Estou lendo "Crime e Castigo" e também lembrei da cena citada acima, que se trata de um sonho de Raskolnikov, o personagem central da obra e curiosamente a história do cavalo de Nietzsche foi citada também no livro "A Insustentável Leveza do Ser", que terminei ontem...

Acho que a sua é a primeira resenha que leio do filme, deu uma baita vontade de assisti-lo...

http://www.sublimeirrealidade.blogspot.com/2011/12/historias-cruzadas.html

Marcos Rosa disse...

Ontem vi o trailer do novo filme de Spielberg, retrata um cavalo em uma determinada guerra, não recordo bem. Deve até ser legalzinho, mas este do comentário parece ser mais profundo.

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Faço um ano de blog hoje, e fiz um breve comentário, inclusive destacando nossos parceiros, como vc.
Valeu e feliz 2012!

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http://algunsfilmes.blogspot.com/

Celo Silva disse...

Elson, não assisti esse q vc citou, mas fiquei bastante interessado;

Rodrigo, veja esse, vale a pena demais;

Victor, primeiro Tarr q vi, mas fiquei muito afim de conferir sua filmografia, estarão nos proximos a ser vistos.

Celo Silva disse...

Ailton, tb conhecia pouco, mas gostei demais desse, acho q merece uma atenção sua, hein?;

Bruno, vale a pena ver mesmo;

Marcos, esse do Spielberg tá bem cotado, ansioso para ver, esse aqui tb vale muito ser visto. Feliz 2012, vou acessar teu blog e conferir.

Abs a Tds!

Júlio Pereira disse...

Descobri o filme quando poucos o conheciam, quando vi o trailer enigmático e fiquei instigado, desde então estou ansiosíssimo para assistir. Wilson Antonio me comunicou que era o melhor filme do Festival do Rio... E ultimamente vem ganhando notoriedade por parte da crítica e do público cinéfilo da internet. Ainda assim, espero pra ver no cinema, me parece ser um deleite visual!

Celo Silva disse...

Júlio, ver no cinema vai ser complicado, acho pouco provavel q seja exibido no circuito, mas deve ser uma maravilha poder conferir esse na tela grande, uma obra-prima!