A primeira impressão sobre Irmãos de Sangue é que esse seria o filme de gangster de Spike Lee , até por ser produzido por um dos papas n...

337 - Irmãos de Sangue (Clockers/Spike Lee/1995)


A primeira impressão sobre Irmãos de Sangue é que esse seria o filme de gangster de Spike Lee, até por ser produzido por um dos papas no assunto, Martin Scorcese, mas tirando a impressão inicial que a sinopse passa, fica logo evidente que estamos diante de uma obra com toques autorais desse competente e talentoso diretor. È inevitável também não perceber o dedo de Scorcese em algumas seqüências, mas passa muito longe dizer que essa seria uma realização de produtor. Porque ninguém mais apropriado do que Lee para destilar sobre a vida contemporânea no Brooklyn e como funcionava o tráfico de drogas praticado pelos “gangstas” na década de 90. Sujeitos que muitas vezes tinham talento para  arte, estudos ou música, como o rapper Tupac, assassinado em 1996, que é citado em muitos momentos do filme, além de pontuar boa parte da trama com suas canções.

Spike Lee se apropria do texto do livro Clockers do ítalo-americano Richard Price, um sujeito morador do Bronx, que na experiência de expectador de muito do que acontecia nas redondezas parece ter concebido uma das obras com mais propriedade sobre o assunto. Na trama, vemos como o crack invandiu aquela sociedade formada basicamente por negros e mexicanos e como a distribuição da droga era feita. Tudo em um tom bem realístico, sem elucidar beleza das cenas, com uma crueldade que parece querer fazer ao expectador sentir toda a dureza do que é apresentado, como quando vemos usuários de drogas se degradando pelos becos ou em umas das cenas mais terríveis quando o traficante vivido por Delroy Lindo (diria em que sua melhor atuação) explica a um de seus “vapores” que aquilo é o melhor negocio do mundo, que a pessoa pode perder a família, o emprego, a casa, mas nunca deixa de comprar seu crack.

A trama logo nos apresenta o policial Rocco (Harvey Keitel sensacional) tentando desvendar o assassinato de um pequeno traficante. O bom cidadão Victor (Isaiah Washington) prontamente se apresenta como o culpado, mas o detetive desconfiado de que Victor está apenas querendo proteger o irmão conhecido como Strike (Mekhi Pifher), um dos traficantes mais conhecidos da área, resolve ir a fundo na investigação, contrariando a todos, principalmente o seu parceiro Larry (John Turturro), que acha que todos os “núbios” nasceram para ser criminosos e se matarem (olha o assunto preconceito aí). No meio dessa linha principal, as subtramas se formam, como a que mostra o envolvimento de Strike com o chefão Rodney (Delroy Lindo) ou a triste história de um assassino viciado aidético vivido visceralmente por Tom Byrd ou ainda uma das mais contundentes passagens que amostra a amizade entre Strike e um garoto, aonde vemos como uma mente jovem e desprotegida pode ser corrompida pelas coisas materiais que uma vida criminosa pode trazer, contrastando com o pensamento de que uma vida honesta naquele lugar jamais poderá ter.


3 comentários:

Kamila disse...

Infelizmente, fico em dívida com a filmografia mais antiga do Spike Lee. Comecei a acompanhá-lo mais a partir de "O Verão de Sam".

renatocinema disse...

Como a amiga acima, sou meio termo quanto a Spike Lee. Mas, ao ler seu texto e ver pitadas de Scorsese.....a ideia muda totalmente sobre o filme, que preciso e vou assistir.

Celo Silva disse...

Kamila, O VERÃO DE SAM é sensacional, mas a filmografia anterior de Spike Lee é muito boa, se tiver tempo de uma procurada;

Renato, assista sim, grande filme!

Abs!