Um descrente no trabalho do cineasta Jose Mojica Marins talvez não entenda o culto em cima de À Meia-Noite Levarei sua Alma , mas analisan...

279 - À Meia-Noite Levarei sua Alma (José Mojica Marins/1964)


Um descrente no trabalho do cineasta Jose Mojica Marins talvez não entenda o culto em cima de À Meia-Noite Levarei sua Alma, mas analisando a obra desse lendário diretor fica explicito e compreensível a reverencia em cima dessa produção datada em 1964. Seria nosso Zé do Caixão o precursor dos assassinos em series? Concebendo um estilo, mesmo que seminal, para o cinema taxado como de Horror? Claro que o próprio gênero existe desde sempre, mas o nosso glorioso Mojica apresenta uma faceta dele com viés hardcore, meio pré-gore, misturadas a crendices populares pertinentes ao nosso povo, dando um caráter bem especifico ao que seria um filme de terror brasileiro.

Claro que para apreciar Á Meia-Noite Levarei sua Alma em sua plenitude deve se entrar na viagem proposta pelo diretor, até porque o filme não carrega grandes atuações (excetuando a do próprio diretor) e em muitos momentos o que vemos são monólogos que evocam o sobrenatural e religião, que são desafiadas por Zé constantemente. Alias, nosso querido Zé do Caixão não acredita no além nessa sua primeira aparição cinematográfica. O que Zé quer é a continuação do seu sangue, um filho, mas sua esposa Lenita, infértil, não consegue brindar o coveiro com seu desejo. Zé não vai desistir, mesmo que para isso ele tenha que matar a esposa, seu melhor amigo e assim ter caminho livre para tentar a concepção de seu rebento com a noiva do mesmo pobre rapaz.

O visual do filme também impressiona, com certo toque expressionista em alguns momentos e outros que se utiliza de uma linguagem cartunesca, fazendo algumas cenas soarem experimentais e únicas. É notável como Mojica concebe um clima de suspense, mesclado a estranhamento se utilizando de poucos recursos. Um dos outros pontos interessantes de À Meia Noite Levarei sua Alma é o flerte do diretor com a sensualidade, mesmo que bem mais contida aqui, mas iniciando um estilo que desenvolveria em realizações seguintes, misturando o gore a mulheres sensuais e reverentes ao Mestre do Mal. O jogo psicológico que Zé do Caixão desenvolve com os moradores supersticiosos da pequena cidade ajuda a aproximar o expectador do medo que o próprio filme faz alusão.

As impressionantes seqüências concebidas para o epílogo do filme fazem À Meia Noite Levarei sua Alma ficar impresso na retina de quem o assistir. Difícil esquecer mesmo, pode soar underground e tosco nos dias de hoje, até pelo preconceito nacional que existe em cima desse polêmico e talentoso diretor, mas o público americano, bobo que não é, e acostumado a apreciar obras diferenciadas, reverencia o nosso Zé do Caixão (ou Coffin Joe para eles) como o mesmo merece: um verdadeiro Mestre!


4 comentários:

Rodrigo Mendes disse...

Acho este primeiro filme do personagem Zé Excelente. É inegável o trabalho de Mojica como autodidata. Um cineasta infelizmente subestimado pelo público brasileiro.

Também estarei postando uma crítica desta obra macabra.

Abraços Celo!

* Acho os monólogos um charme. Um experimento criativo que não se vê por aí...

Obra-prima do grande Mojica. Estou com Ritual dos Sádicos aqui, e verei talvez hoje... tenho que ver.

Abração!

É a grande obra-prima de Mojica e uma das obras-primas do cinema brasileiro de todos os tempos. Mojica nos anos 60 estava muito inspirado. Todos os seus filmes dessa década, a partir deste, são no mínimo ótimos!

Celo Silva disse...

Rodrigo, tb acho os monologos os momentos bons do filme, Mojica é mais do que subestimado por aqui. Na espera do teu texto;

Victor, obra-prima mesmo, esse tb quero conferir!;

Ailton, tenho q conferir seus trabalhos dos anos 60, vontade não falta. É um filme marcante na filmografia nacional de tds os tempos mesmo;

Abs a Tds!