Um trauma ou uma situação mal resolvida na juventude pode influenciar uma vida inteira? Às vezes tornando a pessoa amarga ou incompleta? E m...

217 - Morangos Silvestres (Smultronstället/Wild Strawberries/Ingmar Bergman/1957)

Um trauma ou uma situação mal resolvida na juventude pode influenciar uma vida inteira? Às vezes tornando a pessoa amarga ou incompleta? E mesmo depois de 40 ou 50 anos, esse fato pode trazer melancolia e tristeza? Não é estranho que nos sejamos tão complexos, com detalhes que nos mesmos não sabemos explicar. Profissionais sempre querendo estudar a mente humana e descobrir o que nos motiva, mesmo que muitas vezes se chegue a mais perguntas do que respostas. Na minha intuição, Morangos Silvestres dialoga muito sobre isso, revisitando o passado do Dr. Isak Borg (Victor Sjöström), visto pelos seus próprios olhos e mostrando como um amor não correspondido e negação transformaram sua vida e somente na velhice ele teve consciência disso.

Obra-prima do lendário diretor sueco Ingmar Bergman, Morangos Silvestres é um filme poético ao extremo, ora leve ora mais denso, mas sem perder o foco na busca de identidade do próprio protagonista. Dr. Isak Borg esta para receber um premio pela carreira e resolve fazer a viagem até o local aonde recebera a comenda de carro, um percurso até longo. Inicialmente ele sai acompanhado da belíssima nora, mas no decorrer da viagem, ganham à presença de três jovens que viajam sem destino, mas de uma maneira ou de outra querem chegar à Itália. A entrada da trinca de jovens tem um tom reverencial ao velho medico, como se a juventude viesse homenagear a velhice. Uma visão até utópica nos dias de hoje, já que normalmente os jovens tendem a desrespeitar ou ignorar os idosos.

Morangos Silvestres é uma obra repleta de cenas maravilhosas, acho que praticamente todas são belas (até as mais soturnas) e tem funcionalidade no filme, destaco uma das primeiras, quando Isak visita o local onde passava as férias e relembra do quase romance que teve com uma prima, que acabou se casando com um dos seus irmãos. Tocante e comovente ver Isak revendo as cenas de sua própria vida, muitas vezes me pego vivendo no passado também, mas acho que essa é uma das nuances pertinente a  nossa alma, mesmo os que dizem que não vivem no passado, o fazem para tentar se proteger de si mesmo. Outro momento lindo é perto do epílogo quando Isak cita que quando esta triste ou amargurado se põe a lembrar da infância, realmente, não há nada mais belo que a infância, quando somos protegidos por nossos pais e não existem preocupações. Os momentos mais tensos e sombrios são representados pelos sonhos que Isak tem, reafirmando a potencia que a mente tem em infringir medo a nos mesmos.

Diferente do que imaginava, Morangos Silvestres é um filme envolvente do começo ao fim, seus poucos mais de 90 minutos passam voando. O ator Victor Sjöström cria um personagem extramente carismático e difícil de não se identificar. Assisti pouco da filmografia de Ingmar Bergman, somente O Sétimo Selo, que achei uma obra interessante, mas arrastada e que se notabiliza pelo duelo do Cavaleiro cruzado com a Morte. Depois desse, a vontade de adentrar nas obras desse diretor se tornou grande, principalmente também pela visível influencia de Bergman no cinema do meu querido Woody Allen. Persona, Gritos e Sussuros, Fanny & Alexander...pelo que li, bons motivos é que não faltam.

7 comentários:

Victor R disse...

Assistir qualquer filme de Ingmar Bergman é uma experiência que deve ser julgada obrigatória para qualquer cinéfilo que se preze, assim como assisitir algum filme de Glauber Rocha.

De todo modo, do cara eu só assisti um mesmo (que é A Hora do Lobo, e é uma obra-prima que está com todo carinho no meu TOP 10), e mesmo assim o cara já é um dos meus diretores favoritos. Pqp! Gênio!

Abs do PUDIM DE CINEMA!

disse...

Adoro Morangos Silvestres, é meu favorito de Bergman. Também gostei muito das ilustrações na lateral do blog!
Abraços, Lê

Celo Silva disse...

Victor, Bergman é um mestre do cinema! Suas obras são incrivelmente marcantes. Todas as que apreciei foram otimas;

Lê, gosto muito de Morangos Silvestres, mas depois q assisti Persona,Morangos foi para segundo lugar.

Abs a tds!

beto disse...

Meu preferido é Gritos e Sussuros. O filme mais denso/tenso, que assisti na vida. Não perca, Celo. Já que teve a feliz idéia de adentrar na obra deste genial cineasta.

Celo Silva disse...

Beto, esse é o proximo na agulha, estou muito afim de ver, principalmente agora com vc destacando como um dos melhores de Bergman. Abração!

Que ótimo sua releitura dos clássicos de Bergman, um autor muito cultuado por nós cinéfilos, mas, bem verdade, ver seus filmes não é fácil...e não é para todos os momentos. Eu gosto muito de Morangos Silvestres, tanto que me recordo mais da trama dele que do Persona - que já li e comentei acima, rs -, por sinal vou rever esse essa semana!

Adorei sua análise aqui, gosto quando você comenta em primeira pessoa sobre suas impressões de tal filme.

Abraço

Celo Silva disse...

Cris, vlw pelo elogio mesmo, alguns filmes me inspiram e fico com vontade de escrever o q sinto. REveja esse tb! Abs Amigão!