Uma historia simples, poderia ser tornar um filme louvável? A resposta é sim, se essa obra for dirigida e roteirizada por David Lynch , poi...

209 - Veludo Azul (Blue Velvet/David Lynch/1986)


Uma historia simples, poderia ser tornar um filme louvável? A resposta é sim, se essa obra for dirigida e roteirizada por David Lynch, pois é, o engenhoso cineasta transforma a comum trama de Veludo Azul em um dos filmes mais marcantes de sua filmografia. Essa realização de 1986, época em que Lynch ainda desenvolvia seu estilo que o consagrou, principalmente na serie televisiva Twin Peaks, que carrega muito de Veludo Azul, talvez seja a obra mais linear do diretor, mas mesmo assim não deixa de ser intrigante e pungente.

O inicio pode até enganar, com belas cenas de um subúrbio americano, mas quando Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachalan), um jovem que retorna a casa onde morou para cuidar do debilitado pai, encontra uma orelha em um dos seus passeios, percebemos que algo diferente paira o ar. Então, começamos a ser imersos no universo único que as obras de David Lynch podem oferecer. O diretor transforma o lugar seguro da classe media americana em um pesadelo crescente, caracterizado por um clima de estranhamento que Lynch consegue imbuir sem grandes apelos visuais. Um sujeito dentro de um armário, uma perturbada mulher nua, um outro sujeito viciado em oxigênio que profere palavras sem sentido, adicionados a uma canção melancólica é o suficiente para se criar uma cena antológica. Lynch faz suspense sem se preocupar em fazer, com cenas que fariam o mestre Alfred Hitchcock bater palmas.

Veludo Azul, mesmo sendo uma das obras mais narrativas do diretor, não deixa de guardar o seu lado sensorial, como uma cena em que vemos Jeffrey com a boca borrada de batom, de um beijo que levou de Frank (o excelente Dennis Hopper), seu algoz que depois o desce a porrada, pessoas riem da desgraça do rapaz, enquanto uma mulher um tanto esquisita dança encima do carro e um sujeito com cara de boneco de cera observa tudo. A arquitetura de um sonho ruim que Jeffrey sente na pele e nós expectadores também. O personagem de Isabella Rosellini, então esposa do diretor, explicita também o tom noir que a obra carrega, uma cantora que é explorada sexualmente por Frank, mas que em certo momento parece apreciar as perversões praticadas contra sua pessoa e que aparentemente tem sua família refém do sociopata e que vê no nem tanto ingênuo Jeffrey a sua salvação. Nessa ciranda ardil, ainda temos Sandy (Laura Dern), uma bela jovem, sinônimo das rainhas de bailes de formatura estudantis, que se interessa e ajuda o misterioso rapaz.

Toda a trama de Veludo Azul também pode ser um subterfúgio usado por Lynch para mascarar o verdadeiro sentido da obra e certamente rende diversos comentários sobre, como o romance que soa cafona ou o sexo que se torna violento ou ainda a perversão com ares de comedia e mais ainda com os simbolismos comuns as suas realizações e que tem no pássaro pintarroxo e seu inseto no bico um dos mais insidiosos. Talvez a verdadeira intenção do diretor seja levantar diversos questionamentos sobre o comportamento do ser humano, mas nesse seu dialogo ele cria e nos brinda com uma verdadeira obra prima do cinema.


10 comentários:

Preciso, urgente, absorver esse filme de novo! lembro tão pouco que, lendo seu ótimo texto aqui, eu confesso ter me esquecido até da participação de Laura Dern - ótima atriz, sempre!

Bem lembrado, amigo, vou baixar aqui ele! Já que não tenho o dvd.

um abraço!

Natalia disse...

Vc tem razao qdo diz que mto de veludo azul foi para o Twin Peaks.

Eu tenho uma relação de amor e odio com Lynch, rs. Mas Veludo Azul é ate entao, o meu filme preferido dele.

Quando ele mostra aquele cenario bonito, com as flores no jardim e logo depois, abaixo do gramado verdinho, mostra os insetos sujos, é como se ele já tivesse nos mostrando toda a simbologia que o filme passa.

E a cena que vc destaca de Jeffrey apanhando, enquanto uma doida dança Roy Orbison em cima do carro, é sensacional!!! Amo essa cena. é o cumulo do sarcasmo, algo que vamos mto em twin peaks mesmo...

Bjo!!

Celo Silva disse...

Cris, reveja logo! Essa é uma obra prima q necessita sempre de revisões;

Natalia, Veludo Azul tb é um dos meus preferidos de Lynch, mas gosto de td sua filmografia, so ainda não assisti Eraserhead, qq dia desses vejo. A cena do espacamento é demais mesmo! Tb curto muito as cenas passadas dentro do apartamento do personagem de rosellini, aquela ultima cena em q Jeffrey enfrenta Frank no ape, com o policial paralisado, talvez devido aos ferimentos é antologica tb.

Grande Abraço e grato pelo seus excelente comentario!

Elson disse...

a cena final é inesquecível, quando o ator olha um inseto na janela e diz algo como; "o mundo é muito estranho", na verdade esse é o tema principal do cinema do Lynch, "O estranhamento"

Celo Silva disse...

Elson, isso mesmo! Foi o simbolismo q citei do passaro com o inseto na boca e os insetos por bx da grama q a Natalia citou. Com certeza, o cinema de Lynch faz do bizarro e o estranhamento um dos seus principais temas, e os desenvolve com muita qualidade!

Baixando e verei logo, preciso revisá-lo!

Bela crítica Celo. Para mim, Veludo azul é o melhor filme de David Lynch.
Abs

beto disse...

Filmaço, Celo! daqueles que vale a pena ter e ver a cada tempo. Parabéns pelo comentário. Legal´é que daí fui rever o que eu mesmo tinha escrito, muito semelhante. Valeu!

Celo Silva disse...

Reinaldo e Beto, obrigado pelos elogios, Veludo Azul é um filme diferenciado mesmo. Beto, depois vou la dar uma lida no seu texto sobre, com certeza é coisa boa.

Rodrigo Mendes disse...

Não tinha lido seu texto aqui!
Boa, excelente!
Veludo Azul é um dos meus favoritos de Lynch - empate com Coração Selvagem!

Abs.
Rodrigo