Se hoje Viridiana parece polêmico, imagina em 1961, o seu ano de lançamento. A obra do diretor Luis Buñuel soa como afronta a Igreja Catól...

223 - Viridiana (Luis Buñuel/1961)

Se hoje Viridiana parece polêmico, imagina em 1961, o seu ano de lançamento. A obra do diretor Luis Buñuel soa como afronta a Igreja Católica e todos seus preceitos, mas acho que mais do que isso, Buñuel quis fazer um comparativo de como antigas doutrinas poderiam funcionar em um mundo moderno, mas as obras desse diretor podem e devem ter varias conotações. Viridiana (Silvia Pinal) é uma aspirante a freira e antes de ser ordenada faz uma visita a um antigo, abastado, porem decadente Tio Jaime (Fernando Rey). Em alguns dias, Tio Jaime acaba morrendo e deixando as posses para Viridiana e Jorge (Francisco Rabal), seu filho bastardo. Jorge, que representa a modernidade, quer tratar a terra e fazer o local prosperar; enquanto Viridiana usa um dos locais para abrigar pobres, doentes e degenerados de todos os tipos, quer dizer, a moça quer praticar caridade na sua mais pura essência.

Viridiana cuida dos enfermos com amor, lhe ensina ofícios, exalta suas qualidades, mas no primeiro momento de descuido, os mesmo sairão da linha, aprontando baderna, bebedeiras, praticando violência, fazendo sexo e até tentando infringir estupro contra sua protetora. Talvez isso exalte a intenção de criticar o catolicismo, até porque Viridiana é a representação da Igreja Católica nos seus fundamentos. Buñuel dota sua realização de frieza, um filme praticamente de sentimentos contidos, principalmente pela noviça. Jorge, talvez, seja o único capaz de sentir, mesmo que seja apenas prazer carnal com uma das empregadas, mas até nisso a Igreja é contestada como insípida ou desanimada, já que aparentemente o rapaz é ateu e talvez funcione também como a representação do próprio diretor na historia. Os pobres também não sentem, eles representam o caos, talvez da nossa alma.   


O certo é que Viridiana foge de praticamente todas as alcunhas que podem ser ditas a um filme. É feito para chocar, mas não de uma forma ostensiva, talvez a intenção fosse fazer pensar ou repensar. Uma das suas cenas mais marcantes, aonde os degenerados remontam uma Santa Ceia pandega, que de religiosa não tem nada, faz o expectador, mesmo que não goste do trabalho de Buñuel, perceber que esse não é um diretor qualquer. Exímio no trato narrativo e na criação de anticlímax, dotado de atitude, fazendo suas convicções serem expostas sem subterfúgios. Um tapa na cara da sociedade. Não é para menos que o diretor tenha cumprido um exílio no México (que o acolheu como gênio), imposto por seu próprio país, que o acusava de subversivo e denegridor da imagem da conservadora Espanha. 

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Somente o elenco de Amor a Toda Prova valeria uma ida ao cinema, mas a obra, assinada pela dupla de diretores Glenn Ficarra e John Requa ,...

222 - Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love/Glenn Ficarra, John Requa/2011)

Somente o elenco de Amor a Toda Prova valeria uma ida ao cinema, mas a obra, assinada pela dupla de diretores Glenn Ficarra e John Requa, que já haviam realizado o interessante e divertido Golpista do Ano de 2009, consegue fugir da sina de filme de esquetes, que normalmente acaba acontecendo quando se envolvem tantos atores interessantes e se mostra uma das melhores comedias realizadas em 2011.

A trama começa mostrando a separação do casal formado por Cal (Steve Carell) e Emily (Julianne Moore). Cal sai de casa e passa boa parte do seu dia em um bar enchendo a cara e lamentando que sua ex-esposa o corneou, ninguém dá muito atenção para ele. Um dia, Jacob (Ryan Gosling), um sujeito boa vida e conquistador inveterado, não agüentando mais a falação de Cal, resolver ajudar o pobre homem. Ajudar como? Bom, Jacob toma o desafio de recolocar Cal no “mercado”, quer dizer, faze-lo de novo atrativo para as mulheres.

A trama não se prende somente a isso, há um desenrolar de subtramas divertidas envolvendo o filho de Cal, que se apaixona pela babá, Emily que se envolve com um colega de trabalho (Kevin Bacon) e uma outra historia, envolvendo uma aspirante a advogada (Emma Stone), que no epílogo do filme é explicado o motivo em uma seqüência bem engraçada. O filme ainda tem ótimas piadas, reverenciando filmes como Karate Kid, Dirty Dancing ou zombando de produções atuais como a Saga Crepúsculo. A dupla de diretores mistura tudo em uma salada romântica deliciosa, mostrando como o amor pode ser estúpido e louco, como o próprio titulo original sugere.

Amor a Toda Prova é um filme leve, bem intencionado, feito para divertir mesmo. Pena que pelo genérico titulo nacional tem a chance de passar despercebido por muita gente ou só pegar aos que procuram uma comedia romântica das mais melosas, que definitivamente esse não é, uma produção que trata adulto como adulto, adolescente como adolescente e criança como criança. Todos envolvidos nos percalços (mesmo que engraçados) que o amor pode infringir a nós.

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No mundo universitário concebido por Roger Avary , o estudante mais popular é traficante, a princesinha é vadia, a safada é virgem, o gay só...

221 - Regras da Atração (The Rules of Attraction/Roger Avary/2002)

No mundo universitário concebido por Roger Avary, o estudante mais popular é traficante, a princesinha é vadia, a safada é virgem, o gay só quer se apaixonar, o professor obriga as estudantes a lhe fazer sexo oral e freqüenta festas do tipo “Vestido para Transar”, um outro estudante injeta heroína enquanto assiste ao clássico do expressionismo alemão O Gabinete do Dr. Caligari, mas não é o único a usar drogas. No universo criado por Avary todos usam drogas. Tão psicotropico quantos os efeitos da droga, é o efeito que Regras da Atração pode ter no expectador, que assim como cocaína ou heroína pode causar certo desconforto, mas torna–se viciante.

Roger Avary é um antigo colaborador de Quentim Tarantino, tendo participado da criação de Pulp Fiction, filme que colocou os holofotes sobre Tarantino. Antes disso, ele havia dirigido e escrito o cultuado Parceiros do Crime, historia sobre um assalto mal sucedido, e nesse já havia mostrado talento para conduzir historias underground, que se confirmou em Pulp Fiction, dizem que muito do roteiro veio da mente pervertida desse sujeito. Em Regras da Atração, Avary cria uma historia undeground em um lugar comum à juventude, mostrada como preocupada apenas em se drogar ou fazer sexo. O filme é exagerado, mas com certeza funciona como um tapa na cara dessas instituições centenárias americanas, banalizando seus rituais e mostrando jovens tão despreparados em viver a vida, que se prostram com drogas, álcool e tentam dar algum sentido a suas vidas em festas diárias ou com romances improváveis.

O pano de fundo da trama cria uma ciranda amorosa que envolve diversos jovens, tendo inicio com as cartas de amor que são colocadas na caixa de correio de Sean (James Van Der Beek). Sean é o galã local, mas vive de mentiras e vendendo drogas no campus que são financiadas por um traficante violento. Sean acha que sua admiradora secreta é Lauren (Shannyn Sossamon), uma virgem descolada, com toda pinta de vadia, que olha livros de DST para não sentir tesão. Lauren parece atraída por Sean, mas faz sexo oral no professor (Eric Stoltz) para manter a nota na media. Ainda temos o gay boa pinta Paul (Ian Somerhalder que protagoniza uma hilariante cena ao som de “Faith” de George Michael) que também se apaixona por Sean e a princesinha gostosa e consumidora exagerada de cocaína Lara (Jéssica Biel), amiga de Lauren, mas que na primeira oportunidade fará sexo com o traficante. O cenário se arma para intrigas, encontros casuais regados a drogas e um inacreditável suicídio, em uma seqüência tensa e até bela ao som da canção “Without You”.

Regras da Atração pode ser um filme que não agrade todos os gostos, mas com certeza é uma obra diferenciada e até certo ponto estilizada, com cenas concatenadas em filmagens que parecem ser rebobinadas como nas antigas fitas VHS ou outras que abrem dois planos que de repente formam um só. O diretor também apresenta a descontrução do galã James Van Der Beek, que ficou marcado com a Serie Dawson´s Creek, Van Der Beek aparece em muitas cenas drogado, sujo ou surrado e ainda protagoniza uma seqüência em que aparece sentado em um vaso sanitário, fazendo suas necessidades. Roger Avary, dirigiu muito pouco (apenas quatro filmes), mas quando o fez, mostrou apuro narrativo, senso critico, e capacidade de chocar sem exagerar, qualidade notáveis para um cineasta.

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Quando ventilaram que a historia de Planeta dos Macacos seria revisitada, pensei na hora: mais um desperdício de dinheiro. Como sou um freqü...

220 - Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of The Planet of The Wapes/Rupert Wyatt/2011)

Quando ventilaram que a historia de Planeta dos Macacos seria revisitada, pensei na hora: mais um desperdício de dinheiro. Como sou um freqüentador assíduo de cinema, por muitas vezes, assisti o bem feito trailer de Planeta dos Macacos: A Origem, que muito me aguçou a curiosidade, principalmente com cenas que remetem à produção original de 1968. Bom, visto, sai feliz da sala escura com uma trama que respeita a historia original, focada em dramas, construção psicológica do personagem principal, o impressionante chimpanzé digital César (de novo o rosto de Andy Serkis é usado como base) e em escolhas, certas ou erradas, até levadas por sentimentos nobres, que levaram aos humanos serem praticamente extintos do planeta nas historias subseqüentes, que são linkadas de maneira crível nessa produção.

A obra do desconhecido diretor inglês Rupert Wyatt se mostra bem arquitetada desde seu inicio, quando o cientista Will Rodman (James Franco) parece ter descoberto uma cura para o Alzheimer, um composto, testado amplamente em chimpanzés, que parece aumentar a cognitividade dos mesmos. Quando o laboratório prepara uma apresentação para investidores, um dos animais cobaias, apresenta mudanças de comportamento, tornando-se violenta e atacando diversas pessoas, fazendo o projeto ir para a gaveta. Os animais são sacrificados, mas Will acaba levando para a casa escondido o filhote César, que desde o inicio apresenta inteligência anormal e aparentemente superior a dos humanos.

Muito do interesse da historia se firma na figura de César, que de animal dócil e cativante, passa a articulado, cheio de artimanhas e até violento. O filme também soa como uma certa critica a como tratamos os animais de experiências, seres que sofrem muito para trazer benefícios a humanidade, uma das questões é: será que vale a pena infringir-los tantas agruras? A produção não deixa de ter seu lado blockbuster, com algumas boas cenas de ação, principalmente a passada em uma ponte, perto do epílogo. Como ficou, Planeta dos Macacos: A Origem pode até emocionar, com um boneco digital realístico poucas vezes visto no cinema, que consegue transmitir emoções reais, que às vezes muitos atores não conseguem.

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A adaptação Lanterna Verde , está mais para um brinquedo de parque de diversões do que para uma obra cinematográfica. O uso do 3D fica evide...

219 - Lanterna Verde (Green Lantern/Martin Campbell/2011)

A adaptação Lanterna Verde, está mais para um brinquedo de parque de diversões do que para uma obra cinematográfica. O uso do 3D fica evidente como um subterfúgio do estúdio para tentar mascarar toda ruindade no roteiro, estranho que o diretor dessa furada, Martin Campbell, mostrou ser no mínimo competente na adaptação de outros heróis, como em Casino Royale, que recolocou o agente 007 de novo na rota do cinema. O diretor provavelmente ficou maravilhado com a tecnologia e esqueceu de olhar o texto que tinha em mãos.

Lanterna Verde é tão aborrecido ou insosso como outras adaptações estapafúrdias como O Demolidor, Elektra, Mulher Gato, mas com certeza muitos vão dizer que o filme tem cenas maravilhosas. Realmente até tem, mas é sabido que somente belas cenas não são suficientes para se criar uma obra no mínimo interessante. A construção dos personagens é tão rala como nos antigos desenhos da Liga da Justiça, Hal Jordan (Kevin Reynolds) cita frases do tipo: “Saia que vou tirar minha calça” ou “Segure seu óculos”, momentos que chegam a dar vergonha no expectador.

Acredito eu, que para quem assistir Lanterna Verde em 2D, vai ser uma experiência mais frustrante que em 3D, já que a tecnologia promove umas imersões legais no espaço, uma outra cena interessante dentro de aviões ou outras no planeta Oa, terra natal da Tropa de Lanterna Verdes. Como já disse, caberia melhor em um parque de diversões.

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Depois da saborosa apreciação de Morangos Silvestres , me senti na obrigação de adentrar a obra do diretor sueco Ingmar Bergman e o escolhi...

218 - Persona (Ingmar Bergman/1966)

Depois da saborosa apreciação de Morangos Silvestres, me senti na obrigação de adentrar a obra do diretor sueco Ingmar Bergman e o escolhido foi um dos citados como um dos melhores da extensa filmografia desse mestre, Persona. Elizabeth Vogler (Liv Ullmann) é uma atriz famosa que entrou em um processo de depressão em que se recusa a falar, ou melhor, se recusa a qualquer tipo de comunicação com o mundo externo, vivendo em uma espécie de letargia agnóstica. A sua medica indica que Elizabeth vá passar uns dias na casa de praia, para relaxar e de repente voltar à vida. Para os cuidados com a atriz, a enfermeira Alma (Bibi Andersson) é escolhida. Inicialmente, Alma se vê retroativa a ajudar no tratamento, pois considera Elizabeth uma pessoa de mente forte, que possa influencia – lá negativamente. No decorrer dos dias de clausura e solidão, as duas se vêem num processo de imersão interior, tanto de uma quanto da outra e delas mesmo.

Persona consegue ser um filme irrepreensível, dotado de magnitude, ao ponto de segurar o expectador em uma realização praticamente de monólogos, muito bem escritos e representados pela belíssima e talentosa atriz Bibi Andersson. A sua enfermeira Alma é uma mulher cheia de conflitos interiores, mas que acredita em redenção e se apega a sua paciente de maneira platônica, protagonizando cenas únicas, repletas de sensações e sentimentos. Em um dos seus relatos (que são constantes), Alma nos brinda com um momento de pura sensualidade e despudor, quando conta sobre uma orgia praticada com dois jovens, uma cena em que a excitação é construída de forma subjetiva: Alma sentada de forma acolhedora em um sofá, fumando um cigarro e lembrando do sexo extremamente satisfatório, mesmo que representando uma traição para com seu noivo.

A partir desse momento excitante, as mulheres criam uma relação de amor, quase fraternal, quase homoafetivo, quase carnal, como se uma se transforma na outra ou talvez como se as duas fossem uma só, como em determinado momento a própria obra sugere, em uma cena em que os dois belos rostos se fundem em um, criando um terceiro rosto, que seria a representação dessas duas almas fundidas. Perto do epílogo, o filme ganha contornos que sugerem uma afetação psicológica, quando Alma exige que Elizabeth externe seus sentimentos para com ela, criando momentos de conflitos entre as personagens, com Alma com os nervos em frangalhos, deteriorada pela imersão na personalidade de Elizabeth, que em uma cena fica evidente ao se passar pela atriz em um encontro com o marido, não sabemos se a cena é real ou imaginaria na historia, mas sabemos que Alma nunca mais será a mesma.

Persona ainda é uma realização estilística, com um jogo de câmeras que cria momentos mágicos, situações de cumplicidade e angustia para com os personagens. O diretor Ingmar Bergman concebe uma obra intimista soberba, acho que nunca um filme com apenas dois personagens e apenas um deles externando seus sentimentos e apontamentos foi tão interessante. A obra é tão importante para a historia do cinema e influenciou tantos diretores e autores, um deles Woody Allen, que em muitos de seus filmes recorre a situações Bergmanianas, principalmente com Interiores de 1978. Persona, desde a impressionante e ininteligível seqüência inicial, definitivamente, uma obra-prima do cinema.   

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Um trauma ou uma situação mal resolvida na juventude pode influenciar uma vida inteira? Às vezes tornando a pessoa amarga ou incompleta? E m...

217 - Morangos Silvestres (Smultronstället/Wild Strawberries/Ingmar Bergman/1957)

Um trauma ou uma situação mal resolvida na juventude pode influenciar uma vida inteira? Às vezes tornando a pessoa amarga ou incompleta? E mesmo depois de 40 ou 50 anos, esse fato pode trazer melancolia e tristeza? Não é estranho que nos sejamos tão complexos, com detalhes que nos mesmos não sabemos explicar. Profissionais sempre querendo estudar a mente humana e descobrir o que nos motiva, mesmo que muitas vezes se chegue a mais perguntas do que respostas. Na minha intuição, Morangos Silvestres dialoga muito sobre isso, revisitando o passado do Dr. Isak Borg (Victor Sjöström), visto pelos seus próprios olhos e mostrando como um amor não correspondido e negação transformaram sua vida e somente na velhice ele teve consciência disso.

Obra-prima do lendário diretor sueco Ingmar Bergman, Morangos Silvestres é um filme poético ao extremo, ora leve ora mais denso, mas sem perder o foco na busca de identidade do próprio protagonista. Dr. Isak Borg esta para receber um premio pela carreira e resolve fazer a viagem até o local aonde recebera a comenda de carro, um percurso até longo. Inicialmente ele sai acompanhado da belíssima nora, mas no decorrer da viagem, ganham à presença de três jovens que viajam sem destino, mas de uma maneira ou de outra querem chegar à Itália. A entrada da trinca de jovens tem um tom reverencial ao velho medico, como se a juventude viesse homenagear a velhice. Uma visão até utópica nos dias de hoje, já que normalmente os jovens tendem a desrespeitar ou ignorar os idosos.

Morangos Silvestres é uma obra repleta de cenas maravilhosas, acho que praticamente todas são belas (até as mais soturnas) e tem funcionalidade no filme, destaco uma das primeiras, quando Isak visita o local onde passava as férias e relembra do quase romance que teve com uma prima, que acabou se casando com um dos seus irmãos. Tocante e comovente ver Isak revendo as cenas de sua própria vida, muitas vezes me pego vivendo no passado também, mas acho que essa é uma das nuances pertinente a  nossa alma, mesmo os que dizem que não vivem no passado, o fazem para tentar se proteger de si mesmo. Outro momento lindo é perto do epílogo quando Isak cita que quando esta triste ou amargurado se põe a lembrar da infância, realmente, não há nada mais belo que a infância, quando somos protegidos por nossos pais e não existem preocupações. Os momentos mais tensos e sombrios são representados pelos sonhos que Isak tem, reafirmando a potencia que a mente tem em infringir medo a nos mesmos.

Diferente do que imaginava, Morangos Silvestres é um filme envolvente do começo ao fim, seus poucos mais de 90 minutos passam voando. O ator Victor Sjöström cria um personagem extramente carismático e difícil de não se identificar. Assisti pouco da filmografia de Ingmar Bergman, somente O Sétimo Selo, que achei uma obra interessante, mas arrastada e que se notabiliza pelo duelo do Cavaleiro cruzado com a Morte. Depois desse, a vontade de adentrar nas obras desse diretor se tornou grande, principalmente também pela visível influencia de Bergman no cinema do meu querido Woody Allen. Persona, Gritos e Sussuros, Fanny & Alexander...pelo que li, bons motivos é que não faltam.

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Baseado no aclamado romance literário de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser é realmente um filme notável. O diretor Philip Kaufm...

216 - A Insustentável Leveza do Ser (The Unbearable Lightness of Being/Philip Kaufman/1988)

Baseado no aclamado romance literário de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser é realmente um filme notável. O diretor Philip Kaufman constrói sua obra, apoiada em atuações inspiradas de Daniel Day Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin. A trama narra os envolvimentos amorosos e sexuais da trinca de protagonistas e tem como pano de fundo a invasão Russa à antiga Checoslovaquia. Apesar do intuito de amostrar um dos momentos mais turbulentos da Europa Central, a realização com certeza se destaca pelo tratamento libertário dado a texto, exaltando a sensualidade e o sexo como forma libertadora e transgressora.

A Insustentável Leveza do Ser exala sensualidade, com cenas que são tesão puro, acho eu que, Lena Olin e Juliette Binoche nunca estiveram tão lindas e voluptuosas como nessa produção. Difícil não se excitar assistindo cenas como a que as duas atrizes tiram fotos nuas uma da outra, principalmente quando a desgarrada Sabina (Lena Olin) pula nas costas da tímida Tereza (Juliette Binoche) e arranca lhe a lingerie, deixando sua bela bunda a mostra, em um momento extremamente belo e contextualizado. Os melhores momentos do longa são os passados dentro de quatro paredes. O filme pode ser caracterizado em três atos, distintos entre si, mas que amostram o sexo de maneira diferente na vida dos personagens. No primeiro, a trama apresenta o medico Tomas (Daniel Day Lewis) como um conquistador inveterado, preocupado apenas em se satisfazer sexualmente e que tem em Sabina sua principal parceira; no segundo, Tomas conhece Tereza, se casam, fogem para Genebra durante a invasão Russa ao seu país, mas Tomas não deixa de ter suas aventuras sexuais fora do casamento, ainda com Sabina; no terceiro, Tereza abandona Tomas e volta para o país, ainda dominado pelos russos, nesse momento Tomas percebe que a vida não é somente sexo e volta para a Checoslovaquia atrás da esposa, mesmo que para isso ele tenha que viver como um operário, abandonando seu oficio, já que não é bem visto pelas autoridades locais, devido a textos anticomunistas escritos anteriormente a invasão Russa.

Nesse terceiro ato, é que temos as cenas mais melancólicas do longa, aonde mostram Tomas sofrendo e amadurecendo, mas que em determinado momento tem um encontro sexual com uma moça que o reconhece da sua antiga vida, a cena funciona como um alivio para o personagem, como se a luxuria passada aparecesse para lhe dar um tapa na cara, uma cena altamente fetichista, que eleva a tensão do expectador. Claro que Tereza descobre a traição do marido e resolve dar o troco, fazendo sexo casual com um desconhecido, interessante como ela resiste inicialmente, mas depois relaxa, se entrega e chega ao orgasmo. Nesse momento é quando ela entende literalmente Tomas e a sua diferenciação entre amor e sexo, que até então parecia absurda para ela, que em certo momento diz que não suporta a leveza do amado, que era insustentável essa leveza do seu ser. A Insustentável Leveza do Ser é um filme com tantas nuances, que fica ate difícil citar todas, merece varias revisões para a apreciação em sua plenitude. Os atores estão tão perfeitos, que é difícil não se apaixonar por eles. O filme pode ter alguns tropeços, excessos de clichês talvez, mas tudo passa batido perante aos sentimentos que transpõe, principalmente o prazer como forma transformadora.

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Os irmãos Whitman ( Adrien Brody , Owen Wilson e Jason Schwartzman ) são mais três  personagens memoráveis na galeria de sujeitos estranhos...

215 - Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited/Wes Anderson/2007)

Os irmãos Whitman (Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman) são mais três  personagens memoráveis na galeria de sujeitos estranhos do diretor Wes Anderson. Os irmãos perdidos com a morte do pai, resolvem embarcar em uma viagem pela Índia, dentro do trem Darjeeling Limited, que praticamente roda o país todos, atrás da despreendida mãe (Anjelica Huston), que tornou – se freira em um convento pobre e isolado.

O cenário se arma para Wes Anderson apresentar o seu repertorio de esquisitices comum as suas obras, como Excêntricos Tenebauns e A Vida Marinha de Steve Zisou, como um dos irmãos que liga a toda hora para pegar os recados na caixa postal da ex-namorada ou outro que tentou o suicídio jogando a moto em uma arvore. Interessante que, Viagem a Darjeeling é o filme que as singularidades  de Anderson funcionam sem incomodar muito o expectador, talvez o exotismo da Índia, aos olhos ocidentais, encobertem os maneirismo do diretor e ajudem a conceber o seu filme mais divertido. O obra não deixa de ser um road-movie, com o trio de irmãos protagonizando loucuras e romances inusitados no trem, visitando lugares pitorescos do país, aonde procuram a espiritualidade de que acham não serem dotados. Outro fato interessante, é que Wes Anderson sempre introduz em suas realizações algum tipo de tragédia, com cenas até melancólicas, mas que no fundo acabam soando engraçadas.

Viagem a Darjeeling é um filme que pode surpreender quem não gostou das obras anteriores do diretor, os atores principais apresentam química impressionante e timing cômico perfeito para encarnar os personagens saídos da cabeça desse inventivo realizador. Apresenta um perfil, mesmo que distorcido, do povo indiano, mas que não chega a desrespeitar. Alem do filme também ter um tom realista impressionante, colaborado pelas locações reais e boa parte das seqüências serem filmadas dentro do verdadeiro Darjeeling Limited. O epílogo, quando os irmãos encontram a mãe no convento e conversam sem se falar, através apenas dos pensamentos, é um dos momentos mais mágicos da filmografia de Wes Anderson.

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Terrence Malick é um diretor autoral que admiro, desde a sua primeira obra , Terra de Ninguém de 1973, costuma se apropriar da natureza c...

214 - A Árvore da Vida (The Tree of Life/Terrence Malick/2011)

Terrence Malick é um diretor autoral que admiro, desde a sua primeira obra, Terra de Ninguém de 1973, costuma se apropriar da natureza como fio condutor dos seus filmes, assim criando belas cenas, algumas como se fossem pinturas. O diretor, sem duvida, transforma seus projetos em produções deveras artísticas, imbuída de poesia, traçando momentos minimalistas que adquirem força impressionante, lembro muito bem das cenas tocantes de Martin Sheen e Sissy Spacek, em Terra de Ninguém, quando isolados do mundo em uma floresta, procuravam, mesmo que sem viés, o sentido e a intenção de suas vidas. Como conseqüência, Malick acaba fazendo cinema para quem gosta de cinema como arte, seus filmes não tem alívios cômicos, os personagens podem soar sisudos, nem sempre existe uma historia linear para ser acompanhada e o diretor gosta de usar a câmera, às vezes, de maneira quase documental. Então, suas realizações, assim como poesia e pintura, podem soar chatas para expectadores distraídos, como aconteceu na sala aonde assistia o filme, que com meia hora, algumas pessoas se levantaram e saíram.

Como toda arte diferenciada, A Árvore da Vida pode demorar a ser compreendido, mas vale muito se deixar levar pela viagem inicial que remonta o próprio nascimento da vida na terra, para depois adentrar a historia da família O´Brien, que tem no ator Brad Pitt o patriarca. Depois dessa exposição inicial de belos sons e imagens, a trama realmente começa, com a morte de um dos filhos do casal e invés de traçar um perfil psicológico da perda da família, a obra parte de um principio ate inquisidor contra Deus, enaltecido pela citação ao Livro de Jô logo no seu prólogo. Deus aqui é mostrado como uma força da natureza, até certo ponto como uma divindade maldosa, que deixa desgraças acontecerem e leva os personagens a questionamentos do tipo: “Se ele é mau, porque eu não posso ser?”. Claro, que a obra de Malick não tem a pretensão de julgar Deus, mas apresentar como o mesmo pode ter reflexos diferentes em cada pessoa e também como o ser humano pode ser incompleto e confuso, principalmente na perda de entes queridos ou até na criação dos próprios filhos, querendo incutir mandamentos ou doutrinas que podem marcar de maneira nociva ou traumatizar para sempre.

As atuações também são algo a parte, Malick extrai uma perfomance marcante de Brad Pitt, o seu Mr. O´Brien é talhado como um personagem digno, pai de família, mas que deseja que seus filhos não sejam íntegros em detrimento a sucesso profissional, que o mesmo não conseguiu atingir, aquilo vai demolindo O´Brien e passando sua frustração para a família, que vai do amor ao ódio em relação a ele e que acaba sendo regida pela esposa (a excelente Jéssica Chastain), uma mulher doce, que não entende muito da vida, mas que é uma mãe dedicada e afetuosa. Em certo ponto, os dois se antagonizam, não de uma maneira violenta, mas como se amassem e aquilo não estava sendo suficiente para salvar a família. Em um dos momentos fundamentais, o narrador cita que para ser ter a paz é preciso amor, afirmação deveras verdadeira. Muito do que é sentido em relação A Árvore da Vida vem dessa premissa, o amor como curador de todos os males, de todas as dores, mesmo que os envolvidos tenham que se conflitar ou ate contestar o seu Deus. Sean Penn faz uma participação pequena, mas importante, como o filho de O´Brien no futuro, que através dos seus olhos e lembranças a historia vai se formando.

Na minha opinião, posso até ser criticado, A Árvore da Vida é a melhor realização de Terrence Malick, a que mais me tocou, pelo drama familiar verdadeiro, com seqüências que imergem visualmente o expectador, levanta vários questionamento em relação ao comportamento humano e como Deus pode ser visto, além  de atestar a nossa insignificância perante o universo. Uma obra que me agradou bastante, mas tenho consciência que não é para todos os gostos, de repente nem para o gosto do seu próprio diretor, que perdeu anos montando o filme e em determinada seqüência é citado, mesmo que de maneira sutil, que mesmo com tanto trabalho, sempre pode ficar melhor. Um tanto perfeccionista esse Terrence Malick.

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Quando se conhece alguém com quem rola certa empatia ou admiração, acaba sendo inevitável que não idealizemos aquela pessoa, ate por ser um...

213 - Amores Imaginários (Les Amours Imaginaires/Xavier Dolan/2010)

Quando se conhece alguém com quem rola certa empatia ou admiração, acaba sendo inevitável que não idealizemos aquela pessoa, ate por ser uma novidade o convívio com ela e não a conhecermos verdadeiramente. É uma característica do ser humano criar motivações ou imaginar situações ideais nunca vividas ou que não serão mesmo. Eu mesmo vivo me pegando a personagens do passado que tiveram rumos diferentes na minha historia e fico pensando como seria se certa situação fosse diferente. É um exercício que costumo praticar com certo prazer, principalmente quando quero fugir de preocupações ou me alienar do meu verdadeiro mundo.

É isso que torna Amores Imaginários extremamente interessante, o joguete que o jovem e promissor diretor autoral, Xavier Dolan, faz com essa premissa de idealização que fazemos de pessoas que nos interessam, principalmente na parte romântica ou libidinosa. Quem nunca se pegou pensando como seria o beijo de determinada pessoa? Se te levaria as nuvens, ou se aquela pessoa te completaria do jeito que deseja, mesmo que a outra não te responda da maneira necessária. Podemos ate nos transformar no que interessa o nosso desejado, para assim chamar sua atenção, como faz Marie (Monia Chokri) em certo momento quando descobre que o seu amado é fã da atriz Audrey Hepburn.  Nessa ciranda afetuosa, temos Marie e o gay Francis (o próprio Xavier Dolan), dois amigos de longa data e que furtivamente acabam se apaixonando pelo mesmo rapaz, Nicolas (Niels Schneider), um despreocupado bom vivant. Nicolas retribui a amizade, mas em nenhum momento revela interesse romântico ou desejo por qualquer um dos dois. Instantaneamente, vemos um triangulo amoroso mal formado ser instaurado e também uma disputa entre Marie e Francis, mesmo que sutil, mas que em certo momento vai às vias de fato.

Amores Imaginários é um filme que tem um tom bem realístico, mesmo que em alguns momentos soe poético ou utópico, ora, mas a vida também é feita de poesia e sonhos. O diretor Xavier Dolan explicita essa predileção em trazer os personagens para o mundo real, com inserções de depoimentos, que não tem nada a ver com a historia, de pessoas que tiveram frustrações amorosas por idealizarem demais, com destaque para uma menina nariguda de óculos, viciada em romances virtuais, que vive se dando mal. Uma obra também visualmente exultante, com cenas belas, uso exímio da câmera para cativar o olhar do expectador e ainda, diálogos perfeitamente atuais e atuações que não estereotipam seus personagens. Um filme com um frescor jovem delicioso, sem preocupação em ser politicamente correto, mas também sem polemizar. Em que outra obra recente você veria um dos protagonistas dizer que o cigarro lhe faz viver? Pois é, Xavier Dolan concebe isso com a maior naturalidade.

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Um lançamento do diretor e autor Lars Von Trier é um excelente motivo para uma ida ao cinema, mexe com os cinéfilos e as realizações do d...

212 - Melancolia (Melancholia/Lars Von Trier/2011)



Um lançamento do diretor e autor Lars Von Trier é um excelente motivo para uma ida ao cinema, mexe com os cinéfilos e as realizações do diretor sempre são obras para serem sentidas, que valem muito o clima da sala escura, que de maneira notada influi para uma melhor apreciação de Melancolia, longa imbuído de polêmica mesmo antes de seu lançamento, por conta de declarações infelizes de seu criador, mesmo que não necessariamente sobre a obra.

Logo após o epílogo apoteótico ao som de uma bela e condolente canção instrumental, o áudio é cortado bruscamente, os créditos sobem em silêncio total e o mais impressionante que a sala relativamente cheia, todas as pessoas saíram taciturnas, como em respeito a obra que tinham presenciado. Confesso que sai um tanto angustiado, não com a possibilidade do fim do mundo, mas com o sofrimento que o ser humano é passível de sentir, sofrimento que pode virar tristeza e consequentemente depressão, às vezes nos transformando de maneira aterradora, como acontece com a noiva Justine (Kirsten Dunst, em excelente atuação) no dia de seu casamento, abatimento e desordem atingem a moça de uma maneira brutal, levando a atos extremos, como se premeditasse o que viria a acontecer.

O próprio cineasta citou em certa entrevista, que Melancolia é um belo filme sobre o fim do mundo, a expressão é mais do que correta, até porque com tantas cenas dolorosas, Lars Von Trier consegue dar ao filme sempre um olhar terno, seja com a irmã de Justine, Claire (a talentosa Charlotte Gainsbourg) que cuida da irmã nos momentos de depressão e guarda um medo cruciante de que o planeta Melancholia, em rota de colisão com a Terra, acabe com suas vidas e principalmente a de seu pequeno filho ou com as pequenas, importantes e marcantes participações de John Hurt e Charlotte Rampling, cada um a seu jeito transmitem sentimentos conflitantes e protagonizam situações constrangedoras que influenciam o esmorecimento de Justine.

Melancolia também pode ser visto como uma opera trágica, ate pela pulsante trilha sonora instrumental, com belas seqüências que remetem a pinturas, como uma em que Kirsten Dunst aparece nua em pelo, deitada na beira de um rio, com a lua refletindo seu belo corpo, como se redimindo, aproveitasse seus últimos momentos de existência. O fio condutor da parte mais cientifica da historia vem de Kiefer Sutherland, que defende o marido de Claire, estudioso, um homem centrado e preocupado com a família, mas que em certo momento também perde seu equilíbrio. Outro fato interessante é ver Lars Von Trier usando de efeitos visuais para conceber seus belos e tocantes momentos, como quando o planeta Melancholia se aproxima do nosso. Com certeza, Melancolia é o filme mais poético desse controvertido, habilidoso e inventivo cineasta, mesmo que para isso ele nos leve a uma jornada de sofrimento e tristeza.

  ontrovertido e raneta Mecasse seus ultimos za. use da trristpelo deitada na beira de um rio, como a lua refletindo seu belo co


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O ambiente um orfanato, local ideal para um suspense. Protagonistas: Christina Delassalle ( Véra Clouzot ), a abastada dona do recinto,   e...

211 - As Diabólicas (Les Diaboliques/Henri-Georges Clouzot/1955)

O ambiente um orfanato, local ideal para um suspense. Protagonistas: Christina Delassalle (Véra Clouzot), a abastada dona do recinto,  e Nicole Horner (Simone Signoret), uma professora ex – amante do marido de Christina. Vitima ou não: Michell Delassalle (Paul Meurisse), diretor do local e marido de Christina, sujeito violento e grosseiro, tanto com uma, quanto com outra, que se mantém casado com Christina apenas pela sua fortuna e não a concede o divorcio por nada. Um motivo para um assassinato acaba aparecendo e logo acontece, planejado minuciosamente pelas duas mulheres, mais do que insatisfeitas com a conduta do marido e amante.

As Diabólicas, produção francesa dirigida por Henri-Georges Clouzot, é um suspense competente, mesmo que tênue, mas que deixa o expectador intrigado com a conseqüência do assassinato de Michell Delassalle, que acontece nos primeiros 30 minutos, até porque após o crime, Delassalle é jogado dentro da piscina do orfanato, como para acobertar a morte com um acidente, mas dias depois a piscina é esvaziada e nenhum corpo é encontrado, começando assim uma procura pelo corpo do diretor, que inicialmente é feita pela dupla de assassinas, mas logo ganha a presença do experiente detetive Alfred Fichet (Charles Vanel).

O que torna a obra de Clouzot um filme mais do que interessante, é a presença de um elemento sobrenatural, que em determinado momento entra na trama com as constantes aparições do diretor para as crianças do orfanato, sem contar a seqüência em que é tirada uma macabra Foto do Ano do orfanato, em que Delasalle aparece de relance em um dos vidros da instituição. Nesse momento, o filme se carrega de nuances psicológicas, transformando Christina em uma mulher descontrolada e com a saúde debilitada, que se auto pune a todo momento pela morte do marido, e seu estado piora gradativamente com as investidas de Nicole, para que não revele as autoridades o verdadeiro motivo do sumiço do diretor.

A linha narrativa do filme também acaba levando a lugar nenhum, não como um defeito da obra, mas da maneira que possa confundir a cabeça do expectador. A atuação de Véra Clouzot, como a esposa abastada de bom coração que acaba sendo influenciada pelas traições do marido é perfeita, o seu constante conflito de emoções é um dos pontos altos da produção. Simone Signoret também aparece bem como a incitadora do fato, mesmo que seja curioso a esposa se tornar comparsa da amante, o que levanta a duvida de interesses homoafetivos de ambas as partes, mesmo que um tanto veladas. As Diabólicas é uma obra referencial para um bom suspense psicológico, com um epílogo que deve ter sido bem assustador para a época e que ainda ganhou remake americano em 1996 chamado Diabolique com Sharon Stone, no auge da sensualidade fazendo o papel de Nicole Horner, e a bela Isabella Adjani no papel de Christina, que tem até seu interesse, mas não atinge a notabilidade desse.

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Difícil escrever um texto sobre Super 8 que não libere spoilers, até porque a proposta da obra escrita e dirigida por J.J. Abrams , de Clo...

210 - Super 8 (J.J. Abrams/2011)

Difícil escrever um texto sobre Super 8 que não libere spoilers, até porque a proposta da obra escrita e dirigida por J.J. Abrams, de Cloverfield e da cultuada serie Lost, e produzida por Steven Spielberg é de segurar o suspense enquanto pode. Como é um filme recém lançado tentarei que saia um texto com o mínimo de revelações que possam estragar o prazer de quem se propuser a uma valida ida ao cinema.

Super 8 é uma deliciosa e despretensiosa aventura juvenil que homenageia um bocado de filmes da década 80, uns dirigidos por Spielberg, outros não, tanto que a trama é ambientada no inicio dos anos 80, mas também não deixa de fazer referencia aos filmes de zumbi criados por George Romero, tanto que o grupo de amigos protagonista da obra prepara um filme amador, filmado em câmera Super 8 para um festival. A trupe parece saída de filmes como Os Goonies ou Conta Comigo, liderados pelo aspirante a diretor, o gordinho Charles (Riley Griffiths), que tem uma família desgovernada digna de River Phoenix em  Viagem ao Mundo dos Sonhos e seu assistente de produção Joe (Joel Courtney), um sensível garoto que perdeu a mãe recentemente e que não faria feio como o personagem de E.T, ainda temos Cary (Ryan Lee), um personagem com o mesmo carisma dos criados por Corey Feldman e com fixação por explosivos e a menina da turma, Alice (a bela e talentosa Elle Fanning).

O diretor J.J. Abrams segura o suspense e o segredo da historia ao maximo, que tem inevitável tom fantástico, é claro, e como se era feito em muitas produções oitentista, as vezes por falta de recursos, mas que costumava funcionar. Em paralelo ao fio principal da trama, temos um drama familiar, tão comum aos filmes dirigidos por Spielberg, protagonizado por Joe e o seu pai (Kyle Chandler, da serie de TV Friday Night Lights) que é o exemplo de retidão moral, mas que não consegue entender o filho, sendo assim mais uma referencia ao cinema de Spielberg. Temos também a experiência do primeiro amor e a reconciliação de pessoas que se separaram após uma tragédia. A inserção da subtrama da realização do filme em Super 8, acaba criando outras referencias ao cinema de terror, como maquiagem, maquetes cenográficas e aproveitamento de cenas reais para engrandecer a obra.

Super 8 não chega a ser um primor de narrativa, nem emocionar como deveria, algumas cenas produzidas sob medida para o intento, não funcionam e quando parte  do mistério se revela, o filme perde um pouco da força, tendo até algumas soluções mal engendradas. Por outro lado, tem uma deliciosa áurea saudosista, com momentos divertidos, atores mirins carismáticos e boas seqüências de ação, como a do descarrilamento de um trem aonde se da inicio a trama. Vale uma ida ao cinema, mesmo que para lembrar como eram feitos os filmes nos cada vez mais distantes anos 80.

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Uma historia simples, poderia ser tornar um filme louvável? A resposta é sim, se essa obra for dirigida e roteirizada por David Lynch , poi...

209 - Veludo Azul (Blue Velvet/David Lynch/1986)


Uma historia simples, poderia ser tornar um filme louvável? A resposta é sim, se essa obra for dirigida e roteirizada por David Lynch, pois é, o engenhoso cineasta transforma a comum trama de Veludo Azul em um dos filmes mais marcantes de sua filmografia. Essa realização de 1986, época em que Lynch ainda desenvolvia seu estilo que o consagrou, principalmente na serie televisiva Twin Peaks, que carrega muito de Veludo Azul, talvez seja a obra mais linear do diretor, mas mesmo assim não deixa de ser intrigante e pungente.

O inicio pode até enganar, com belas cenas de um subúrbio americano, mas quando Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachalan), um jovem que retorna a casa onde morou para cuidar do debilitado pai, encontra uma orelha em um dos seus passeios, percebemos que algo diferente paira o ar. Então, começamos a ser imersos no universo único que as obras de David Lynch podem oferecer. O diretor transforma o lugar seguro da classe media americana em um pesadelo crescente, caracterizado por um clima de estranhamento que Lynch consegue imbuir sem grandes apelos visuais. Um sujeito dentro de um armário, uma perturbada mulher nua, um outro sujeito viciado em oxigênio que profere palavras sem sentido, adicionados a uma canção melancólica é o suficiente para se criar uma cena antológica. Lynch faz suspense sem se preocupar em fazer, com cenas que fariam o mestre Alfred Hitchcock bater palmas.

Veludo Azul, mesmo sendo uma das obras mais narrativas do diretor, não deixa de guardar o seu lado sensorial, como uma cena em que vemos Jeffrey com a boca borrada de batom, de um beijo que levou de Frank (o excelente Dennis Hopper), seu algoz que depois o desce a porrada, pessoas riem da desgraça do rapaz, enquanto uma mulher um tanto esquisita dança encima do carro e um sujeito com cara de boneco de cera observa tudo. A arquitetura de um sonho ruim que Jeffrey sente na pele e nós expectadores também. O personagem de Isabella Rosellini, então esposa do diretor, explicita também o tom noir que a obra carrega, uma cantora que é explorada sexualmente por Frank, mas que em certo momento parece apreciar as perversões praticadas contra sua pessoa e que aparentemente tem sua família refém do sociopata e que vê no nem tanto ingênuo Jeffrey a sua salvação. Nessa ciranda ardil, ainda temos Sandy (Laura Dern), uma bela jovem, sinônimo das rainhas de bailes de formatura estudantis, que se interessa e ajuda o misterioso rapaz.

Toda a trama de Veludo Azul também pode ser um subterfúgio usado por Lynch para mascarar o verdadeiro sentido da obra e certamente rende diversos comentários sobre, como o romance que soa cafona ou o sexo que se torna violento ou ainda a perversão com ares de comedia e mais ainda com os simbolismos comuns as suas realizações e que tem no pássaro pintarroxo e seu inseto no bico um dos mais insidiosos. Talvez a verdadeira intenção do diretor seja levantar diversos questionamentos sobre o comportamento do ser humano, mas nesse seu dialogo ele cria e nos brinda com uma verdadeira obra prima do cinema.


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O sugestivo titulo nacional O Seqüestro de um Herói , com certeza, faz alusão a determinado momento da trajetória de Stanilas Graff ( Yvan A...

208 - O Sequestro de um Herói (The Rapt/Lucas Belvaux/2009)

O sugestivo titulo nacional O Seqüestro de um Herói, com certeza, faz alusão a determinado momento da trajetória de Stanilas Graff (Yvan Attal), presidente de uma influente indústria francesa, que almoça com o presidente da nação, negocia com lideres mundiais, joga pôquer com artistas famosos, é casado e tem duas filhas, mas antes de ir para casa sempre visita a amante. Um dia, antes de ir para o trabalho, Stanilas é seqüestrado por uma quadrilha que exige que seja pago 50 milhões de Euros de resgate. O seqüestro desencadeia uma investigação jornalística que joga todo o mau comportamento de Stanilas no ventilador, desde incontáveis dividas no jogo, até as inúmeras amantes que o empresário possui. Aparentemente falido, Stanilas se vê na mão dos impiedosos e profissionais seqüestradores, que não acreditam que ele não detenha a quantia e estão dispostos a tudo para receber o pagamento, até mesmo cortar partes do corpo do industrial. Enquanto isso, André Peyrac (André Marcon), líder do conselho fiscal, parece manipular a família e o conselho para que Stanilas seja destituído do poder.

Inegavelmente, O Seqüestro de um Herói, dirigido e roteirizado pelo também ator Lucas Belvaux, tem toda pinta de trilher no seu prólogo, até pela enervante seqüência em que os seqüestradores cortam um dos dedos de Stanilas, mas o filme vai perdendo o seu ritmo de suspense durante a exibição, tornando – se um drama que trata do impacto que o seqüestro tem na vida do industrial e dos que o rodeiam. Na verdade, a obra de Belvaux se divide em dois atos, o primeiro bem suspense, marcado por uma excelente trilha sonora, com cenas escuras e de tom violento; no segundo ato, a trama trata mais do desenrolar dos fatos relativos ao seqüestro, em um bem desenvolvido drama familiar, com certas nuances politicas que não vou citar para não estragar o prazer de quem se predispor a assistir. O ator Yvan Attal entrega uma boa atuação, marcada pelo sofrimento que seu personagem sofre no cárcere.

O Seqüestro de um Herói está mais para cinema comercial do que para cinema artístico, que tanto caracterizou as produções francesas; não que seja ruim, até porque o filme apresenta com certa qualidade ao que se propõe e tem um epílogo bem interessante. O estranho foi essa produção de 2009 pintar em uma sessão cult no Cinemark, e o mais estranho ainda, a sessão estar relativamente cheia e com vários adolescentes perturbando a paz. Prova de que ingressos mais baratos, como os que são utilizados nessa “sessão cult”, podem ser catalisadores de publico para obras menos prestigiadas.

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Claro que quando aparece uma obra dotada de qualidades sempre aparecem pessoas incensando o trabalho mais do que deveria, é o caso de muit...

207 - O Profeta (Un Prophète/Jacques Audiard/2009



Claro que quando aparece uma obra dotada de qualidades sempre aparecem pessoas incensando o trabalho mais do que deveria, é o caso de muitos críticos que elevaram essa realização ao nível de filmes como O Poderoso Chefão. Não que O Profeta seja ruim, na verdade é muito bom, mas depois de tantos comentários esfuziantes a época do lançamento da película, culminando em uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, fui cheio de expectativas de uma obra prima, que não se concretizou e ate que foi bom ter dado um tempo para a obra se assentar.

Visto, é evidente que Tahar Rahim é o nome que faz O Profeta, do diretor frances Jacques Audiard ser um filme notável. O ator francês, descendente de argelinos, constrói de maneira visceral o personagem Malik El Djebena, árabe, mas inacreditavelmente desligado da religião, que é condenado a seis anos de prisão em um presídio comandado por italianos ou corsos como são chamados no filme. Atrás das grades e sem amigos, Malik começa a ser assediado por sodomitas, uma solução para não cair nos constantes estupros aparece, na verdade acaba sendo imposta: cometer um assassinato dentro do presídio para os mafiosos corsos e assim ganhar proteção. Essa seqüência acaba sendo uma das mais impressionantes da obra, tensa e crua, além do fantasma da vitima, um conhecido criminoso árabe, tornar – se a consciência de Malik durante todo o filme. Nesse momento, entra a outra figura marcante de O Profeta, o mafioso César Luciani (Niels Arestrup), violento e extremista, que não poupa esforços para alcançar seus objetivos. Luciani, inicialmente, trata Malik apenas como um empregado, mas logo o árabe começa a ter importante papel nas transações do criminoso.

Um dos acertos de O Profeta é a edição acelerada, que traz o expectador praticamente para dentro do filme. A realização também trata bem do submundo, mostrando as conexões que criminosos podem ter dentro e fora do presídio, o trafico de drogas e subsequentes desfechos familiares. Não é um filme repleto de seqüências de ação, mas possui algumas marcantes e de tirar o fôlego, como um impressionante tiroteio dentro de um carro. A obra também tenta dar ao personagem um toque mágico, como se Malik fosse um vidente, por isso o titulo O Profeta, mas acho que essa premissa é pouco desenvolvida na trama, mas que não chega a desmerecer o filme.

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Hesher ( Joseph Gordon Lewitt ) parece um sujeito que esqueceu de crescer, cabeludo, barbudo, com tatuagens de mau gosto, fã de rock pesado...

206 - Hesher (Spencer Susser/2010)


Hesher (Joseph Gordon Lewitt) parece um sujeito que esqueceu de crescer, cabeludo, barbudo, com tatuagens de mau gosto, fã de rock pesado, beberrão, maconheiro, itinerante em sua van caindo aos pedaços, sempre com uma metáfora mal criada na ponta da língua, além de extremamente grosseiro. Um dia, Hesher é colocado em situação incomoda pelo garoto T.J (Devin Brochu), um menino deslocado, que perdeu a mãe recentemente, sofre perseguição dos colegas na escola e mora com o pai (Rainn Wilson) viciado em antidepressivos e a avó (Piper Laurie), um tanto esclerosada. A maneira que Hesher arruma para se vingar do menino é indo morar em sua casa (isso mesmo), do nada ele aparece por lá e se instala na residência daquela família um tanto disfuncional, que parece não se preocupar com a presença daquele sujeito estranho, que acaba colocando T.J sempre em situações difíceis.

A realização do diretor estreante Spencer Susser apresenta situações pouco criveis, mas cresce com os sentimentos representados, não de forma utópica, muitos deles bem perto da realidade, de forma conflitante, o que trás os personagens para muito perto do expectador, podendo comover, mesmo com algumas situações constrangedoras. O diretor também consegue dar uma bem vinda áurea pop a produção, usando muito bem a trilha sonora heavy metal que marca os momentos mais dramáticos e engraçados, talvez até pela experiência com direção de videoclipes. O epílogo é algo marcante, na minha opinião, um dos mais emocionantes do ano.

Se por um lado, Hesher é um filme com alguns problemas de ritmo e imperfeições, por outro lado é uma obra que consegue ser arrebatadora, devido a grande atuação do elenco. Joseph Gordon Lewitt esta bem demais, comprovando seu talento e versatilidade no papel titulo, mas com certeza o filme é do garoto Devin Brochu, que também demonstra muito talento para o oficio. O filme ainda se dispõe de coadjuvantes de luxo como Natalie Portman e John Carroll Lynch, além de mostrar uma boa faceta dramática do comediante Rainn Wilson. Uma prova de que o cinema americano, quando foge de formulas, mesmo sem ser notável, consegue ficar acima da media.

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Dick ( Scott Wilson ) é um americano médio típico do interior, gosta de caçar com seu rifle, de tomar seu uísque e de mulheres. Perry ( Rob...

205 - A Sangue Frio (In Cold Blood/Richard Brooks/1967)


Dick (Scott Wilson) é um americano médio típico do interior, gosta de caçar com seu rifle, de tomar seu uísque e de mulheres. Perry (Robert Blake) é metade índio e metade homem branco, com tendências homossexuais, ex – combatente da Guerra da Coréia, toca guitarra e acredita que os antigos mapas de seu pai guardam os lugares de tesouros escondidos. O que eles têm em comum? Passaram uma temporada juntos na cadeia. E será que em parceria eles poderiam formar uma terceira personalidade impiedosa e cruel, capaz de cometer atrocidades? Bom, essa foi à conclusão para o assassinato de uma familia inteira acontecido em Holcomb, uma cidade rural nos EUA de 270 habitantes, em 1959, que rendeu o romance literário concebido pelo talentoso escritor americano Truman Capote.

A Sangue Frio, dirigido e roteirizado por Richard Brooks, de filmes notáveis como Gata em Teto de Zinco, é a adaptação cinematográfica para a obra de Capote. Uma produção contundente, que narra o planejamento improvavel, a execução um tanto atrapalhada do crime, a lenta investigação, a facil captura dos criminosos e a temporada em que passaram no corredor da morte. Mesmo que de maneira não linear, a narrativa acaba sendo um acerto para a fluência do filme, que envolve de maneira impressionante. Os protagonistas da historia são os assassinos Dick e Perry, que aparentemente tiveram um relacionamento na temporada que passaram atrás das grades, mas que em nenhum momento é confirmando, a não ser pelos momentos em que Dick chama Perry por “benzinho” ou “doçura”. Durante o tempo que esteve preso, Dick ouviu uma historia de um preso que acreditava que a família Clutter possuía um cofre em casa com 10 mil dólares, o que acabou sendo a mola propulsora para o massacre.

O que torna A Sangue Frio uma obra diferenciada é o tratamento dado ao texto de Capote. Nas mãos de um outro cineasta o filme renderia um trilher dos mais óbvios, com um personagem central investigador e os criminosos retratados de maneira distanciada, mas Richard Brooks, acostumado a dramas, traça o perfil dos assassinos, com direito a momentos delicados, como uma seqüência em que a dupla ajuda um garoto e seu debilitado avô ou flashbacks que remontam o passado do perturbado Perry, assombrado pelo pai e que em momento crucial o rapaz afirma que o odeia, mas também o ama. Claro, que a obra também possui seus momentos violentos, como a tensa e cruel seqüência em que os assassinatos são mostrados e se dispõe da meia hora final para narrar os derradeiros momentos da dupla no corredor da morte, criando as cenas mais emocionantes e tristes do filme e ainda não deixando de fazer sua critica ao sistema judicial americano. Simplesmente um filmaço, que com certeza influenciaria um bocado de outros que viriam, obrigatório para qualquer cinéfilo que se preze.

P.S.: Agradecimentos ao bom amigo Cristiano Contreiras, do excelente blog Apimentário, que me abriu os olhos para essa pérola. Quando se pensa que assistiu a maioria dos filmes importantes, sempre aparece um bocado a ser assistido. Que maravilha!

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Uma das nuances de se assistir tantos filme em um ano, é que muitas vezes não se esta com cabeça para filmes mais complexos e acabasse vend...

204 - Um Jantar para Idiotas (Dinner for Schmucks/Jay Roach/2010)

Uma das nuances de se assistir tantos filme em um ano, é que muitas vezes não se esta com cabeça para filmes mais complexos e acabasse vendo qualquer coisa ou produções que possa ignorar. Como esse Um Jantar para Idiotas, dirigido por Jay Roach, mais conhecido pelos filmes do agente Austin Powers. O interessante também, é que essas obras tapa buraco que são assistidas sem expectativa nenhuma podem surpreender. Mesmo que não chegando a um status de notável, Um Jantar para Idiotas consegue ser divertido e engraçado, se apoiando na boa química e timing cômico da dupla de protagonistas formada por Steve Carrell e Paul Rudd.

Na trama, Tim (Paul Rudd), é um executivo ascendendo na empresa aonde trabalha e que consegue impressionar seu chefe ganhando um cliente rico. Animado, o mesmo chefe, convida Tim para um jantar que promove todos os meses em sua casa. O intuito do encontro é que pessoas ligadas ao patrão levem outras pessoas risíveis ou idiotas como o próprio titulo sugere e ao final da noite uma delas é agraciada com o troféu de mais idiota. Nesse momento, é quando entra Barry (Steve Carrell) na historia, fiscal do imposto de renda, abandonado pela esposa, atrapalhado, mas sujeito de bom coração, que vive para o hobby de criar maquetes temáticas com ratos empalhados. Bom, nem preciso dizer que Barry é a vitima perfeita para Tim levar ao festival de aberrações do tresloucado jantar.
  
Um Jantar para Idiotas não deixa de ter piadas infames, tão comuns nas comedias americanas mais recentes, mas também não deixa de investir nos chamados “bromances”, historias de amizade entre homens que vem sendo cada vez mais exploradas no cinema ianque como em Superbad, Eu te amo, Cara, Segurando as Pontas, entre outros menos famosos. O filme também apresenta coadjuvantes conhecidos, como o sempre chato Zack Galifianakis e o sumido Ron Livingston. Um filme que talvez valha uma conferida, ainda mais como forma de escapismo

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Não é a toa que Douglas Sirk , cineasta alemão radicado nos EUA, é considerado por muitos o Rei do Melodrama, tratando costumeiramente de ...

203 - Tudo que o Céu Permite (All That Heaven Allows/Douglas Sirk/1955)



Não é a toa que Douglas Sirk, cineasta alemão radicado nos EUA, é considerado por muitos o Rei do Melodrama, tratando costumeiramente de romances difíceis e transgressores em sua filmografia. Em Tudo que o Céu Permite, o diretor comprova muito bem seu talento, conduzindo belissimamente a historia de amor entre Cary (Jane Wyman), viúva aristocrata, e Ron (Rock Hudson), um jovem jardineiro.

A atração de Cary e Ron é evidente logo no inicio do filme, quando ela o convida para um café. Ron, arborista, brinda Cary com belas palavras, dizendo que certo tipo de arvore cresce apenas em locais aonde existe muito amor. O romance aflora, meio que clandestinamente, e tudo se mantém belo e feliz, até o dia em que Ron faz o pedido para que Cary se case com ele e vá morar no moinho que esta reformando. Bom, percebe – se que as coisas não vão dar muito certo, nê? Cary vai precisar enfrentar os filhos, a sociedade em que vive e até seus próprios preceitos para viver novamente, já que sua vida, depois da morte do marido, tornou – se um tanto monótona, mas será que o relacionamento dela com Ron não foi apenas um escapismo da vida tediosa que levava? Essa é uma das perguntas que são levantadas também.

Tudo que o Céu Permite esmiúça com certa elegância a situação em que vive Cary, tendo que manter as aparências, mesmo após a morte do marido, assediada por senhores e abandonada pelos filhos, que apenas se preocupam com o que os outros vão dizer. Tendo ainda que reprimir seus sentimentos, considerados um tanto impróprios para alguém de sua idade. Com tanta intensidade pela vida, não seria estranho que Cary se apaixonasse ou flertasse com o galanteador Ron, um jovem cheio de vida. Estranho seria se fosse diferente, mas vale lembrar que o filme foi realizado nos conservadores anos 50, e tem sua parcela de ousadia a tratar de um tema que com certeza ofende boa parte do American Way of Life. Como uma senhora de família poderia namorar ou casar com um sujeito mais jovem ou de classe inferior?

Muito da qualidade da obra vem das atuações de Rock Hudson e Jane Wyman, que apresentam notável química, com belos diálogos e cenas mágicas conduzidas pelo diretor Douglas Sirk, alias a composição de muitas seqüências é dotada de extrema delicadeza, com uma trilha sonora suave que enche de sentimentos a tela e cenários dignos de contos de fadas, com direito a um cervo, animal belo e frágil, que provavelmente representa o amor deles. A seqüência final, com certeza, deve ter sido uma das propulsoras para a criação da expressão: romance sirkiano. Tudo que o Céu Permite é um filme nobre, que deve ser visto e revisto, mesmo sendo uma obra datada, não deixa de ser atual e mantém a sua vitalidade.

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O filipino Brillante Mendoza é um cineasta que ficou conhecido por obras polemicas como Serbis e Kinatay , filmes que tratavam de homossex...

202 - Lola (Brillante Mendoza/2009)


O filipino Brillante Mendoza é um cineasta que ficou conhecido por obras polemicas como Serbis e Kinatay, filmes que tratavam de homossexualidade e violência de maneiras ousadas, não assisti nenhum dos dois e o seu mais recente Lola é minha primeira incursão na filmografia desse diretor, que cada vez mais vem se tornando cult entre os cinéfilos.

Porém, pelo que andei lendo, em Lola, Mendoza se despe um pouco do estilo visceral que chamou a atenção anteriormente para apostar em um tom mais documental para contar a historia de duas senhoras, na verdade duas vovós ou Lolas como na língua local. O neto de uma delas é acusado de assaltar e assassinar o neto da outra, e as duas, desprovidas de informações ou entendimento, se vêem envolvidas no desfecho dessa situação que acaba indo ser resolvida na justiça.

A obra de Mendonza é de uma lentidão impressionante, como se o diretor quisesse captar a miséria do seu povo sem pressa; miséria e pobreza que são mostradas de maneira crua e cruel, em nenhum momento dando esperança aos personagens. A câmera acompanha as Lolas, contemplando suas tristezas e desencantamentos, o filme possui poucos diálogos, alguns bem desconexos, o que também pode desinteressar, muito da historia é contada de maneira visual, com a chuva incessante, os guetos alagados, vielas imundas, casas totalmente insalubres, ruas lotadas e violentas, com assaltos acontecendo a todo momento. As atuações também se confundem muito com a vida real daquele povo, o que também torna difícil a avaliação.

Apesar de ser uma realização que não cria muitas emoções, apenas expõe, até por focar os personagens com certo distanciamento, o que exalta ainda mais o tom de documento da obra, Lola possui uma cena muito emocionante, quando durante uma tempestade, um cardume de peixes vai parar dentro de uma casa que beira o rio, trazendo fartura e felicidade para a família, uma cena que brinda o expectador com alguma ternura. No mais, Lola é um filme um tanto difícil de assistir os seus quase 100 minutos, o que comprova minha afirmativa foi quando as luzes do cinema se acenderam e seis das dez pessoas presentes na sala estavam dormindo.    

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Difícil não comparar Super , filme escrito e dirigido por James Gunn (que também co – escreveu Madrugada dos Mortos e dirigiu Seres Rastej...

201 - Super (James Gunn/2010)

Difícil não comparar Super, filme escrito e dirigido por James Gunn (que também co – escreveu Madrugada dos Mortos e dirigiu Seres Rastejantes) com Kick Ass de Matthew Vaughn. A premissa de que nunca ninguém quis ser um super herói, e de repente um sujeito meio desmiolado tenta isso, até evidencia essa semelhança, mas quando assistido, Super vai além da aventura juvenil cool, apresentando um drama travestido de comedia e que em certo momento pode até emocionar.

Na verdade, essa trama não chega a ser novidade, em 2009 o diretor Peter Stebbings realizou Defendor com Woody Harrelson, um bom filme, que transita bem entre o drama e comedia, apresentando um personagem com atraso mental que resolve salvar o mundo. Em Super, o personagem principal é Frank D´Arbo (Rainn Wilson), cozinheiro de uma lanchonete que é casado com Sarah (Liv Tyler), viciada em drogas e bebidas. A história começa quando Sarah se vê envolvida com Jacques (Kevin Bacon), traficante de drogas com toda pinta de super vilão, chegando ao ponto de abandonar o marido e ir morar com o traficante. Frank, então, cria o super herói Crimson Bolt, apoiado na visão que teve de Deus ordenando que fizesse justiça, e na esperança de salvar a esposa. Claro que antes do confronto final com Jacques, muita coisa vai acontecer, até aparecer no seu caminho Libby (Ellen Page), uma atendente de uma loja de HQs, tão pertubada quanto Frank e que desconfia que o cozinheiro seja Crimson Bolt, que a essa altura preenche os noticiários dos jornais com suas proezas e consequentemente, após comprovar sua tese, Libby torna – se Boltie, a descontrolada menina prodígio.

Super é uma obra que poderia ter seu lado dramático mais explorado em detrimento a seqüências de ação ou momentos superficiais e engraçadinhos inseridos na historia, mas não deixa de ser uma interessante representação sobre a personalidade humana. O filme também é repleto de violência explicita, o que também mascara o tom melancólico da mesma. O ator Rainn Wilson, da serie The Office e do criticado O Roqueiro, faz um excelente trabalho, criando um personagem demente, mas ao mesmo tempo doce e cativante, que até então só teve duas felicidades na vida: quando se casou e quando ajudou um policial a prender um criminoso. Ellen Page também comprova seu talento, criando um personagem tão icônico quanto a Hit Girl de Kick Ass. O epílogo, com uma seqüência repleta de emoção, faz um filme com algumas imperfeições valer a pena de verdade.

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Totalmente desnecessária mais uma seqüência/remake para a franquia Pânico criada em 1996 pelo diretor Wes Craven , mas quantas continuaçõe...

200 - Pânico 4 (Scream 4/Wes Craven/2011)



Totalmente desnecessária mais uma seqüência/remake para a franquia Pânico criada em 1996 pelo diretor Wes Craven, mas quantas continuações/refilmagens dispensáveis não vêm sido lançadas ultimamente? E até que Pânico 4 diverte, mesmo sem causar medo em ninguém.

A trama de Pânico 4 não é das mais misteriosas, Sidney Prescott (Neve Campbell), depois de dez anos ausente da cidade de Woodsboro, retorna para divulgar o livro que escreveu, dando seu ponto de vista dos assassinatos que presenciou. A sua visita a cidade faz desencadear uma nova onda de crimes protagonizados pelo serial killer Ghostface e claro que as desconfianças caem em cima de todos.

Personagens clássicos da franquia, como o policial Dewey Riley (David Arquette) e Gale Weathers (Courteney Cox) estão lá, com a adição de Jill Roberts (Emma Roberts), sobrinha de Sidney e que representa o mesmo papel que consagrou Neve Campbell. As tradicionais referencias a filmes de terror também não poderiam ficar de fora, mas desta vez satirizando os remakes e os filmes porn – tortures, como Jogos Mortais, tão comuns nesse inicio de século 21. O filme ainda tem um monte de participações e coadjuvantes famosos, como Anna Paquin, Hayden Panetiere, Kristen Bell, Rory Culkin, Adam Brody e Anthony Anderson, o que acaba sendo uma atração à parte assistir a morte de todos eles.

Pânico 4 é um filme totalmente previsível, do inicio ao fim, mas consegue ser cool e ter um bom ritmo, dando – se ao luxo de homenagear Giallos, Slashers e uma cena de veneração explicita ao Iluminado de Stanley Kubrick. Em certo momento um dos personagens cita uma das novas regras dos filmes de terror: o remake deve ser superior ao original, talvez Wes Craven não tenha conseguido, mas atinge uma outra nova regra: não ofender o original.   

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