O diretor Kevin Smith não é uma unanimidade, isso é mais do que verdade, mas sou fã do homem, desde seu O Balconista , aquele sarcasmo todo...

297 - Red State (Kevin Smith/2011)

O diretor Kevin Smith não é uma unanimidade, isso é mais do que verdade, mas sou fã do homem, desde seu O Balconista, aquele sarcasmo todo me identificou bastante com a minha adolescência. Smith trata muito bem de nerdices e afins, com textos imbuídos de cultura pop, fazendo muitas vezes referencias a Hqs, que o mesmo considera o seu berço. Nunca imaginaria que poderia conceber um petardo como Red State. Provavelmente nem deve ser lançado no cinema no Brasil, pois teve uma estréia pífia nos cinemas americanos, o que acabou por tornar a obra maldita, talvez os próprios fãs do trabalho do diretor não tenham apreciado a realização, que foge totalmente das inclinações anteriores e em minha opinião, Smith comete o seu melhor trabalho aqui.

O filme trata de uma situação envolvendo um grupo fundamentalista de religiosos, um deles a monstruosa Melissa Leo, estabelecidos em uma pequena sociedade rural americana. Eles são totalmente contra o homossexualismo e se embasam através do pastor Abin (Michael Parks incrível) que incita a violência explicitamente e subvertendo a Bíblia. Acabam por seqüestrar três jovens para lhes aplicar um severo castigo, mas após uma seqüência de erros dentro da propriedade da Igreja, que ainda carrega um paiol de armamento pesado, uma equipe de policiais anti-terrorismo instauram um cerco, com tendências tão violentas quanto a dos religiosos e um inevitável tiroteio tem inicio.

Nesse fogo cruzado, Smith até consegue imbuir algumas cenas de certo humor, mas a violência é notável nesse filme, surgindo de forma estilizada e mostrando as verdadeiras facetas de como a paranóia tem influenciado o povo americano depois do 11 de setembro, tanto que em uma cena, quando um dos agentes representado por um ótimo John Goodman se reporta a seu superior sobre a presença de crianças dentro da propriedade, recebe uma resposta um tanto enfática dizendo que se fosse em 10 de setembro de 2001 tudo seria diferente, que agora eles são tão terroristas quanto os que combatem. Acho que isso ainda não tinha sido dito de uma maneira tão clara em uma produção americana, talvez essa militância de Smith contra a neurose coletiva tenha sido um dos motivos do fracasso de seu excelente filme em terras ianques.

Red State pode significar um marco para o cinema de Kevin Smith, ainda veremos se positivamente ou negativamente, mas aqui ele mostra um apuro que não aparece em outras produções suas, o excesso de diálogos sai (apesar de ter uma enérgica seqüência racista de 16 minutos do Pastor destilando sobre como o homossexualismo é prejudicial) para dar entrada a uma ágil linha narrativa visual muito bem construída, criando tensão e fazendo o expectador refletir sobre o que é apresentado. Louvável a maneira como constrói a situação sem tomar partido direto e mesmo usando uma sociedade tão peculiar dentro da vastidão do território americano faz um relato das seqüelas da queda de um Império. A única reclamação é não poder conferir esse no cinema.

P.S: Rolou uma Postagem especial de Dia da Bruxas no excelente Blog lematinée da colega Natalia Xavier. Intitulado Mentes Pertubadas que Renascem do Inferno, homenageia os psicopatas e as mentes mais problemáticas do cinema que relutam em sempre voltar das trevas. Contribui com quatro mini-textos no Top 10 feito. Acessem! Ficou divertido demais: Mentes Pertubadas que Renascem do Inferno.


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Uma das nuances mais prazerosas de se ter um Blog e escrever sobre algo que te faz feliz é poder apresentar os teus conhecimentos, apontamen...

296 - Quando os Sinos Dobram/Narciso Negro (Black Narcisuss/Michael Powell, Emeric Pressburger/1947)

Uma das nuances mais prazerosas de se ter um Blog e escrever sobre algo que te faz feliz é poder apresentar os teus conhecimentos, apontamentos e junto com isso conhecer pessoas que compartilham os mesmo sentimentos que você, nesse caso sobre cinema, e assim descobrir as preferências de cada um que freqüenta seu espaço e que você inevitavelmente acaba freqüentando os deles também, uma deliciosa rotina que acaba trazendo novos conhecimentos e amizades. Um dos blogs que costumo visitar com freqüência é O Falcão Maltês, que destila muito bem sobre cinema clássico e recentemente comemorou 1 ano de existência. O seu simpático administrador Antonio Nahud publicou uma lista com suas preferências afetivas em que apontava como o melhor drama em sua opinião Quando os Sinos Dobram, uma obra da qual não conhecia, até porque tenho certo distanciamento do cinema dos anos 40. Assisto muito anos 50, 60, 70 em diante, mas a década de quarenta e outras anteriores são pouco desbravadas por mim, mas sem nenhum motivo especial, talvez falta de referencias mesmo.

Uma copia em alta-definição dessa jóia veio muito bem a calhar para me mostrar o que estava perdendo, Quando os Sinos Dobram é uma maravilha, emocionante, um filme ate certo ponto exótico, mas carregado de poesia, sentimentos e de uma qualidade visual impressionante. Para um desinformado, nem dá para dizer que é uma realização com quase 70 anos, tamanho seu apuro, com uma fotografia impecável e uma trama que carrega certos contrapontos sensuais e um plano que envolve ousadia, mesmo contando a historia da Irmã Clodagh (Deborah Kerr impecável), uma jovem que decide ser freira depois de uma desilusão amorosa e como conseqüência é indicada para estabelecer um convento nas difíceis montanhas do Himalaia, do lado indiano e consequentemente dentro do território de um pomposo General. A dupla de diretores Michael Powell e Emeric Pressburger imbui a sua obra-prima de conflitos, ora entre as freiras e os nativos ora entre elas mesmos, que parecem sofrer psicologicamente pelo excessivo trabalho e ora entre a Irmã Clodagh e o representante do General, o Sr. Dean (David Farrar), um inglês que vive de maneira simples nas colinas e parece guardar tantas reminiscências quanto Clodagh. No embate entre homem rude e freira, é evidente que existe uma tensão atrativa entre os dois, o que acaba sendo um dos pontos altos do filme, mesmo não tendo um desfecho trivial que o expectador espere.

Quando os Sinos Dobram é uma obra de beleza impar (tanto que ganhou 2 Oscar pelo apreço artístico) em muitas cenas, como na seqüência em que vemos a jovem nativa Kanchi (a ainda novata Jean Simmons) paramentada como uma simples indiana, mas mesmo assim linda ao ponto de chamar a atenção do alienado jovem General (o lendário ator indiano conhecido como Sabu) em uma dança para lá de sensual ou os momentos que apresentam um homem santo que passa todo seu tempo meditando nas montanhas ou ainda as vertiginosas seqüências a beira dos penhascos que enchem a tela de apreensão. Definitivamente, uma produção que pode ser considerada a frente de seu tempo, apesar de que ouço que muitas inovações partiram dos anos 40, uma época aonde houve muita perseguição aos realizadores de cinema, mas que mesmo assim não deixou de ser criativa, rendendo filmes antológicos como esse e outros maravilhosos como Cidadão Kane e A Felicidade não se Compra. Uma agradável empreitada que pretendo imprimir desbravando a filmografia desses anos. Alguma sugestão? 

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A maior preocupação do novo filme do diretor Steven Soderbergh , o sisudo Contágio , é fazer um registro o mais perto possível do real do qu...

295 - Contágio (Contagion/Steven Soderbergh/2011)

A maior preocupação do novo filme do diretor Steven Soderbergh, o sisudo Contágio, é fazer um registro o mais perto possível do real do que seria uma severa epidemia de proporções mundiais. Tanto que os conflitos entre os personagens não possuem muita profundidade, até para não tirar o foco do desenrolar da aparição do vírus MEV-1, extremamente mortal e que se alastra rapidamente pela população, sendo transmitido apenas por um toque ou tosse e ainda mais fatal que qualquer um que tenha aparecido antes.

Assim como em Traffic, Soderbergh cria uma teia de acontecimentos envolvendo responsáveis de todo o planeta, como a OMS, um outro órgão de saúde americano, um outro europeu e um asiático. No meio dessa busca para descobrir como surgiu o vírus e estudar uma possível vacina, a trama trata de toda a burocracia que envolve uma situação como essa e as nuances que podem surgir a partir dela, como o blogueiro representado por Jude Law que divulga pela internet que a cura esta muito mais perto do que parece, mas não é citada pelo governo, pois não vai gerar lucro para a indústria de remédios ou uma cientista que é seqüestrada em Hong Kong, aonde a epidemia parece ter começado, para assim obrigar que os próximos dos seqüestradores sejam um dos primeiros a receber a vacina.

Nesse ponto cientifico e técnico da situação, Soderbergh se sai muito bem, criando tensão e paranóia que infringe ao expectador, mas em algum momento, a falta de aprofundamento em tramas de personagens especiais do filme faz a realização tornar-se um pouco desinteressante. As ramificações de historias não congruem e se a intenção do epílogo era emocionar com as seqüências amostradas, o diretor não acerta nesse intento. O elenco de estrelas com Gwyneth Paltrow, Marion Cottilard, Matt Damon, Laurence Fishburne e Kate Winslet conseguem aproximar até certo ponto o expectador do drama e o diretor não se furta em matar alguns deles para tornar as passagens criveis, mas como ficou, Contágio parece um filme frio que soa como um interessante “alerta” e apenas uma razoável experiência cinematográfica. 


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Sinceramente, não me sentia nem um pouco motivado para assistir esse Atividade Paranormal 3 , gostei do primeiro pela inovação no estilo “fa...

294 - Atividade Paranormal 3 (Paranormal Activity 3/Henry Joost, Ariel Schulman/2011)

Sinceramente, não me sentia nem um pouco motivado para assistir esse Atividade Paranormal 3, gostei do primeiro pela inovação no estilo “falso documentário”, mas é o tipo de produção que se desgasta em apenas uma incursão. Lendo alguns textos de pessoas confiáveis que elogiaram o filme fiquei tentado a assistir, pois alguns exaltaram como realmente assustador e definitivamente o filme supera o precursor e faz desse o melhor registro da franquia, sendo ainda baseado em uma historia real da década de 80.

O estilo mockumentary é muito bem empregado aqui, não se restringindo apenas a filmar o quarto do casal, até porque um dos protagonistas é um sujeito que trabalha filmando casamentos e logo que percebe algo estranho, enche a casa de câmeras. A tensão vem em uma crescente e a dupla de diretores cria um ambiente de terror bem real, se apossando de escuridões e fazendo o expectador se assustar muitas vezes, mesmo nas cenas em que não acontecem nada, até porque pode acontecer algo a qualquer momento. Atividade Paranormal 3 não se refuta em amostrar o que deve ser visto e consegue transmitir essa sensação aterradora muito bem.

Em uma das seqüências mais assustadoras, quando uma das filhas do casal e um amigo fazem à brincadeira do “Bloody Mary” dentro de um banheiro, percebi muita gente no cinema olhando para trás e acho que esse é o maior intento do filme: fazer sentir medo. De forma louvável, Atividade Paranormal 3 deixa uma pulga atrás da orelha, será que muitas vezes não somos observados e nem percebemos? Um amigo imaginário de uma criança nunca será apenas uma brincadeira para quem assistir a esse filme. 


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O diretor inglês Paul W. S. Anderson é conhecido por seus filmes violentos, meio gore meio ficção, com visual de games eletrônicos e tramas...

293 - Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers/Paul W.S. Anderson/2011)

O diretor inglês Paul W. S. Anderson é conhecido por seus filmes violentos, meio gore meio ficção, com visual de games eletrônicos e tramas sem muita profundidade, focadas principalmente na ação. A partir desse perfil, não dava para esperar que mudasse essa pegada em Os Três Mosqueteiros e até para o que o filme se propõe eu diria que Anderson consegue atingir sua meta. Não que essa re-imaginação da historia clássica de Alexandre Dumas seja ótima, mas também não é péssima. Um meio-termo que consegue fazer o expectador chegar ao seu epílogo sem muitos contratempos.

Até que a historia se mantêm bem fiel ao primeiro encontro do jovem D´Artagnan (Logan Lerman) com os três mosqueteiros formados por Athos (Matthew MacFadyen), Portos (Ray Stevenson), Aramis (Luke Evans) e apresenta os principais personagens que tornaram notável o texto de Dumas, mas longe da dramaticidade de outras adaptações, essa versão de Anderson tem um ritmo de aventura mesclado a alguns momentos “engraçadinhos” (seja tirando sarro da moda vigente ou do estilo de vida dos próprios mosqueteiros), ainda com tiradas para arrancar algumas risadas da platéia, principalmente às protagonizadas pelo servo gordinho Planchet (James Corden) que inevitavelmente acaba roubando as poucas cenas em que aparece.

A obra tem um ritmo bem acelerado, aonde tudo vai acontecendo rapidamente, como se o diretor quisesse que o expectador não se distraísse com mais nada e nesse ponto até que o filme flui, apresentando alguns planos-sequência em câmera lenta interessantes, dignos do cinema estilizado que Anderson procura sempre fazer. A realização é daquelas despretensiosas e que não se leva muito a serio, talvez isso seja um ponto positivo para Os Três Mosqueteiros, ficando um gostinho de sessão da tarde. Das atuações, certamente a mais destacada é a de Christopher Waltz no papel do Cardeal Richelieu e principalmente a de Milla Jovovich totalmente à vontade no papel de uma espiã dupla boa no quebra-quebra, o que não é nenhuma novidade para a atriz, cada vez mais acostumada a filmes de ação.

Um dos principais pontos negativos é o visual excessivamente de vídeo-game que esse possui, a inserção de um tabuleiro amostrando a evolução dos personagens no filme talvez tenha a intenção de confirmar esse estilo para a obra, mas não dá para dizer que estimula. As cenas de batalhas aéreas também não atingem a emoção almejada por Anderson ao incluir dirigíveis acoplados a navios, no trailer elas parecem ser muito mais interessantes e o 3D que achei que faria diferença nesse, pouco acrescenta. O final em ritmo mais acelerado que ao longo do filme, fica impressão de mais uma readaptação desnecessária, mas mesmo assim deve render uma continuação.


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Mesmo sem ainda ter lançado a sua aguardada animação em captura de performance As Aventuras de TinTim , Steven Spielberg fez seu estilo pre...

292 - Gigantes de Aço (Real Steel/Shawn Levy/2011)

Mesmo sem ainda ter lançado a sua aguardada animação em captura de performance As Aventuras de TinTim, Steven Spielberg fez seu estilo presente esse ano no cinema como produtor do bom Super 8 e nesse mais recente e tão bom quanto Gigantes de Aço. Tudo bem que o megalomaníaco Michael Bay tenha lançado a onda de filmes de robôs no cinema, mas diferente da pirotecnia de Transformers, essa realização comandada atrás das câmeras pelo diretor Shawn Levy investe em um competente drama familiar que usa o boxe entre as maquinas em um futuro não tão distante assim como pano de fundo para contar essa emocionante historia.

Em nenhum momento do filme escutamos os personagens dizer “eu te amo”, mas o sentimento esta presente em muitas de suas cenas, seja no envolvimento que o ex-lutador picareta Charlie Kenton (Hugh Jackman) tem pelo esporte e pela filha (Evangeline Lilly) de seu falecido treinador ou no difícil relacionamento crescente que é imposto de certa forma a ter com Max (Dakota Goyo), o filho que abandonou ainda bebê. São nesses momentos que percebemos a influencia de Spielberg na trama, talvez Levy não tivesse o ponto certo para confluir tantas nuances sem exceder no “açúcar” e ainda assim criar um filme ágil, com ação na medida certa e momentos que podem e devem emocionar o expectador.

Uma outra comparação que tem sido feita de Gigantes de Aço é com Rocky, Um Lutador e acaba sendo inevitável mesmo, até pela maneira como Atom é apresentado, um robô sparring encontrado em um ferro-velho, que assim como seu controlador Charlie passa a ser um tanto desacreditado, ainda com aquele estigma de derrotado que Rocky carregava. A maravilhosa seqüência final é quase uma refilmagem da primeira luta entre Rocky e Apollo e mesmo assim funciona tão bem quanto a sua possível inspiradora.

O cinemão hoje em dia parece ser uma incógnita, quem diria que um dos melhores filmes dos lançados de 2011 sairia de uma produção com toda pinta de anabolizada e feita para crianças? Ponto para o velho e bom Spielberg que ordenou as idéias de Levy e juntos mostraram que o bom cinema pode conjurar efeitos especiais e uma historia simpática e emocionante. A superação nesse caso não foi apenas do robô Atom e seus treinadores.


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É até compreensível que Uma Noite Mais que Louca tenha penado para ser lançado no circuito comercial americano (no Brasil necas), filmado e...

291 - Uma Noite mais que Louca (Take me Home Tonight/Michael Dowse/2011)

É até compreensível que Uma Noite Mais que Louca tenha penado para ser lançado no circuito comercial americano (no Brasil necas), filmado em 2007 rodou nas mãos de vários estúdios majoritários e finalmente nesse 2011 estacionou e teve seu lançamento pela Rogue. Nos dias politicamente corretos de hoje, somente uma empresa mais descompromissada para encarar uma obra que mostra boa parte de seus personagens consumindo cocaína (até então uma droga em alta) explicitamente ou praticando sexo voyeurista. Na verdade, isso são apenas detalhes que compõem essa divertida comédia ambientada nos anos 80 e produzida e estrelada por Topher Grace.

Talvez Uma Noite Mais que Louca seja a realização que melhor tenha captado o espírito da década de 80, mesmo com seus personagens estereotipados, consegue transmitir o sentimento de medo e relegação que pairava na juventude daqueles anos que não queriam viver como seus pais. Apesar de a trama ser desenvolvida como uma típica comedia oitentista, o novato diretor Michael Dowse consegue inserir temas relevantes, principalmente o do personagem de Topher Grace, recém-formado na renomada MIT, mas que trabalha em uma Vídeo Locadora porque tem medo de enfrentar a vida ou a sua irmã vivida por uma morena Anna Faris, que precisa decidir entre se casar com o namorado do colegial ou enfrentar uma pós-graduação na Inglaterra.

Toda a trama é passada durante uma noitada, por isso o péssimo titulo nacional, o que também era recorrente em filmes dos anos 80 e nessa jornada de auto-descoberta do personagem central, acompanhamos um enlace amoroso do rapaz com uma antiga paixão representada pela bela Teresa Palmer, o que rende bons momentos íntimos, deles passeando entre as imponentes casas de Beverly Hills e culminando em uma seqüência arrancada de filmes como A Garota de Rosa Shocking ou Alguém Muito Especial. O filme ainda carrega o clima catártico das festas americanas representadas nessas produções, aonde todos parecem estar vivendo o último dia de suas vidas.

A trilha sonora recheada de sucessos da época é um atrativo a parte, com canções deliciosas do Duran Duran, Motley Crue, The Buggles entre outros menos conhecidos e que deve funcionar muito bem no CD. No mais, Uma Noite Mais que Louca é uma bonita homenagem a uma época aonde todos queriam ser “os moderninhos”, mas mesmo assim pairava ainda certa ingenuidade no ar. Diria que é uma prazerosa sensação de Déjà-vu


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Jean de Florette A Vingança de Manon Ambientado na França rural dos anos 20 e 30, baseado na obra literária de Marcel Pagnol e filmad...

289-290 - Jean de Florette/A Vingança de Manon (Idem/Manos des Sources/Claude Berri/1986)

Jean de Florette
A Vingança de Manon
Ambientado na França rural dos anos 20 e 30, baseado na obra literária de Marcel Pagnol e filmado simultaneamente, a dualogia Jean de Florette e A Vingança de Manon pode ser considerada um marco para o prolixo cinema Francês. Durante muito tempo a produção mais cara do cinema local é desses poucos casos em que se consegue conjurar sucesso de publico e de critica. Não é para menos, a maneira como o diretor Claude Berri conduz a historia até certo ponto simples é extraordinária, focando nos principais temas do texto de Pagnol, como ganância, tragédia, amor e vingança, Berri, que também os roteirizou, concebe com excelência as duas partes, difícil saber qual é melhor e apoiado por um elenco de excelentes atores no auge como Gerard Depardieu, Daniel Auteuil, Yves Montand e Emmanuelle Beart, a obra-prima fica completa.

O inicio de Jean de Florette passa a impressão de uma realização sensível sobre o relacionamento entre o senhor César Souberyan (Yves Montand) e o seu sobrinho Ugolin (Daniel Auteuil), que acaba de chegar da guerra e pretende viver de plantar flores, criando uma das primeiras belas seqüências com o homem ainda jovem se dedicando à plantação e surpreendendo o tio com o feito. Ledo engano sobre a temática, porque quando o dinheiro entra em cena a verdadeira faceta da dupla é revelada. Para produzirem em larga escala as belas flores, eles precisam da fonte de água que nasce no terreno adjacente e não se furtam a arrumar um acidente que leva a vida do velho vizinho, mas o que eles não esperavam é que Jean de Florette (Gerard Depardieu), um cobrador de impostos corcunda e sobrinho do falecido herdaria as terras e se mudaria com a esposa e filha para o local, ainda com o intuito de trabalhar como fazendeiro.

A construção do golpe de tio e sobrinho contra Jean é climatizada de forma lenta, mostrada na primeira parte ao longo de dois anos, quando a dupla veda o fluxo de água do terreno do corcunda, fazendo com que o mesmo sofra com a falta para a irrigação de suas plantações e hidratação de seus animais. É duro ver a determinação do homem para tentar manter tudo nos eixos, mesmo sendo boicotado o tempo todo pelos vizinhos e sofrendo retaliação da população local por ser um homem estudado e da cidade. Depardieu entrega uma atuação excelente, mas nessa primeira parte quem rouba a cena é Daniel Auteuil, deformado com próteses dentarias horríveis, o seu Ugolin é um personagem sórdido, daqueles que se passa por melhor amigo para depois apunhala-lo pelas costas. Apesar de todo o clima dramático, inserido em locações lindas e de difícil acesso, que tornam crível a penosa jornada de Jean, a parte um Jean de Florette é dotada de certo humor, que flui espontaneamente e de maneira maldosa e deixa o publico “espumando” de raiva para assistir a conclusão.

A segunda parte torna-se tão notável quanto à primeira por fugir de uma vendeta mais explicita da filha de Jean, interpretada nesse pela belíssima Emmanuelle Beart. A tal vingança é entendida pela cidade como um castigo de Deus contra as maldades feitas a Jean de Florette, já que a água para de fluir para todo o povoado. A trama pula uma década a frente, mostrando a dupla formada por César e Ugolin prospera nos negócios de flores e a filha de Jean, Manon, vivendo como uma eremita ao lado de uma mulher considerada bruxa nas colinas das terras de seu pai que agora pertencem à dupla de malfeitores. Nesse, Ugolin parece um tanto arrependido com os atos do primeiro filme e resolve pedir Manon em casamento (isso mesmo), mas a moça se apaixona pelo professor local, criando alguns momentos bem íntimos. Recheado de diálogos ácidos e perfeitos que fluem para discussões sobre as verdadeiras facetas da situação apresentada, A Vingança de Manon tem um fecho surpreendente e perfeito para a esmerada produção de Claude Berri.



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O universo juvenil é tão vasto que além das tradicionais comédias, já rendeu outras diversas adaptações para seus moldes, como Ligações Per...

288 - A Ponta de Um Crime (Brick/Rian Johnson/2005)


O universo juvenil é tão vasto que além das tradicionais comédias, já rendeu outras diversas adaptações para seus moldes, como Ligações Perigosas que ganhou contornos estudantis ou Morro dos Ventos Uivantes que foi retratado em um romance adolescente e ainda em variadas produções que são travestidas vez ou outra em dramas interessantes ou usadas com pano de fundo para filmes de terror. Não seria estranho que em algum momento ele ganhasse uma roupagem noir, como nesse A Ponta de um Crime de 2005, protagonizado por um bem jovem Joseph Gordon-Levitt.

Na trama acompanhamos a jornada auto-destrutiva de Brendan (Joseph Gordon-Levitt), um ex-traficante do colegial resignado que banca de detetive para descobrir que fim levou sua viciada namorada, sumida a alguns dias do convívio estudantil. O diretor Rian Johnson, que depois desse dirigiu o ótimo Os Vigaristas de 2008, cria um confuso quebra cabeça que funciona em favor da trama, descortinando as verdadeiras facetas dos personagens estereotipados da historia, seja na princesinha manipuladora viciada em cocaína ou no nerd maldoso que incrimina colegas ou o deficiente físico que parece ser o verdadeiro chefão de todo aquele mundo pervertido apresentado.

Para um apreciador de David Lynch, acaba sendo inevitável a comparação (guardada as devidas proporções) de A Ponta de um Crime com obras suas, principalmente Veludo Azul, até porque o filme carrega algumas simbologias, principalmente à de um desenho que rola de mão em mão em um guardanapo e há certo clima estranho, revestido com uma trilha sonora jazzística e algumas cenas filmadas nas sombras, principalmente as realizadas dentro da casa do traficante/chefão deficiente físico The Pin (Lukas Haas). É notável como Rian Johnson aborda de maneira crua e cruel a biosfera jovem, fazendo os pais dos personagens serem visto como meros servos dos filhos, o que muitas vezes acaba sendo uma verdade, não sendo coniventes, mas fazendo uma eterna vista grossa para a toda a situação.

Nessa obra Joseph Gordon-Levitt começa a demonstrar seu verdadeiro talento, fugindo de papeis de comedia que eram recorrentes em sua curta carreira. O seu Brendan carrega a tristeza e determinação na dose certa para tornar sua busca crível, e o processo degenerativo do personagem é mostrado de maneira impressionante pelo ator, que não se furtou em parecer literalmente um "lixo" em cena, provavelmente o que capacitou ele para protagonizar outros personagens atípicos para um aspirante a galã, como nos filmes O Vigia, Matadores de Aluguel, Stop-Loss e no mais recente Hesher. Certamente o rapaz vive do talento e não do rostinho bonito.


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F ico consideravelmente feliz quando me surpreendo com alguma obra em que não levava fé, principalmente quando é uma realização de terror, u...

287 - Não Tenha Medo do Escuro (Don´t Be Afraid of the Dark/Troy Nixey/2010)

Fico consideravelmente feliz quando me surpreendo com alguma obra em que não levava fé, principalmente quando é uma realização de terror, um gênero que me agrada muito e que infelizmente vem apresentando poucos exemplares bons nos últimos tempos. Não Tenha Medo do Escuro é um filme que vem sendo pouco repercutido, uma injustiça, mas uma rápida olhada na ficha técnica fica mais do que evidente o motivo de seu êxito entre quem assiste, tendo como o principal de seus roteiristas Guillermo del Toro, um dos papas em criar universos fantásticos e estranhos nos últimos anos, que aqui concebe uma historia que tem suas inovações, mas não deixa de ser delineada de maneira clássica, como um bom filme de terror deve ser.

Em Não Tenha Medo do Escuro temos uma mansão imponente e macabra que pertencia a um artista que sumiu junto com o filho inexplicavelmente no final do século 19. Fechada por quase um século, a propriedade é adquirida pelo casal formado por Guy Pearce e Katie Holmes que ainda levam a pequena filha (Bailee Madison) do homem com a ex-esposa para morarem com eles. A intenção deles era reformar o local, considerado um marco histórico por historiadores. Após descobrirem um porão escondido dentro da residência, coisas estranhas começam a acontecer.

O diretor estreante Troy Nixey se apropria bem do texto de Del Toro e comete uma obra que tem uma atmosfera bem parecida com realizações anteriores do cineasta mexicano, como os ótimos A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno. Usa de muitas cenas na penumbra, com uma trilha sonora característica que rendem bons sustos no expectador. Como não poderia ser diferente, apesar de todo o clima macabro criado, o filme tem um pé na fantasia, mas a trama não se abstém de suas maldades em detrimento a desfechos mais cordiais, digamos assim, o que também é recorrente em textos de Del Toro, trazendo até mais credibilidade a produção.

Com certeza, Não Tenha Medo do Escuro pode ser apresentado como uma das boas realizações do gênero nesse ano de 2011, nem mesmo Katie Holmes consegue estragar o filme com aqueles seus irritantes sorrisinhos laterais, apesar de ainda contar com um bom ator como Guy Pearce e da menina Bailee Madison que se sai muito bem, não é um filme de atuações mesmo, vale muito pelo clima criado e como a trama é conduzida, alem de apresentar uma visão bem singular do “mal” apresentado.



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Em um passado nem tão distante assim as locadoras de vídeo mandavam na distribuição de filmes e muitas obras que saiam exclusivamente para h...

285-286 - Dois Filmes de Ação

Em um passado nem tão distante assim as locadoras de vídeo mandavam na distribuição de filmes e muitas obras que saiam exclusivamente para home-video eram conhecidas e divulgadas somente nesses estabelecimentos, que hoje em dia soam cada vez mais retrós ou nostálgicos. Saudosismos a parte, um dos carros-chefe das locadoras eram os filmes de ação, alugados frequentemente e por qualquer tipo de publico, desde pré-adolescentes, passando por casais, grupo de amigos  e culminando em senhores de idade que representavam uma boa fatia desse bolo. Afinal, durante um bom tempo a maior diversão que se tinha era curtir um bom filme de ação, que assim como as locadoras, parecem em extinção, devido à falta de action-heros convincentes ou de apelo para o grande público, cada vez mais acostumado a adaptações de Hqs e remakes. Esses dois recentes exemplares que comentarei abaixo fariam sucesso facilmente em locadoras ou até no cinema há uns anos atrás e ainda tornaria seus protagonistas em astros:

- 12 Rounds (Renny Harlin/2009)

Realizado por um diretor que filmou muitos filmes de ação, como Duro de Matar 2 com Bruce Willis e Risco Total com Stallone, 12 Rounds é um triller de ação que almejava lançar o grandalhão John Cena como action-hero, uma espécie de novo Schwarzeneger, até pela semelhança física também. Claro que o ator não tem o carisma do ex-governator, mas consegue segurar bem a historia do sujeito que tem que passar por 12 desafios para reaver a esposa que foi seqüestrada por um criminoso que ele colocou nas grades há  tempos atrás. Nada mais clichê, nê? Mas Renny Harlin constrói um filme de ação ininterrupta que não soa chato, remetendo muitas vezes ao Duro de Matar, criando ainda aqueles impasses entre policiais locais e os do FBI que chegam para assumir o caso, além de mostrar uma seqüência extremamente tensa e bem realizada dentro de um ônibus. Foi exibido nos cinemas nos EUA, tendo uma bilheteria razoável de algo em torno de 6 milhões de dólares no primeiro final de semana, mas não passou perto de nenhuma sala por aqui, sendo relegado as locadoras sobreviventes ou a um download;

- Quebrando Regras (Never Back Down/Jeff Wadlow/2008)

Lançado um pouco antes do Karate Kid do filho de Will Smith, esse filme é uma clara referencia a historia do mestre e aprendiz, produzido talvez até na intenção de entrar na onda do mesmo, mas claro que é uma versão muito mais anabolizada e menos sensível. Protagonizado por atores conhecidos de series adolescentes como Sean Faris e Cam Gigandet (que fez um dos vampiros “maus” do primeiro Crepúsculo), ainda tem a ilustre presença de Djimon Houson como o Mestre de MMA que treinou com a família Gracie no Brasil, que é apresentado no filme com um dos países mais respeitados nas artes marciais, o que não deixa de ser uma verdade. Com lutas extremamente bem coreografadas, que mostram com qualidade a técnica e a violência do MMA, Quebrando Regras mesmo não sendo nenhum primor tem uma pegada jovem muito boa, personagens carismáticos e talvez não fizesse feio no cinema por aqui. No final de semana de estréia americano teve quase 9 milhões de dólares de bilheteria, feito notável para um filme que custou 20 milhões, mas por aqui nem deu as caras no cinema, assim como 12 Rounds somente em locadoras ou na rede;

Hoje em dia os filmes de ação parecem que viraram produções malditas, relegados a amantes do gênero e sendo mal visto por muitos cinéfilos que os consideram lixo. Claro que o gênero tem sido reformulado vez ou outra, mas mesmo assim somente em superproduções que em sua maioria usam e abusam de CG. Mesmo não carregando grandes atuações ou temas extremamente importantes, o gênero no final dos anos 70 e nos anos 80 ajudou a definir o cinema como diversão e catapultou o home-video. Deveria ser visto com mais importância e tenho que assumir que sinto falta de Stallone, Schwarzeneger, Van Damme e seus contemporâneos (e das locadoras também!). Pode parecer fora de moda, mas divertiram a vida de muita gente.



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A pouca apreciação do trabalho de Michelangelo Antonioni , tendo visto apenas The Passenger , talvez me afaste de um entendimento maior de ...

284 - Blow-Up - Depois Daquele Beijo (Blowup/Michelangelo Antonioni/1966)


A pouca apreciação do trabalho de Michelangelo Antonioni, tendo visto apenas The Passenger, talvez me afaste de um entendimento maior de Blow-Up – Depois Daquele Beijo. A minha intenção era de assistir antes A Noite, A Aventura ou O Eclipse (todos que tenho aqui, mas reluto em assistir, mesmo sabendo que devem ser obras-primas). A motivação para assistir esse veio do texto publicado recentemente no excelente blog Diário de um Cinéfilo, que costumo freqüentar e interagir bastante com seu administrador Ailton Monteiro, que escreveu com propriedade sobre o filme.

Antonioni é tratado como um cineasta difícil, até entendo essa alcunha, mesmo que tendo assistido apenas duas realizações desse diretor, ambas são de uma lentidão impressionante, em que pouca coisa parece acontecer ou o que acontece às vezes não parece ser tão importante assim para o filme, como o que seria o verdadeiro assunto principal de Blow-Up, a tal seqüência de fotos tiradas as esmo de um casal e que guardaria um segredo terrível, fazendo a moça clicada tentar reaver as fotos com o concebedor das mesmas, Thomas (David Hemmings), fotografo renomado, antenado com moda e de atitudes um tanto blasé. Esse encontro entre os dois rende uma sensível cena recheada de desejos e que é estranhamente interrompida, mas talvez a intenção do diretor fosse causar essa sensação mesmo.

Assim como alguns de seus compatriotas, Antonioni parece ser um realizador de esmero visual, construindo muito de sua narrativa com belas cenas, seja passeando junto com o imponente conversível de Thomas e assim amostrando boa parte do clima modernoso da sociedade inglesa durante aqueles anos 60 ou na belíssima seqüência em que o fotografo tira as comprometedoras fotos da personagem de Vanessa Redgrave ou na revelação das tais fotos em sua casa quando parte do mistério é revelado ou ainda em uma cena em que Thomas entra em um show de rock e encontra toda a platéia catatônica, para depois explodir em catarse quando um dos músicos lhes arremessa uma guitarra quebrada pelo mesmo no palco. Como contraponto a falta de diálogos construtores de trama, o cineasta insere um curioso clima sensual, causando certa atmosfera de mistério no filme, com destaque para a seqüência em que Thomas e duas modelos se digladiam em meio a papeis para arrancarem as roupas uns dos outros.

Blow-Up – Depois Daquele Beijo é um filme que exige um pouco mais de atenção do expectador, mas vale muito assisti-lo com interesse e prestando atenção em seus detalhes. Talvez caiba naquele conjunto de obras para serem sentidas em vez de entendidas, mas de qualquer maneira acho que é um filme que deve ser visto mais de uma vez, para uma apreciação mais completa. A seqüência final, com o grupo de mímicos jogando tênis, é uma das coisas mais bonitas que vi em matéria de cinema. Digna de fazer parte de um filme considerado obra-prima.


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O dramaturgo americano Tennessee Willians é um dos escritores que teve sua obra francamente adaptada para o cinema, felizmente sendo na ma...

283 - Esta Mulher é Proibida (This Property Is Condemned/Sidney Pollack/1966)


O dramaturgo americano Tennessee Willians é um dos escritores que teve sua obra francamente adaptada para o cinema, felizmente sendo na maioria das vezes muito bem realizada como em Uma Rua Chamada Pecado, Gata em Teto de Zinco Quente e nesse belo e tocante Esta Mulher é Proibida. Os temas principais do escritor estão aqui: desejos reprimidos, uma bela mulher sensual, um recém-chegado na cidade, clima sufocante, tudo concebido visualmente com maestria e talento pelo diretor Sydney Pollack, que inegavelmente extrai magia e melancolia da obra de Willians.

Logo após a especial seqüência inicial somos apresentados a Owen Legate (Robert Redford), um misterioso sujeito visitante na pequena cidade de Dodson no Mississipi. Em meio a uma festa ele se instala na pensão de uma mãe com tendências lascivas, abandonada pelo marido e que cuida das filhas de maneira torta, uma delas a bela e espevitada Alva (Natalie Wood), uma moça que vive de sonhos e se diverte seduzindo a maioria dos homens da cidadezinha com consentimento da mãe. A atração inicial entre os dois é evidente, mas Owen, controlador e sensato, trata a moça com distanciamento, o que acaba a atraindo mais ainda, até porque ela nunca havia sido repelida de tal maneira, sendo tratada como uma qualquer.

Como sendo uma adaptação literária, Pollack poderia por optar por explorar mais o lado romântico da historia, mas o diretor cria uma trama em que mescla o envolvimento do casal com cenas de demissões dos trabalhadores da ferrovia que sustenta a pequena Dodson, o que era o verdadeiro intento de Owen ao visitar a cidade. Um contraste imenso, como se Owen trouxesse a tristeza para todos da cidade e a felicidade para apenas um. Mesmo sendo repleto de momentos sensualizados, o romance é delineado como uma fabula, mas a toda hora a realidade vem a bater na cara dos protagonistas, como em uma cena maravilhosamente romântica em que o casal sai do cinema literalmente nas nuvens para depois Owen levar uma violenta surra dos trabalhadores demitidos.

O trabalho de direção de Pollack (que era considerado um dos melhores nesse ponto), mesclado ao evidente talento dos atores concebe uma obra em que todos estão muito bem em cena, desde a menina Mary Badham que pela sua visão a historia vai sendo contada, até o personagem de Charles Bronson que interpreta com propriedade o sujeito obcecado que seria o vilão da historia junto com a atriz Kate Reid que faz a interesseira mãe da moça. Robert Redford atua com classe, dignificando com maestria seu personagem que mescla dureza com sensibilidade e Natalie Wood? Bom, essa está em um dos seus melhores momentos, linda, exalando libido, de arrepiar os pelos e entregando uma atuação emocionante e de qualidade. Resumo: um filmaço obrigatório.


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Produzido na Estônia, um país sem muita tradição cinematográfica, A Classe , que chegou a ser cogitado para concorrer na premiação do Oscar ...

282 - A classe (Klass/Ilmar Raag/2007)

Produzido na Estônia, um país sem muita tradição cinematográfica, A Classe, que chegou a ser cogitado para concorrer na premiação do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008 é uma contundente abordagem do universo adolescente e estudantil baseado em um fato real. Em tempos de bullying e burnout, a obra dirigida pelo diretor local Ilmar Raag é daqueles filmes para se assistir com “sangue nos olhos”, um soco no estômago mesmo, como se o próprio filme quisesse fazer sentir a violência exibida ao expectador.

Inicialmente, torna-se inevitável a comparação com Elefante de Gus Van Sant, mas diferente da forma contemplativa da tragédia de Columbine amostrada por Van Sant, A Classe é um filme com uma linguagem narrativa muito mais ágil, fazendo o expectador muitas vezes se ajeitar na poltrona para ver o que virá a seguir e o que vem é dolorido, tenso, fazendo a boca secar e a pulsação aumentar. Porque o que vemos é uma seqüência de violências que levam a mais violência, tanto mental quanto física e tudo impressionantemente realístico. O diretor Ilmar Raag concebe com propriedade, separando todos os lamentáveis atos em capítulos que representam muito bem esse tipo de violência praticada em escolas e que em algum momento da vida nos já vimos acontecer, mesmo que mais contida, mas não deixando de ser opressão.

Na trama, um dos alunos resolve defender um outro que sofre diariamente com humilhações e coação, sendo assim mal visto pelos antigos colegas e consequentemente acaba sendo vitima das mesmas atrocidades. Apesar de focar muito mais nas afrontas, a trama nos amostra também alguns elementos que ajudam a criar o clima insustentável que se forma, como o pai violento que não aceita que o filho seja surrado e obriga o mesmo de forma violenta que revide, quer dizer, o garoto já sofria bullying dentro de casa ou os professores que parecem querer resolver o problema, mas só se preocupam com o fato dentro de sala ou de maneira institucional, até porque a mentalidade está criada e infelizmente eles ficam de mãos atadas e parecem não ter muito que fazer.

O interessante é que o filme mostra como a situação toda é vista de maneira invertida, claro que mais violência não é a solução, mas assim como em Elefante a situação é tão sem saída que o desfecho parece ser inevitável e Raag concebe a seqüência final de uma maneira que há essa inversão mesmo, os vilões do filme são visto como vitimas, mas não deixam de ser também, tão vitimas quantos os pobres garotos (alias, todos são vitimas de uma sociedade que procura não se adaptar ao que é diferente). Alguns vão acusar A Classe de ser sensacionalista, mas vejo como um diálogo mais do que interessante sobre esse polêmico tema que já rendeu outras tragédias em paises com culturas diferentes, mas uniformizados pela mesma ignorância. Um filme obrigatório, que deveria ser exibido em praça publica e não ficar relegado a cinéfilos. 


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Fato que Capitães da Areia têm problemas, como a narrativa que não chega a lugar algum, mas também é inegável que o filme tem seus momentos...

281 - Capitães da Areia (Cecília Amado/2011)

Fato que Capitães da Areia têm problemas, como a narrativa que não chega a lugar algum, mas também é inegável que o filme tem seus momentos, principalmente pela trupe de crianças e pré-adolescentes que compõe o grupo de meninos de rua do titulo. Eles são a alma do filme da estreante Cecília Amado, neta do escritor Jorge Amado, autor do texto do qual o filme se baseia. O elenco carrega o filme nos ombros, que carece de uma historia mais estruturada e acaba apelando para o açúcar em excesso, tornando a realização do meio para o final enfadonha, talvez a trilha sonora de Carlinhos Brown ajude a criar esse clima, porque assim como o filme, as canções oscilam entre razoáveis e ruins.

O laboratório feito com o elenco amador é notável, conseguindo arrancar atuações tão boas até quanto o limite deles pode, fazendo o expectador inicialmente se divertir bastante com a irreverência dos meninos, que carregam em frases de efeito para nos aproximar ainda mais do filme, mas passado o deslumbre inicial com o talento emergente de alguns, como Jean Luis Amorim que faz o líder Pedro Bala ou o deficiente físico Israel Gouvea que faz o polêmico Sem Pernas, o filme parece que não sai do lugar, podendo soar até como uma alegoria publicitária, como vem sendo acusado por boa parte da critica especializada.

Não li a obra literária de Jorge Amado, que é considerada por muitos como uma obra-prima, mas a intenção da diretora Cecília Amado deve ter sido de trazer um recorte do texto, até porque o livro é um calhamaço e deve ter um universo mais complexo. Então o que vemos são varias cenas costuradas, como o grupo batendo carteiras ou assaltando casas ou se desentendo, essas brigas internas acabam rendendo uma ótima cena de briga em uma estação de trem que para mim é uma clara referencia a O Selvagem da Motocicleta, mas como não li ninguém comentando sobre isso, talvez tenha sido impressão minha mesmo.

Houve algumas adaptações encima do texto original para que o filme soasse mais jovial, como a transposição dos anos 20 para os anos 50, podendo fazer Capitães da Areia parecer um filme de época, mas se houve essa intenção também foi por água abaixo, porque esse viés é pouco explorado. Apesar de parecer um filme torto, é bem provável que a real intenção da diretora fosse de fazer uma obra sobre ritos de passagem, até por ter interrompido as filmagens em quase dois anos para que o elenco crescesse fisicamente, mas o resultado não é tão marcante nesse intento e acaba valendo alguma coisa pela diversão proposta pelos meninos.


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Quero Matar meu Chefe pode não ser a melhor comédia do cinema em 2011, mas se apresenta como um delicioso exercício de humor negro e vou al...

280 - Quero Matar meu Chefe (Horrible Bosses/Seth Gordon/2011)

Quero Matar meu Chefe pode não ser a melhor comédia do cinema em 2011, mas se apresenta como um delicioso exercício de humor negro e vou além, se fosse concebido pelos talentosos Irmãos Cohen talvez viesse a ser uma pequena jóia, dado a habilidade da dupla em conduzir historias com temática cruel e mesmo assim dar uma comicidade toda especial a elas, mas o novato Seth Gordon não é nenhum dos dois e acaba derrapando em alguns momentos.

Talvez o maior problema de Quero Matar meu Chefe seja o personagem da dentista ninfomaníaca representada por uma morena Jennifer Aniston, ela esta mais sensual do que nunca, mas a vertente relacionada ao funcionário que ela assedia não parece tão importante, fazendo a moça ficar em segundo plano e acaba descreditando um pouco o intento da trinca de amigos que deseja matar os próprios chefes. Até porque Jennifer Aniston não é tão “assassinavel” assim.

Por um outro lado a trinca protagonista (Jason Bateman, Jason Sudeikis e Dale Arbus) apresenta excelente timing cômico e química em cena, principalmente Dale Arbus que se destaca em quase todas as seqüências, principalmente uma em que aparece doidão de cocaína depois de espalhar um bocado da droga na casa de um dos chefes. O filme tem algumas referências interessantes como a Pacto Sinistro de Hithcock, quando os amigos decidem um matar o chefe do outro, mas fica tudo um pouco na superficialidade, até porque do meio para o final o filme perde um pouco da pegada de suspense para apostar mais em uma comédia de erros.

O filme ainda é repleto de atores conhecidos e consagrados como os chefes a serem assassinados (Jennifer Aniston, Kevin Spacey e Collin Farrell irreconhecível), Donald Sutherland que faz uma pequena ponta, Ioan Gruduff como um michê de trabalhos repugnantes, mas de todos quem realmente acaba roubando a cena do filme é Jamie Foxx com o seu Filha da Puta Jones, um personagem picareta que é o guru da trupe na questão dos assassinatos. Com um espírito politicamente incorreto até o talo, Quero Matar meu Chefe não é notável, mas rende boas risadas.


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Um descrente no trabalho do cineasta Jose Mojica Marins talvez não entenda o culto em cima de À Meia-Noite Levarei sua Alma , mas analisan...

279 - À Meia-Noite Levarei sua Alma (José Mojica Marins/1964)


Um descrente no trabalho do cineasta Jose Mojica Marins talvez não entenda o culto em cima de À Meia-Noite Levarei sua Alma, mas analisando a obra desse lendário diretor fica explicito e compreensível a reverencia em cima dessa produção datada em 1964. Seria nosso Zé do Caixão o precursor dos assassinos em series? Concebendo um estilo, mesmo que seminal, para o cinema taxado como de Horror? Claro que o próprio gênero existe desde sempre, mas o nosso glorioso Mojica apresenta uma faceta dele com viés hardcore, meio pré-gore, misturadas a crendices populares pertinentes ao nosso povo, dando um caráter bem especifico ao que seria um filme de terror brasileiro.

Claro que para apreciar Á Meia-Noite Levarei sua Alma em sua plenitude deve se entrar na viagem proposta pelo diretor, até porque o filme não carrega grandes atuações (excetuando a do próprio diretor) e em muitos momentos o que vemos são monólogos que evocam o sobrenatural e religião, que são desafiadas por Zé constantemente. Alias, nosso querido Zé do Caixão não acredita no além nessa sua primeira aparição cinematográfica. O que Zé quer é a continuação do seu sangue, um filho, mas sua esposa Lenita, infértil, não consegue brindar o coveiro com seu desejo. Zé não vai desistir, mesmo que para isso ele tenha que matar a esposa, seu melhor amigo e assim ter caminho livre para tentar a concepção de seu rebento com a noiva do mesmo pobre rapaz.

O visual do filme também impressiona, com certo toque expressionista em alguns momentos e outros que se utiliza de uma linguagem cartunesca, fazendo algumas cenas soarem experimentais e únicas. É notável como Mojica concebe um clima de suspense, mesclado a estranhamento se utilizando de poucos recursos. Um dos outros pontos interessantes de À Meia Noite Levarei sua Alma é o flerte do diretor com a sensualidade, mesmo que bem mais contida aqui, mas iniciando um estilo que desenvolveria em realizações seguintes, misturando o gore a mulheres sensuais e reverentes ao Mestre do Mal. O jogo psicológico que Zé do Caixão desenvolve com os moradores supersticiosos da pequena cidade ajuda a aproximar o expectador do medo que o próprio filme faz alusão.

As impressionantes seqüências concebidas para o epílogo do filme fazem À Meia Noite Levarei sua Alma ficar impresso na retina de quem o assistir. Difícil esquecer mesmo, pode soar underground e tosco nos dias de hoje, até pelo preconceito nacional que existe em cima desse polêmico e talentoso diretor, mas o público americano, bobo que não é, e acostumado a apreciar obras diferenciadas, reverencia o nosso Zé do Caixão (ou Coffin Joe para eles) como o mesmo merece: um verdadeiro Mestre!


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Tendo assistido recentemente Disque Butterfield 8 , me senti na obrigação de assistir esse premiado com a estatueta de melhor filme naquele...

278 - Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment/Billy Wilder/1960)


Tendo assistido recentemente Disque Butterfield 8, me senti na obrigação de assistir esse premiado com a estatueta de melhor filme naquele ano, Se Meu Apartamento Falasse, no qual para conferir a atuação de Shirley Maclaine, que concorreu ao Oscar de melhor atriz com Liz Taylor na premiação de 1960. A atuação de MacLaine é muito boa, não supera a de Taylor, mas sinceramente quem manda no filme de Billy Wilder é Jack Lemmon, o ator fetiche de Wilder e que brilhou em outras maravilhosas obras (Quanto Mais Quente Melhor e Irma, La Douce) desse importante diretor nascido em 1906 na Galicia, hoje conhecida como Polónia, mas radicado nos EUA e no cinema americano.

Se Meu Apartamento Falasse é uma obra a frente de seu tempo, deve ter causado certo frisson mostrando altos executivos nova-iorquinos metidos com adultérios, celebrando noitadas e fanfarronices em detrimento aos bons costumes sempre pregados pela sociedade americana. A cena da festa de natal em que vários empregados (tanto homens quanto mulheres) da Corretora de seguros em que C.C. Baxter (Jack Lemmon) trabalha aparecem “se pegando” é revestida de ousadia, prevendo até como funcionaria muitas das relações casuais de hoje em dia, ou seja, fazemos sexo hoje e nem nos cumprimentamos amanhã, uma critica acida a uma nova sociedade que parecia surgir nesses distantes anos 60.

Na trama, Baxter é um executivo que ascende na empresa emprestando o apartamento aonde mora para que seus superiores possam ter encontros sexuais com suas respectivas amantes. Um verdadeiro motel, que parece não incomodar tanto o rapaz, já que ele esta subindo rapidamente de cargo no trabalho, fazendo ainda render a ele uma falsa e cômica fama de garanhão entre os vizinhos. Baxter se interessa por Fran (Shirley Maclaine), a ascensorista do prédio aonde trabalha, mas ela nem liga para ele. Ao voltar para o seu apartamento depois de um empréstimo para um de seus patrões, acaba descobrindo que uma das amantes dele é a sua Fran e alem disso a moça esta desacordada em sua cama depois de tentar um suicídio.

Claro que a sinopse ate sugere uma obra com enfoque mais dramático, mas Wilder trata tudo com certas sutilezas, imbuindo a realização com um humor mordaz, caracterizado pela atuação magnífica de Jack Lemmon, contido nas caretas, mas concebendo um personagem que faz o humor surgir espontaneamente, seja escorrendo o macarrão em uma raquete de tênis ou obrigando a moça a jogar cartas em um jogo totalmente desinteressante ou ainda bancando de enfermeiro para que a mesma não venha a tentar cometer um suicido novamente. No epílogo, tudo parece conspirar para que o filme termine em uma espécie de anti-romance, mas Wylder concebe uma seqüência final mágica em que coloca tudo nos seus conformes. Um filme brilhante que faz jus a fama de seu diretor.


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Uma das lendas que reza sobre Disque Butterfield 8 é que só teria rendido o primeiro Oscar a Elizabeth Taylor devido a reverência que o p...

277 - Disque Butterfield 8 (Butterfield 8/Daniel Mann/1960)


Uma das lendas que reza sobre Disque Butterfield 8 é que só teria rendido o primeiro Oscar a Elizabeth Taylor devido a reverência que o público fez a atuação da atriz, criando um verdadeiro culto sobre a personagem Gloria Wandrous e que Taylor não seria a favorita para o prêmio, que já era dado como certo para Shirley MacLaine por Se Meu Apartamento Falasse de Billy Wilder. Não deixa de ser uma história interessante, até por Elizabeth Taylor ter protagonizado filmes anteriores tão bons como esse, citando apenas Gata em Teto de Zinco Quente ou o épico Assim Caminha a Humanidade, mas parece que nenhuma dessas duas obras conseguiu arrebatar tanto o público americano quanto esse que narra a historia da prostituta de luxo que se apaixona por um de seus clientes, assim tornando inevitável a premiação da atriz.

Histórias de premiações a parte, Disque Butterfield 8 é um filme notadamente diferenciado, seja pela magnífica atuação de Taylor ou pelo clima de beleza melancólica que vai fluindo lentamente, mas acaba impregnando a obra do competente diretor Daniel Mann. Apesar de tratar de um texto polêmico para a época, Mann consegue realizar com elegância, humanizando Gloria, que é tratada como uma modelo de roupas a serviço da tal agencia Butterfield 8. Fica escancarado para o público que Gloria é uma prostituta, mas o diretor deixa a revelação implícita, guardando para a mesma revelar para sua própria mãe em uma cena emocional e ao mesmo tempo delicada, com destaque também para a atriz Mildred Dunnock, que representa perfeitamente a mãe que finge não querer ver a verdadeira vida da filha.

Tendo um revestimento dramático pessoal a Gloria Wandrous, que ainda se apóia na amizade de um musico falido representado pelo excelente Eddie Fisher, entra em cena o tema principal do filme: o amor impossível. Seria Gloria capaz de amar alguém sem restrições? Ou ainda sem receber gratificações materiais? Aquele amor romântico guardado apenas as princesas nos contos de fada? Gloria queria viver seu conto de fadas, mas sofria retaliações por ela mesmo, achando que a vida não poderia render felicidade a uma desajustada, que toma gim no café da manhã ou rouba casacos de mil dólares para usar em sua vingança mesquinha. Seu contraponto é o industrial Weston Ligget (Laurence Harvey), que parece carregar tantas reminiscências quanto ela, um desordenado social, vivendo a margem da milionária esposa e que encontra em Gloria sua verdadeira contraparte.

Com cenas memoráveis, como uma em que Gloria revela de maneira explosiva o que aconteceu consigo quando tinha apenas 13 anos, criando um dos pontos mais altos do filme ou no epílogo incrivelmente ágil e cruel, Disque Butterfield 8 nem precisava de uma premiação da academia para ficar marcado na historia  como uma das grandes atuações dessa lendária atriz, que quando em cena, sempre elevava o cinema, fazendo a ele jus à alcunha de sétima arte.


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“Se o presente é insatisfatório é porque a vida é insatisfatória”, a citação do escritor Gil ( Owen Wilson ) é carregada de veracidade, que...

276 - Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris/Woody Allen/2011)

“Se o presente é insatisfatório é porque a vida é insatisfatória”, a citação do escritor Gil (Owen Wilson) é carregada de veracidade, quem nunca sonhou viver em outra época? Uma em que as coisas fossem mais fáceis ou mais felizes. Uma das nuances pertinentes ao ser humano é viver do passado, até porque muitas vezes o passado pulsa dentro de nós, nem é necessário povoar a nossa nostalgia com tantos personagens famosos, como faz o mestre Woody Allen em seu filme, às vezes uma lembrança de momentos felizes com amigos já nos faz fazer uma viagem no tempo.

Uma delicia esse Meia Noite em Paris, um filme para assistir com um sorriso no rosto de cabo a rabo. Desde o momento em que Gil entra a primeira vez no antigo Renault e todo um passado de influencias vai traçando a vida do personagem. Uma festa com os Fitzgerald, um drinque com Hemingway, apreciar uma canção tocada por Cole Porter, contemplar uma obra de Picasso, são tantos personagens especiais que povoam a madrugada de Paris que fica difícil lembrar e citar todos. Woody Allen nos propõe uma viagem no tempo mágica para depois nos mostrar que o próprio tempo acaba sendo feito por cada um, não adianta viver de passado, mesmo sendo tão delicioso e atrativo, mas que devemos reverenciá-lo e usa-lo como inspiração para a vida.

Divagações a parte, Meia Noite em Paris apresenta uma cena antológica atrás da outra, como quando Gil visita a escritora e poeta Gertudre Stein (Kathy Bates), que parecia ser a mentora de um invejável grupo de artistas, para que ela leia seu livro ou em uma cena única e impagável em que o escritor sugere a Luis Buñuel que realize o antológico Discreto Charme da Burguesia ou seria O Anjo Exterminador? Ou ainda na viagem no tempo dentro da viagem no tempo em que junto com sua musa inspiradora, representada pela bela Marion Cottilard, eles visitam a Belle Époque e o mesmo percebe o verdadeiro significado de tudo aquilo que está vivendo, com essas improváveis incursões temporais que ainda afloram os verdadeiros sentimentos que mantém com sua fútil noiva (Rachel McAdams) na vida real.

Se Meia Noite em Paris anda sendo considerado um Woody Allen menor, pode até ser, não contem a força narrativa de recentes obras como Match Point e O Sonho de Cassandra, mas se junta a encantadoras realizações como Tudo Pode dar Certo e Vicky Cristina Barcelona, que apresentam um cineasta que mesmo com seus 76 anos parece ter um vigor inesgotável, escrevendo e filmando em profusão e sempre nos brindando com obras no mínimo interessantes, que não é o caso deste, que pode ser considerada como uma preciosa jóia. Woody Allen é como o bom vinho, quanto mais maduro melhor.


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